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Fotografia: Guilherme Cabral
Publicado a: 18/03/2026

Esta sexta-feira o coletivo sobe ao palco da Casa Capitão.

AVALANCHE: “Temos sempre o objetivo de juntarmos pessoas a divertirem-se a fazer canções”

Fotografia: Guilherme Cabral
Publicado a: 18/03/2026

Quando em 2022 nos sentamos à conversa com a AVALANCHE, conseguíamos imaginar um futuro para o coletivo. Aquilo que em 2020 começou como uma canção sem dono criada por LEFT., Luar e Sara Cruz tinha-se transformado, no espaço de dois anos, num dos movimentos mais curiosos a florescer na margem da pop portuguesa. As canções do VOLUME I, lançado em novembro de 2022, assim o demonstraram.

Mais de três anos volvidos dessa conversa, o futuro da AVALANCHE talvez seja um diferente. O seu presente, porém, tornou-se naquilo que profetizávamos. A vitória de iolanda na edição de 2024 do Festival da Canção serviu como a maior prova de que a estética de indie meets pop de alguns dos nomes conectados à AVALANCHE já não era o futuro. Era, também, o presente. Daí para cá, a sua imiscuição na esfera do mainstream português, da pop ao hip hop (NENNY que assim o diga), só se tem acentuado. As canções do VOLUME II, lançado em dezembro de 2025, assim o confirmaram.

Em VOLUME II, muitos novos nomes se juntaram ao universo eclético da AVALANCHE. Aos que marcaram presença no VOLUME I — LEFT., Luar, Sara Cruz, iolanda, CHORO, NED FLANGER, YANAGUI, Rita Onofre, INÊS APENAS e Matheus Paraízo —, somaram-se os seguintes: JÜRA, Latte, L-ALI, MALVA, Sara Megre, xtinto, MALLINA, ÏNIA, by COZY, Beatriz Caixinha, João Maia Ferreira, Prod Peter, Diogo Fonseca, Marta Lima, Tomás Adrião, DØR, Rodrigo 13 e Pipa.

Muitos nomes, é verdade, mas no cosmos da AVALANCHE cabem estes e muito mais. E na próxima sexta-feira (20 de Março), a AVALANCHE sobe ao palco da Casa Capitão (bilhetes disponíveis aqui) para apresentar as canções desta segunda coletânea. Irá ser um momento que servirá de término de ciclo para o coletivo, que se prepara para entrar em um “mini hiato” para preparar o que se segue. 

Afinal, o local que mais associamos à AVALANCHE, os Great Dane Studios, encerrou as portas em 2025. Portanto, sem casa-mãe, para onde irá deslocar-se esta AVALANCHE? Com certeza, iremos descobrir em breve. Para já, sentamo-nos com LEFT., Luar e Sara Cruz no Zaytouna para conversarmos sobre o passado, presente e futuro da AVALANCHE.



No artigo que a Ana Margarida Paiva escreveu na Playback sobre a AVALANCHE, ela revelou, na altura, que vocês já estavam a preparar este VOLUME II. Esse artigo foi publicado em janeiro de 2024. O VOLUME II só viu a luz do dia no final de 2025, quase dois anos depois. Tudo aquilo que vos aconteceu nestes dois últimos anos, tanto a nível pessoal como artístico, atrasou o lançamento do álbum?

[Luar] O lançamento do VOLUME I pareceu que foi um processo rápido, mas não foi.

[LEFT.] A AVALANCHE começou em 2020, portanto…

[Luar] Mas o processo do VOLUME I só deve ter começado em 2022, que foi quando o disco saiu.

[Sara Cruz] Se calhar, demorámos mais tempo neste VOLUME II a lançarmos o disco, a partir do momento em que começámos a falar nele.

[Luar] Temos de ser sinceros: demorámos mais tempo porque estávamos mais preguiçosos [risos]. A verdade é essa.

[LEFT.] [Risos] Mas teve mais a ver com os trabalhos individuais de cada um, e o facto incontornável de que a AVALANCHE não paga contas. Sejamos honestos. É um passion project de todos os envolvidos e, pelo meio, houve outras coisas de cada um que tiveram de ser priorizadas. Mas não parámos.

[Luar] Sim, mas o que deu mais trabalho foi que tivemos em mente que queríamos fazer um rollout para este álbum que fosse mais profissional. Isso levou tempo. Também perdemos tempo a tentarmos arranjar apoios para fazermos coisas acontecer. Já sabemos como se faz neste país: muito com muito pouco. Os álbuns da AVALANCHE são um exemplo disso. 

Se o VOLUME I foi marcado pelo acontecimento dos writing camps, a construção deste segundo volume da AVALANCHE foi marcada pelo acontecimento do retiro organizado por vocês. O retiro alterou algumas das dinâmicas criativas da AVALANCHE?

[LEFT.] O retiro que fizemos em Castelo de Paiva em 2023 foi um marco importante. Penso que toda a gente tem essa opinião. Foi um momento especial. Ironicamente, apesar disso, só uma música do álbum é que foi feita lá.

[Luar] Não, foram duas.

[LEFT.] Sim, tens razão. As duas com a Beatriz Caixinha [“Não Te Vou Largar” e “Quero Tudo”]. Mas acho que o acontecimento do retiro nos provou que é uma coisa exequível de voltarmos a fazer no futuro. É pena não termos repetido, mas é algo que queremos repetir. E pronto, nós fazíamos os writing camps no Great Dane Studios, que, entretanto, fechou. Portanto, daqui para a frente, a ideia do retiro é um dos modelos possíveis para continuarmos a organizar sítios onde podemos juntar pessoas para as colocarmos a colaborar entre elas.

Houve alguém que foi ao retiro, mas que não aparece no VOLUME II?

[LEFT.] O Miguel Garcia? Coitado. Acho que é o único [risos].

O último writing camp que fizeram para este VOLUME II ocorreu quando?

[LEFT.] Foi em 2024, não?

[Sara Cruz] Acho que até foi perto de quando os Great Dane Studios encerraram, já em 2025.

[Luar] Acho que foi em 2024, porque já foi depois do retiro.

Lembro-me que, pouco tempo depois do lançamento do VOLUME I, vocês já estavam a organizar writing camps para o VOLUME II. Isso deve ter sido ainda em 2022. Que aconteceu a essas experimentações e potenciais colaborações?

[Luar] Temos sempre o objetivo de juntarmos pessoas a divertirem-se a fazer canções. Depois, existem músicas que fazem sentido lançar e outras que a malta não vê sentido em pegar. Há músicas que nós adoramos e a malta não quer fazer nada com elas. Portanto, ficam na gaveta. No final, ficamos sempre com para aí dez faixas que a malta dá o ok e podemos avançar para o disco. Mas há muitas coisas fixes no meio disto tudo que ficam no éter eterno da criatividade.

[LEFT.] Às vezes, é de partir o coração as canções que ficam de fora [risos].

Nunca lançaram a “Ácido no Chão”!

[Luar] Há vários potenciais hits como esse que não entraram neste disco [risos].

Como funcionou o processo de escolherem as canções para este disco? Foi muito diferente do processo do VOLUME I?

[Luar] Acho que foi exatamente igual.

[LEFT.] Não houve grande diferença fora a iniciativa extra do open call.

A “Gás”.

[LEFT.] Sim. Acho que recebemos ainda 20 e tal músicas?

[Sara Cruz] E recebemos sons fixes.

[LEFT.] O critério para escolhermos uma faixa dessas canções foi, em primeiro lugar, obviamente, se gostávamos ou não. Depois, o segundo critério foi o quão perto de estar completada estava a faixa. Recebemos canções que eram só rascunhos e estávamos à procura de uma canção em que tínhamos de adicionar o mínimo número de pormenores possíveis.

[Luar] Eles perceberam o prompt [risos].

[Sara Cruz] Porque abrimos a open call numa fase terminal do disco e não tínhamos assim tanto tempo disponível.

A open call ocorreu quando?

[Luar] Foi no verão de 2025. Terminou em setembro.

Não tinha havido uma outra open call antes disso?

[Sara Cruz] Para participar num writing camp, se calhar?

[Luar] A gente fez foi um remix challenge.

Era nisso que estava a pensar!

[LEFT.] E um dos prémios era a participação num writing camp. Quem ganhou isso foi o João Pedro Melão, que não aparece no VOLUME II, e o Diogo Fonseca. 

Bem, se a iolanda disse em 2022 que havia canções suficientes que ficaram de fora do VOLUME I para fazer outro disco, neste…

[Luar] Agora, há três ou quatro discos com coisas que não saíram.

[LEFT.] Uma das minhas músicas preferidas que ficou fora deste disco chama-se “Rim”. Mas as duas pessoas que fizeram parte da música não quiseram assinar. Nada a fazer.

[Sara Cruz] Isso é sempre um critério. Se nós curtimos e a malta está nessa da música sair, a música é lançada.

[Luar] Se não sair, fazemos mais.

[Sara Cruz] Também pode acontecer que a malta quer lançar a música, mas nós achamos que não nos identificamos muito ou que não faz muito sentido aquilo estar associado esteticamente à AVALANCHE… aí, se calhar também não é lançada.



Uma das grandes diferenças entre o VOLUME I e o VOLUME II é que neste surgem algumas figuras com maior proximidade ao hip hop, como é caso do L-ALI, o xtinto ou o João Maia Ferreira? Que ligação vêem entre a estética da AVALANCHE e o que essa malta está a fazer nos seus projetos individuais?

[Luar] Desde o início que a nossa ideia era não restringirmos demais isto a um grupo de pessoas. Obviamente que, no VOLUME I, apareceram as pessoas que nós conhecíamos e que queriam fazer parte disto. Foi um processo mais familiar. No VOLUME II, quisemos abrir um bocado mais o jogo. A ideia da open call também surgiu a partir daí. Foi também por isso que quisemos convidados o L-ALI e o xtinto. Somos todos super fãs das cenas deles e achávamos que existia um potencial cruzamento artístico entre o que nós fazemos e o que eles estão a fazer. Podia ser interessante. E o objetivo principal é sempre esse: colocar a malta a colaborar.

[LEFT.] Que engraçado. Também sinto que existe cada vez mais ligações entre malta que faz coisas diferentes. Existe uma cola agregadora entre, por exemplo, nós, o xtinto ou a Bia Maria. É malta que se conhece, convive e partilha cenas entre si.

[Luar] Malta que partilha de ter bom-gosto [risos].

[LEFT.] Se quisermos ser snobs, é isso [risos].

Por acaso, acho que o novo disco do xtinto [em sonhos, é sabido, não se morre] aproxima-se bastante da vossa estética sonora.

[Luar] Interessante. Não sei até que ponto consigo especular a influência. Acho que é só a vontade geral de termos malta de fazer coisas diferentes. Há várias pessoas a ter as mesmas ideias ao mesmo tempo e a ter vontade de fazer música que tem uma identidade própria. Não acredito que haja uma influência direta da AVALANCHE no que se está a fazer agora. Acho que é só a progressão natural da vontade das pessoas.

Mas claramente existe impacto. A iolanda ganhou o Festival da Canção, não é?

[Luar] Certo [risos].

Houve alguma validação.

[Luar] Sim. Cem por cento. Mas nada disto ocorreu de forma consciente. Sempre fizemos, em primeiro lugar, música da qual gostávamos. É sempre isso que tentamos fazer. Acho que as pessoas se identificaram com isto porque soava diferente. Era um breath of fresh air face ao restante e, se calhar, para o que ainda se está a fazer agora. Apesar de achar que agora a malta está com muita mais vontade de experimentar na pop do que há três ou quatro anos.

O encerramento dos Great Dane Studios em 2025 impactou os vossos processos criativos? Afinal, era um sítio onde vocês se encontravam não só para fazer os writing camps da AVALANCHE, mas também para criarem e experimentarem entre vocês.

[Luar] Acho que a existência de espaços como os Great Dane Studios é muito importante. Sempre nos abriram a porta para fazermos o que nos apetecia e juntar ali a malta. É difícil a cultura avançar sem espaços como esse.

[LEFT.] Historicamente, movimentos artísticos disruptivos estão associados, por norma, a um sítio, não é? Acho que os Great Dane Studios eram um desses sítios. Era um ponto de passagem. Mas por exemplo, não sei se estás a par da to be honest, o projeto do Tomás Martins. Ele agora também está a organizar writing camps no estúdio dele. Eu fui ao último que ele organizou. Estava lá o xtinto, o Pedro Mafama. Malta ligada ao hip hop e à música urbana. Senti um bocado a mesma vibe que sentia nos writing camps da AVALANCHE. É preciso que haja estas pessoas com vontade de organizar coisas.

[Luar] E que estejam dispostas a ceder espaços. Isso faz toda a diferença.

[LEFT.] Sim. Também é crucial que não haja pressão para chegarmos a algum lado. 

[Luar] Já estive em muitos writing camps onde havia a pressão de escrever hits. Isso não é fixe e não resulta.

[LEFT.] O terreno é mais fértil quando não existe essa expectativa.

[Luar] Portanto, malta com estúdio: é importante que abram a porta. Sem vocês, isto fica difícil [risos].

O encerramento dos Great Dane Studios contribuíram para alguma espécie de atraso no lançamento do VOLUME II?

[Luar] É possível. Imagina, o fecho dos Great Dane Studios afeta mais o que pode acontecer daqui para a frente. Porque não temos um espaço fixo para fazermos os writing camps. Temos agora de perceber qual é a direção do projeto da AVALANCHE para continuarmos a fazer a sua missão acontecer. Como os Great Dane Studios fecharam quando já estávamos a fechar o disco, já não precisávamos muito do estúdio. Agora, se quisermos tentar executar ideias novas no futuro, vai ser complicado. Perdemos uma das pernas mais importantes do projeto.

Depois de terem apresentado o VOLUME I no Musicbox em 2023 num concerto marcado pela presença de muitos convidados, o concerto de apresentação deste VOLUME II na Casa Capitão vai voltar a contar com muita gente em palco. Como é preparar uma apresentação de um álbum que envolve tantas pessoas?

[Luar] É complexo [risos], para surpresa de ninguém. Primeiro, porque temos de gerir os horários de muitas pessoas e garantir que conseguem aparecer no concerto. Vamos ter quase toda a gente que aparece no VOLUME II presente. E tomámos a decisão de que este concerto vai ter uma estrutura diferente da apresentação do VOLUME I. Até sinto que, apesar dessas alterações, temos a coisa mais oleada para este.

[LEFT.] Sim, até porque simplificámos a parte musical e ainda bem que o fizemos.

[Luar] Vamos compensar isso com uma cena mais performativa de, chamemos-lhe, storytelling. Acho que as pessoas vão gostar.

[Sara Cruz] E claro, vamos tocar alguns dos hits do VOLUME I.

Como será o futuro da AVALANCHE daqui para a frente enquanto passion project sem uma casa-mãe, como era o caso dos Great Dane Studios?

[Luar] Com o fecho do capítulo do VOLUME II com o concerto, estamos todos numa de take a break. Queremos perceber qual é a direção que queremos dar ao projeto e perceber como nos podemos adaptar à cena de não termos uma casa onde podemos fazer os writing camps à vontade. Queremos repensar o papel que a AVALANCHE pode ter na cultura. Será que queremos continuar com esta cena dos álbuns colaborativos? Queremos fazer algo diferente? Tenho pensado bastante nisso, mas ainda não nos sentámos para ter uma conversa a sério sobre isso.

Como imaginam uma AVALANCHE diferente?

[Luar] Bem, full disclaimer: a gente ainda não se sentou sequer para conversar sobre isto [risos]. Mas pessoalmente, tenho estado muito rodeado de malta que puxa muito pelo associativismo cultural. Há milhares de coletivos e associações culturais espalhados pelo país que estão obrigados a criar e a organizar iniciativas pela força da vontade para garantir que os seus municípios têm algum tipo de oferta cultural. Então, a nível pessoal, tenho vontade de estar mais conectado com essa vertente, e a AVALANCHE pode ser um veículo para isso. Percebermos como podemos criar iniciativas desse género, tanto em Lisboa como noutros sítios. Queremos continuar a juntar pessoas e a fazer com que elas colaborarem, mas também queremos também dinamizar e criar eventos que juntem a malta. Isso também é valioso.

[Sara Cruz] No fundo, a essência da AVALANCHE é essa. Isso não vai mudar, independentemente se fazemos um disco, um álbum ou um evento. É a comunidade. Queremos estar embrulhados com os artistas e ajudá-los a quebrar o gelo com malta diferente. Queremos criar novas conexões. Temos é de perceber como é que isso vai funcionar daqui para a frente.

[Luar] Obviamente que a cena de fazer álbuns com bué pessoas é super fixe e divertido, mas dá um trabalho do caraças [risos]. Mas acho que pode existir outro tipo de iniciativas daqui para a frente. Organizarmos noites com open mics, em que abrimos o palco a malta pada dar os seus primeiros concertos e descobrirmos novos talentos. Está tudo assim um bocado no ar e faz sentido encerrarmos o capítulo do VOLUME II agora.

[LEFT.] Para terminar, diria que esta espécie de mini hiato que vai ocorrer agora vai-nos permitir um espaço para nos reconectarmos com a vontade de fazer coisas acontecer. Pelo menos, sinto isso. Quero reconectar-me com essa ideia e vontade. Porque, até agora, sinto que muito do que ocorreu foi uma sequência muito natural. Agora que temos a marca criada e estabelecida, temos de perceber o que queremos fazer com a AVALANCHE. Não é cem por cento óbvio o que se segue e isso é interessante.


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