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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 20/02/2026

A residência mensal coincide com o lançamento de um EP.

Bateu Matou antecipam O Nosso Baile: “É o nosso habitat natural, uma matiné onde pode ir a família toda”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 20/02/2026

Os Bateu Matou fizeram planos para 2026 e começam agora a pô-los em marcha. Primeiro, a banda de Ivo Costa, Quim Albergaria e RIOT deu início a uma série de edições com EP1, um trabalho composto por quatro faixas, uma das quais em colaboração com Paulo Flores

Este domingo, 22 de Fevereiro, arrancam com O Nosso Baile uma residência mensal na Casa Capitão, em Lisboa, aos domingos à tarde, que propõe uma matiné para toda a família que também inclui iguarias especiais preparadas na cozinha do espaço cultural. Nesta primeira edição, cabe à Tia Flávia a mãe de Ivo Costa servir o seu sarapatel, prato típico goês de origem alentejana.

A partir das 14 horas, há DJ set de aquecimento. Um par de horas depois, arranca um concerto de Bateu Matou com convidados surpresa, entre vocalistas e instrumentistas, que serão sempre diferentes no meio do público. Um baile comunitário para celebrar a mistura intercultural de Lisboa e aproximar as pessoas em tempos de solidão. 

Em entrevista ao Rimas e Batidas, Quim Albergaria e RIOT antecipam a festa e falam dos outros planos dos Bateu Matou para os próximos tempos, o que também inclui a participação no Festival da Canção.



Depois do álbum Batedeira, já estava nos vossos planos fazer um formato mais curto, como este EP?

[Quim Albergaria] Sim, ou seja, tudo na música, especialmente na música mais popular, está a sofrer de um grande síndrome de impaciência. Tudo agora, tudo muito, tudo já. E nós tínhamos coisas prontas, mas não um disco completamente pronto. Decidimos também alinhar nesse comboio da impaciência. Então, ‘bora já lançar as que temos, para termos argumentos para conversar com pessoas como tu, para mostrar às pessoas que querem ouvir, para trazermos para um concerto novo e um formato de espetáculo diferente. Porque já estávamos com vontade de juntar acendalhas novas ao baile. Portanto, junta-se a fome à vontade de comer e há um EP1

E é 1 porque há mais a caminho?

[RIOT] Exacto! Até porque estes temas encaixam todos muito bem uns com os outros, apesar das suas diferenças. São temas que contam uma história em conjunto. Têm todas… Não diria a mesma sonoridade, mas percebe-se que vêm do mesmo sítio.

E um EP2 poderá contar outra história, com outros ambientes.

[QA] Exactamente, a intenção é essa. O mapa é haver um EP1, um EP2, e o lugar do EP3 seria para um disco onde se agregam estes dois EPs, mais as canções que faltem para formar um troço de trabalho unificado num LP. Com edição física e tudo. Mas, até lá, ir respondendo um bocadinho às ânsias dos tempos, e também às épocas. Acho que este EP é mais de Inverno. E aquilo que temos preparado vamos dizer para Abril ou Maio será qualquer coisa mais alinhada com as festas da cidade, com esse espírito de festas de Verão. 

[R] Também foi isso que nos deu um bocadinho a pressa e a celeridade para largar este disco apesar de não ter sido feito com pressa. Mas é ouvir as músicas e dizer “pá, isto faz sentido agora, vamos mandar isto agora”. E pronto, depois um LP há-de ser o conjunto de um ano de trabalho, basicamente. 

[QA] Isto do ponto de vista de composição, do lado artístico da banda. Depois, do lado social, de convívio, como isto é a força de agregação do que quer que seja, estas músicas também ajudavam a fazer este primeiro chamamento de ‘bora para o baile que a gente precisa. Já chega de chuva, já chega de tristeza, a gente precisa uns dos outros e umas das outras.

Antes de irmos ao baile, já que estávamos a falar da composição, obviamente vocês são músicos de muitos projectos e com muitos anos de experiência, mas Bateu Matou tem uma natureza bastante própria. Sentem que a vossa forma de trabalhar, o vosso som, as vossas possibilidades e hipóteses criativas também se expandiram muito dentro da banda ao longo do tempo, à medida que têm trabalhado mais e mais em conjunto?

[QA] Absolutamente, e digo-te mais, de todos os projectos e de todas as bandas em que estive envolvido, acho que este projecto, para já, é o mais consciente, pensa mais na forma como compõe, como é que se constrói a identidade e como é que se descobre a identidade a compor e a arranjar música. Ou seja, nos PAUS acho que a curva de evolução é bué mais lenta. The Vicious Five não teve curva de evolução nenhuma, foi aquilo e pronto [risos]. Bateu Matou, a cada disco, vai afinando parâmetros e percebendo uma data de coisas do que é a sua identidade. E acho que este ciclo d’O Nosso Baile, neste ano de 2026, é capaz de ser um sweet spot entre a percentagem de produtores que estão envolvidos, a percentagem de percussionistas que estão envolvidos, a percentagem de fazedores de canções que estão envolvidos, a percentagem de DJs e a consciência de soundsystem que existe e acho que é a combinação que, até agora, está mais próxima daquilo que Bateu Matou sempre quis ser.

[R] E mesmo em termos de construção musical e de ética de trabalho, eu diria que é a mistura perfeita entre o Chegou e o Batedeira. É como se misturasse os dois pratos e agora está a começar a sair já com algum filtro e com alguma certeza do caminho que queremos ter. O aspecto que o Quim estava a mencionar da noção de pista, a noção de canção e, também, a noção da parte mais melódica de Bateu Matou. Sendo um projecto com três bateristas, é uma preocupação que temos e chegámos a uma altura em que isso está a fluir. 

E isso naturalmente também me leva a perguntar sobre a “Nos Teus Olhos”, o tema que vão apresentar no Festival da Canção e que tem um registo diferente. Suponho que tenha sido um desafio criativo interessante, fazerem uma canção para este contexto específico.

[QA] Na verdade é uma canção que surgiu já nesta jornada de coisas preparadas para O Nosso Baile, este processo de disco de 2026. Tínhamos outras hipóteses para levar ao festival, mas havia várias regras. Por exemplo, as canções tinham que ser inéditas em toda a linha, não podiam ter sido tocadas ao vivo. Foi uma questão de irmos eliminando, de percebermos quais eram as coisas que cabiam dentro dessas regras e esta estava incólume. E depois percebemos que, se havia um sítio para experimentar sairmos da nossa zona de conforto… Se bem que é engraçado, porque a maior parte das pessoas que já se manifestou estava à espera que nós fôssemos mais iguais a nós próprios. E nós achámos que o palco do Festival da Canção deveria ser um sítio onde tirávamos uma manilha seca qualquer para surpreender, então aproveitávamos e abríamos um sítio novo de criação. Mas, pronto, o Festival da Canção sempre foi sobre risco. E a canção, sim, é diferente — na verdade é a canção em que fomos mais ter com as claves tugas, se bem que é a mesma clave do batuku; ou seja, podíamos bater o pé e dizermos que estávamos só a olhar para Cabo Verde, mas não, a canção tem os dois mundos, porque são a mesma clave. Ou seja, é a música beirã, os adufes e batuku ao mesmo tempo.

Este novo EP também tem uma colaboração com o Paulo Flores. Sei que o Ivo já trabalhou com ele, mas como é que se deu essa participação, foi a partir daí?

[R] Foi incrível, era um sonho húmido nosso já há algum tempo. O Ivo trabalha muito com o Paulo Flores, grava muito com ele, é um dos heróis musicais aqui da malta e fazia todo o sentido desafiá-lo para ele puxar o Paulo Flores para um som nosso. Não estava a ser fácil e mostrámos uma cena que já tínhamos alinhavada com o Pedro da Linha, e o Paulo começou a cantar por cima daquilo e nós: “Espera, ‘pera, ‘pera, põe a gravar”. Foi a oportunidade perfeita para trabalhar com o Paulo e nós ficámos mega extasiados com essa ideia. A “Dombolô” é um som com muito carinho, adoro e funciona bué bem ao vivo.

E o projecto de Bateu Matou tem muito essa característica de vocês poderem trabalhar com diferentes convidados, de se poderem adaptar àquilo que eles fazem ou trazê-los mais para os vossos mundos musicais e os resultados são sempre diferentes.

[QA] Ya, acabas por ter passaportes para sítios bué diferentes, há legitimidade e há verdade para de repente estares a cantar um verso em concani porque o Rão Kyao está presente, ou de repente podes ser mesmo semba puro e duro porque tens a autorização do Paulo Flores, do patrão, do dono do semba, não é? São oportunidades de aprendizagem muito fixes, a gente acaba sempre por levar informação nova e vocabulário novo para outras coisas e isso é o que mais nos entusiasma.

[R] E o contrário: também é divertido gravar para discos de outras pessoas e imprimir aquilo que é Bateu Matou na música de outros amigos e colegas.

A primeira festa O Nosso Baile acontece este domingo, 22 de Fevereiro, na Casa Capitão, em Lisboa. Fazia sentido uma celebração deste género, a um domingo à tarde, com comida, aberta a toda a gente?

[QA] Acho que esse é o habitat natural e verdadeiro de Bateu Matou, um fundo de quintal com a misturada boa que Lisboa implica. Uma matiné onde a família pode ir toda, onde tu podes passar a tarde, não tens que estar arruinado à uma da manhã a ir para casa. Tudo é fácil e confortável e onde se mistura comida e baile. Sim, era um sonho que a gente estava a sonhar há muito tempo e poder descomplicar o acesso e a proximidade às pessoas era o que mais queríamos, até porque precisamos de comunidade mais do que nunca, não é? Esta é a nossa forma de criar esse espaço seguro onde as pessoas podem estar juntas, podem aprender, podem falar não é sobre estar aos gritos com um PA altíssimo, as pessoas podem conversar, podem estar juntas e criar laços de proximidade, porque, no meio desta confusão toda destes últimos tempos, as pessoas estão muito sozinhas e o baile serve para eliminar essa solidão.

E será o primeiro de vários. 

[QA] A gente precisa que isto seja frequente, o médico diz que são doses mensais. Portanto vai acontecer, é residência mensal na Casa Capitão. A primeira será a 22 de Fevereiro e as de Março e Abril serão comunicadas em breve, logo a seguir.

E também vão ter, mesmo que não revelem antes, convidados, suponho.

[QA] Sim, a ideia é ser essa, ser o quintal lá de casa. Pode dar sempre canja, pode aparecer alguém a cantar, pode aparecer alguém a tocar e essas surpresas nós não vamos comunicar mas que vão acontecer, vão. E a cada nova edição o menu vai mudando, vamos convidar outras pessoas para cozinhar e a ideia era construir em cima desta reunião de comunidade. Queremos ter workshops de ritmo e de produção para partilhar com crianças e pessoas interessadas para começarem a fazer e terem a música mais próxima e mais acessível. Queremos, inclusive, representar as várias comunidades de Lisboa neste espaço onde se pode descomplicar e desmistificar como é que vive o outro. Esta também é uma vontade d’O Nosso Baile e acima de tudo celebrar a diferença que faz de Lisboa uma cidade única. É isso que queremos, para acabarmos num domingo à tarde a ir para casa com os putos a dormir no banco de trás, a sentir que estamos mais próximos uns dos outros.


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