Em 2023, Berlok lançou Terra Terra, um álbum que, apesar de marcar a sua estreia discográfica, se afirmava também como um gesto de síntese de vários anos de pesquisa à procura de uma linguagem sonora capaz de cruzar diferentes estilos, histórias e gerações cabo-verdianas. Agora, com Trap Terra Terra 2, o produtor regressa a uma das matrizes do seu processo criativo: o sampling e o remix, reafirmando o papel histórico que os DJs assumem na reinvenção das músicas nas pistas de dança e nas identidades que nelas se afirmam.
Com um olhar atento à história, neste novo álbum Berlok parte de temas clássicos e contemporâneos do cancioneiro musical e político cabo-verdiano, evocando tanto referências do período da luta de libertação como artistas e compositores que continuaram esse legado. Ao fazê-lo, reconfigura essas memórias numa nova linguagem sonora, procurando reinventar esse património ao colocá-lo em contacto com as linguagens e as escutas das novas gerações.
Nesta nova viagem sónica encontramos ecos de Os Tubarões e de Tito Paris, fragmentos da voz de Cesária Évora, composições de Paulino Vieira, Ferro Gaita, António dos Santos ou Codé di Dona, bem como referências a discursos de Amílcar Cabral. Ao mesmo tempo, Berlok constrói colagens com gravações de vozes de pessoas que lhe são íntimas, gestos de memória que lhe dão combustível para continuar o caminho.
Nesta conversa fala-nos da origem do álbum, das histórias e das razões dos samples, e da confirmação que encontra nas pistas de dança. Não é por acaso, aliás, que muitas destas músicas tenham sido experimentadas primeiro em sets de DJ, vivendo tanto do passado que evocam nos ecos do sampling como da energia dos corpos em movimento. Afinal, como se percebe ao longo desta entrevista, quando Berlok fala do passado está quase sempre a falar do futuro. E, a avaliar pelos planos que aqui antecipa, esse futuro promete e já está em movimento.
Quando lançaste Terra Terra (2023), explicaste-me que o processo de construção desse álbum foi também um processo de aprendizagem para ti. Não se centrava apenas em ter uma música tradicional de Cabo Verde numa pista e um beat de trap ou de drill noutra. Mais do que uma mistura, a tua ideia era criar um estilo orgânico que nascesse do encontro dessas várias referências sonoras. Neste novo álbum, Trap Terra Terra 2, sentes que continuas o processo de construção desse estilo ou houve outros elementos que quiseste trazer?
Em primeiro lugar, é preciso explicar o que é um e o que é outro. Terra Terra foi um álbum totalmente de originais. E aproveito para agradecer a vossa colaboração a pensar e a divulgar esse disco e todos estes nossos projetos mais underground. Não falo só de mim: falo também de Acácia Maior, do Lula’s [Cachupa Psicadélica] e de muitos outros. São projetos originais, underground e independentes que vão construindo uma sonoridade nova. É uma sonoridade que se calhar já está aqui há uns anos, que pode até já ser daqui, e à qual muito pessoal já vai beber quando procura sons que partem de dentro da música de Cabo Verde para construir estilos novos. Terra Terra foi um álbum que eu lancei nesse processo, com apoio do Dino [D’Santiago]. Mas, para contar a história toda, a origem desse primeiro álbum nasceu, na verdade, de um projeto que fiz antes, em 2019, e que se intitulava Trap Terra Terra. Nesse EP eu samplava músicas tradicionais de Cabo Verde e fazia beats de trap com essa base. Nessa época produzia para os rapazes, sobretudo de São Vicente, e foi aí que comecei a samplar. Foi assim que surgiu esse meu primeiro projeto, o Trap Terra Terra, que mandei ao Dino depois de ouvir o Mundu Nôbu. Só depois disso é que fiz o meu álbum de originais.
Quer dizer, então, que este novo álbum regressa a essas origens?
Sim. Antes de ter feito esse meu álbum de originais em 2023, eu já tinha feito muita música antes e já tinha muitas ideias. Foi também nesse período de descoberta que se dá o meu encontro com o Henrique [Silva], que colaborou comigo no Terra Terra. É verdade que eu falo muito no trap, mas quando oiço esse álbum, sinto bué sonoridade diferente: jazz, rock, música tradicional… Está tudo lá metido. Acho que nesse meu álbum de originais existe uma sonoridade diferente que vem dessa mistura. Agora este Trap Terra Terra 2, que acabei de lançar, é outra coisa, porque é muito mais baseado no sampling. Foi um processo em que, ao contrário do disco anterior, eu fiz questão de fazer tudo sozinho. Mixei tudo, masterizei tudo, produzi todas as faixas. O álbum era para ter saído no ano passado, mas resolvi lançar agora para marcar o início deste ano com este projeto que antecipa vários outros lançamentos. Posso dizer que há essas duas dinâmicas diferentes: o meu trabalho de originais, em que faço colaborações — inclusive com cantores e instrumentistas — e o meu trabalho baseado no sampling e nos remixes, em que faço tudo sozinho, até na parte da engenharia.
E como é que aprendeste a trabalhar nessa parte da masterização e da engenharia sonora?
Fui aprendendo. Tenho alguns cursos online e vou experimentando. Mas também vem da necessidade. A questão é que, muitas vezes, os engenheiros de som não me entendem, porque é uma sonoridade nova. Os músicos, e as pessoas que no geral trabalham com música, vão entender bem o que estou a dizer. Às vezes tu fazes uma música e mandas para o engenheiro. Só que ele não entende a tua loucura e vai pôr a tua música encaixada numa box, numa caixinha: ou de “dance”, ou de “jazz”, ou de “rock”, ou de “tradicional”. E o que acontece é que, por causa disso, ele vai colocar a música numa sonoridade que não é aquela em que pensaste. É por isso também que tenho vindo a criar a minha cena. O trabalho é criar, criar, criar! Foi por isso que neste álbum decidi fazer tudo.
No álbum samplas músicas de vários artistas — Tito Paris, Os Tubarões, Ferro Gaita, Paulino Vieira, Codé di Dona, etc. — mas também usas voice notes de pessoas próximas, como o Amadeu Carvalho, que inclusive fez a capa do teu disco anterior. Explica-me um pouco porque optaste por samplar estes artistas neste disco e como pensaste as diferentes colagens.
Eu gosto de samplar por dois motivos. Eu samplo, em primeiro lugar, para sentir. Preciso mesmo disso. Por exemplo, a música “Fidju” é baseada numa música anterior do Paulino Vieira e é uma música que fez todo o sentido tocá-la agora. Cabo Verde está a passar por uma situação muito complexa. É verdade que vai inclusive agora para a Copa do mundo, mas há muita gente a pegar em coisas que são muito fantasiosas. Há muita fantasia. Eu acho que, neste momento, a nossa geração, aqueles que nasceram algures nos anos 90, início dos 2000, está totalmente desconectada do que é a intervenção, do que é sermos ativos política e socialmente. Estamos desconectados da cena política. São Vicente, por exemplo, que é de onde eu sou, está a viver vários problemas e é preciso intervir. Foi também por isso que essa música fez sentido para mim: porque ela fala dessa ideia de que é preciso lutar pela liberdade da nossa terra. Na altura falava-se de pegar em armas para lutar contra o colonialismo. Mas, nesta nossa época, a nossa geração também precisa de encontrar e pegar nas suas próprias armas. A situação é difícil: dificuldades, emigração em massa, um grande problema com o narco… E, em termos políticos, a nossa geração está pouco ativa, estamos a deixar tudo ao deus-dará e isso vai ter impacto.
Essa é uma realidade que contrasta com a ideia que muitas vezes se vende cá de Cabo Verde como uma espécie de postal de turismo.
Exato. Essa imagem utópica, essa imagem de local de férias, bonita, não é realmente aquilo que está a acontecer. Todas as ilhas têm problemas, mas falando da minha ilha, São Vicente, sempre foi uma ilha popular, de músicos, de pensadores, um povo de cultura, mas sinto que estamos a perder identidade. Toda a gente sabe, mas muitos fazem vista grossa. Inclusive as pessoas com voz não estão a falar dos problemas como deveriam. Repito: politicamente, não estamos a ser ativos.
Nessa perspetiva, como olhas para a polémica que tem acontecido em São Vicente com o Carnaval?
É complexo. Eu tenho a música “Mandinga”, que é um original que procura ser uma homenagem a essa sonoridade do Carnaval. É uma música que toca várias gerações. Eu fiz essa música por causa das saudades que tinha do Carnaval, é a festa que sinto mais. O problema do Carnaval em São Vicente é que há ali muito jogo político. É provavelmente a época em que voltam mais emigrantes; é uma tradição muito antiga, das nossas mães, das nossas avós. E há muito que a capital acha que são reunidos ali muitos esforços e muito dinheiro para fazer acontecer o Carnaval. O que eu acho é que o povo devia pegar no Carnaval e fazer uma coisa rentável, autónoma, que fizesse toda a gente ganhar dinheiro e que ao mesmo tempo enriquecesse a cultura da ilha. O Carnaval é uma parte fundamental da cultura de São Vicente. Mandinga é cultura, é expressão de cultura do povo, do povo do gueto. Tu tens o Carnaval organizado, com os grupos, com o folclore, que é o Carnaval, digamos, “oficial”. Mas há todo esse Carnaval popular, dos bairros, que foi onde começou. Na minha opinião, o pessoal devia concentrar-se em fazer desse Carnaval um dos expoentes máximos de São Vicente, preparando com tempo, para que seja rentável e todos ganhem: a senhora que vende comida, o soldador, o pintor, os bailarinos, os músicos, os cantores, os escritores, toda a gente. São Vicente sempre foi uma ilha de muita expressão artística. Quando tu és artista precisas de te expressar. É por isso que nós saímos à rua com uma pintura na cara, com a dança, com a música. O que eu acho é que o pessoal devia pegar nesse Carnaval e fazer big! Preparar com tempo um São Vicente bonito, cheio de cultura, para o povo e para quem nos visita. Um Carnaval com cultura, com uma mentalidade aberta e feito para todos.
E voltando ao disco, todas essas reflexões inspiram a escolha dos samples e das sonoridades?
Sim. A minha música vem de todas estas reflexões. Além dos samples que te falei, quis também neste novo projeto fazer uma grande homenagem às músicas do tempo da libertação: com Os Tubarões, por exemplo, com a “Cabral Ca Mori”, que é um clássico. Também usei um sample da Cesária na música “Bilila”, em que um homem fala a um filho sobre o porquê de ele se ter perdido. E, se reparares, essa música abre com uma outra gravação, que é da minha mãe, também a dar uma dica sobre a importância de eu continuar o meu caminho. Foi uma mensagem que ela me mandou e eu samplei porque acho que fazia todo o sentido naquela música. Nada é por acaso no meu trabalho, todos os samples têm uma história.
Muitos dos temas que agora apresentas no álbum foram sendo testados ao vivo nos teus sets como DJ. De que forma a resposta do público, na pista de dança, influenciou a construção do disco e das músicas?
Influencia porque sinto essa resposta. É impressionante quando vais tocar aos mais diversos sítios, seja aqui ou em França, por exemplo, e quando misturas batuku com trap, ou funaná com drill, vês aqueles sítios todos pegar fogo! Essa merda deixa as pessoas em transe.
Porque é que achas que isso acontece?
Porque, na realidade, se fores ver, o funaná ou o batuku têm as bases daquilo que é o ritmo de tambor da música africana. São músicas que tocas e o pessoal não consegue ficar parado. É impossível. Já toquei essas músicas em muitos sítios e sinto sempre isso. Até posso estar em sets de hip hop, por exemplo, mas quando meto aquele funaná com aquele bass, o pessoal fica maluco. E há outra coisa muito bonita que acontece: está lá uma senhora mais velha e está a sentir aquilo porque vem da tradição, e está lá um rapaz novo que curte drill e está a adorar porque também é a vibe dele.
E sentes também que as novas gerações acabam por descobrir uma parte da história da música cabo-verdiana através desses samples que mobilizas?
Sem dúvida. Há pessoal que me diz: “Mano, ouvi isso e fui pesquisar”. Por exemplo, na música “DJAL BA” que tens no álbum, a base é da música “Djal Bai Si Camin”, da compilação Space Echo. O pessoal ouve a mistura e começa também a ligar-se com essas músicas mais velhas. Um dos meus objetivos é pôr rappers de Cabo Verde a trazer mais esse espírito. O caminho não pode ser só pegar na música tradicional quando é para fazer uma homenagem à mãe ou à terra e depois o resto são os beats normais dos Estados Unidos ou da Nigéria. Eu quero mesmo que o pessoal perceba que podemos samplar música tradicional de Cabo Verde e fazer bangers!
É possível no futuro termos um álbum de rap crioulo, produzido por ti, todo baseado nesses tipos de samples e sonoridades?
Sim. Imagina um álbum em que todas as sonoridades, desde a mãozada de piano ao dedilhar da guitarra, vêm de Cabo Verde… E nem precisa de ser com sampling, até pode ser mesmo produção original. Acho que é aí que nós vamos ter um verdadeiro rap crioulo. Não será apenas um rap cantado em crioulo, mas um rap onde, da língua à sonoridade, tudo é crioulo.
Apesar de teres acabado de lançar um álbum, nota-se que tens muitos planos para o futuro. Queres antecipar alguns?
Vai ser forte este ano porque temos muita coisa a sair. Vou lançar desde logo um novo EP só de remixes. Quero muito voltar a essa cultura dos remixes, que é uma cultura dos DJs que se tem perdido. Estou também a pegar em ficheiros perdidos de quando estava a fazer o projeto com a Sara Tavares. E, além disso, eu e o Henrique Silva vamos lançar um projeto! Já produzimos muito juntos, seja para o projeto de Acácia Maior, para o meu, e para outras pessoas. Mas está na hora de lançarmos um projeto nosso. Além disso, vão sair outros álbuns com produções minhas. Vai ser um bom ano!