Nenhuma performance expôs de forma tão nítida as tensões internas dos Estados Unidos da América como a de Bad Bunny. Num país marcado pelo avanço de um projeto político autoritário onde os agentes do ICE se tornaram instrumentos quotidianos de intimidação, e onde o racismo deixou de precisar de disfarce, a sua presença no maior palco mediático do mundo foi, inevitavelmente, incómoda.
Sendo a primeira performance no célebre intervalo exclusivamente em Espanhol, o universo MAGA ficou tão enfurecido que até a Turning Point USA, organização do falecido Charlie Kirk, criou o seu próprio intervalo alternativo. A indignação foi ecoada por Donald Trump, que, aquando da escolha do artista, afirmou ser “contra eles”, classificando a decisão como “uma escolha terrível” que, segundo o próprio, “apenas semeia o ódio”. Ontem, descreveu a Super Bowl como uma das piores de sempre, considerando-a “uma afronta à grandeza da América” e algo que “não representa os nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência”.
[Mas porque Bad Bunny incomoda tanto?]
“Que rico es ser latino” — diz, com um sorriso, a primeira personagem da performance de Bad Bunny, antes de se revelar um cenário repleto de plantações de açúcar e trabalhadores com pavas, os chapéus de palha do jíbaro (camponês) porto-riquenho, símbolo de uma herança colonial marcada pela economia da cana-de-açúcar e pelo trabalho rural fora dos centros urbanos, e a uma identidade moldada pela colonização espanhola e, mais tarde, pela dominação económica norte-americana. Tradicionalmente evocado como marca de simplicidade e humildade, este tem sido ressignificado por Bad Bunny, que com o seu mais recente álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS se apropriou destes símbolos para honrar e dar a conhecer ao mundo a sua pátria — Porto Rico.
Longe de ser apenas um exercício de nostalgia ou celebração cultural, DeBÍ TiRAR MáS FOToS afirma-se como um arquivo emocional e político de Porto Rico. Ao longo do álbum, Bad Bunny cruza uma narrativa íntima com denúncia social, abordando o impacto do turismo predatório, da gentrificação e de políticas fiscais que favorecem investidores externos. O disco projeta, um futuro inquietante em que a ilha corre o risco de deixar de pertencer a quem nela nasceu, uma ansiedade partilhada com outros territórios marcados pela lógica colonial, como o Havai — Porto Rico não é um Estado soberano nem um Estado federado dos EUA; os seus habitantes são cidadãos norte-americanos sem direito a voto presidencial enquanto vivem na ilha, que é um território dos EUA, mas sem soberania.
O álbum constrói-se sobretudo como um gesto de resistência cultural, onde a música assume um papel político central. Ao convocar géneros ligados à afirmação identitária porto-riquenha — da plena e da bomba à tradição jíbara e à salsa da diáspora — Bad Bunny inscreve o presente numa história de luta que atravessa gerações. Sonoridades nascidas em contextos de opressão colonial são aqui reativadas como ferramentas de orgulho, comunicação e pertença, reafirmando que, perante o apagamento e o exílio forçado, a cultura continua a ser um dos últimos territórios de soberania — e esse statement não fugiu do Super Bowl.
O espetáculo expandiu-se como um retrato em movimento de Porto Rico: uma cerimónia de casamento em palco, uma rua de inspiração nova-iorquina com mercearia de bairro, um desfile pan-americano, músicos de salsa, grupos de percussão de plena vestidos de branco. Entre o campo e a cidade, o trabalho e a celebração, a família e a diáspora, Bad Bunny construiu um espaço coletivo onde géneros tradicionais como a bomba e a plena convivem naturalmente com o reggaeton e o dembow: uma festa a 100%.
A setlist do intervalo percorreu diferentes momentos da carreira de Bad Bunny, com forte destaque para o álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS. Do disco mais recente surgiram “VOY A LLeVARTE PA PR”, “EoO”, “BAILE INoLVIDABLE”, “NUEVAYoL” e o tema de encerramento, “DtMF”. Pelo caminho, “Tití Me Preguntó”, de Un Verano Sin Ti (2022), e “Yo Perreo Sola” e “Safaera”, de YHLQMDLG (2020), reativaram o lado festivo e transgressor do artista, enquanto “Monaco”, de nadie sabe lo que va a pasar mañana (2023), trouxe uma nota mais performativa. A atuação contou ainda com participações de peso: Lady Gaga surgiu numa versão em clave salsa de “Die With a Smile”, o êxito que partilha com Bruno Mars, enquanto Ricky Martin se juntou a Bad Bunny em “LO QUE LE PASÓ A HAWAii”, num encontro simbólico entre gerações — do artista que abriu caminho ao crossover latino global ao que hoje ocupa o seu centro. Juntaram-se ainda à festa Pedro Pascal, Cardi B, Jessica Alba e Karol G.
Já “El Apagón” reafirmou a vertente explicitamente política do seu percurso, ligando o espetáculo às lutas contemporâneas de Porto Rico, onde podemos ver o artista a cantar em cima de postes elétricos, antes de ter levantado a bandeira de Porto Rico.
[Uma carta de amor a Porto Rico]
Esta música é uma referência ao furacão Maria, que em 2017 representou um momento de rutura absoluta na relação entre Porto Rico e os Estados Unidos. O desastre natural expôs de forma brutal o estatuto colonial da ilha: semanas sem eletricidade, hospitais a funcionar no limite, comunidades inteiras isoladas, enquanto a resposta federal foi lenta, desorganizada e marcada por indiferença e desprezo pelos Porto-Riquenhos. As imagens de Donald Trump a atirar rolos de papel higiénico para a população, durante uma visita mediática à ilha, cristalizaram para muitos porto-riquenhos a sensação de abandono. Anos depois, continuam a existir zonas sem acesso estável à rede elétrica.
Esse gesto de denúncia não ficou circunscrito ao palco da Super Bowl. Prolongou-se em escolhas concretas que ajudam a perceber a importância singular de Bad Bunny para Porto Rico. No verão de 2025, o artista fez uma residência de 31 dias de concertos com as primeiras 9 datas reservadas a residentes, incentivo explícito ao consumo local, parcerias com artesãos, músicos tradicionais, pequenos comerciantes e coletivos culturais.
DeBÍ TiRAR MáS FOToS não é só um álbum sobre a pátria de Bad Bunny. É uma tomada de posição clara a favor da solidariedade entre os povos da América Latina e entre todos os latinos espalhados pelo mundo — incluindo aqueles que vivem nos Estados Unidos e são diariamente alvo de perseguição, medo e violência institucional. Bad Bunny falou abertamente do receio de que agentes do ICE estivessem presentes nos seus concertos, motivo pelo qual também deixou de fazer concertos nos EUA. No Super Bowl, o clima não foi diferente: nos meses anteriores, responsáveis do Departamento de Segurança Interna anunciaram que o ICE estaria “em todo o lado”, levando ativistas a distribuir toalhas com a frase “ICE OUT” à entrada do estádio no dia da performance. Nos Grammys, onde venceu três prémios e se tornou o primeiro artista latino nomeado nas três principais categorias, Bad Bunny disse “ICE OUT” antes de agradecer a Deus.
No fim da Super Bowl, enquanto o país se fecha em medo, muros e deportações, Bad Bunny escolheu terminar com uma ideia simples e perigosa: o amor como arma política. Atrás de si, no painel, lia-se “The only thing more powerful than hate is love”. Também na bola que trazia que podia ler-se “Together we are America”.
Depois de dizer “God bless America”, Bad Bunny fez questão de explicar que América era essa: “Seja o Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Brasil, Colômbia, Venezuela, Guiana, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, México, Cuba, República Dominicana, Jamaica, Haiti, Estados Unidos, Canadá e claro, Porto Rico.” Um gesto simples, mas profundamente desestabilizador para a América do MAGA e de Donald Trump. É uma América feita de migração, mistura, resistência e memória.
Esta não foi apenas uma performance qualquer. Foi um game changer na relevância da cultura latina nos palcos mundiais. Bad Bunny é hoje o artista mais ouvido do mundo, e como canta em “NUEVAYoL”, é o novo “rey del pop”. Fala espanhol, canta reggaeton e dembow. Sem pedir desculpas.