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A arte dos Organized Noize e como o Sul guia o hip hop

[TEXTO] Sandro Filipe [FOTO] Direitos Reservados

E se a imagem que nos vem à cabeça quando ouvimos os nomes de Puff Daddy, The Notorious BIG ou Ma$e tivesse origem nas mesmas pessoas que nos trouxeram os Outkast? É isso que Sean Combs nos confidencia em The Art of Organized Noize, um documentário disponível em streaming no Netflix, sobre o trio de produção de Atlanta, responsável por batidas clássicas como “Player’s Ball” dos Outkast, “Waterfalls” das TLC ou “Here But I’m Gone” do lendário Curtis Mayfield.

Dada esta lista de créditos, não seria de esperar a surpresa com que o documentário foi recebido, mas foi assim que o vimos chegar. Surpreendidos pela forma como Rico Wade, Sleepy Brown e Ray Murray são homenageados, mostrando que passado mais de duas décadas ainda é relevante falar dos pioneiros daquilo que conhecemos hoje como “The Atlanta Sound”.

The Art of Organized Noize não se foca nas personalidades, qualidades ou defeitos dos membros, mas sim no que realmente importa, naquilo que levou a questionarmo-nos vezes e vezes sem conta ao crescer com músicas como “Cell Therapy” dos Goodie Mob ou “Saturday” de Ludacris: o que levou à criação desta sonoridade? De onde vieram estas texturas? Que linha de pensamento ou que objectivos tinham ao juntar estas 808’s às cadências e feeling do P-Funk? Rico Wade responde: “estávamos apenas a tentar representar exactamente o que era Atlanta”. Isto poderia muito bem resumir o documentário em poucos segundos, se não houvesse tanto por detrás do que é Atlanta ou se não fosse possível arranjar matéria para escrever livros, filmes ou séries de televisão com cinco temporadas apenas sobre o estúdio onde os Organized Noize fizeram história, sítio icónico frequentado por artistas como André 3000, no início dos anos 90, ou Future, vinte anos mais tarde

The Dungeon – ou A Masmorra, em bom português – é o nome do agora lendário estúdio: uma cave com paredes cobertas de terra que, depois de a vermos, torna possível perceber o porquê daquele som. A realidade em que o grupo criava é-nos exposta da melhor forma por Sleepy Brown: “o Big Boi (Outkast) sentava-se ali a escrever, nós ficávamos deste lado a fazer beats e por cima de nós tínhamos todas estas teias de aranha”. Infelizmente, não existe registo visual deste pequeno pedaço de história, mas a nossa imaginação consegue recriar o que nos foi dito e  levar-nos para o ambiente descrito: hip hop na sua raiz mais pura, independentemente da parte do globo onde que é criado.

 



Big Boi é apenas um dos muitos membros daquilo que ficou conhecido como The Dungeon Family, um colectivo que ajudou a colocar Atlanta no mapa e mudou a cultura hip-hop tal como a conhecíamos. Este facto pode não parecer óbvio à primeira vista, mas peguemos nas palavras de Sean Combs quando confidencia que utilizou toda a imagem e estilo de vida que encontrava em artistas da Dungeon Family, tanto dos Outkast como dos Goodie Mob, para desenvolver e promover Biggie Smalls. Se depois de sabermos isto fecharmos os olhos e imaginarmos The Notorious B.I.G, em 1994, com a boina, casacos de pele, a sonoridade e o vídeo de “Juicy” – onde vemos bem exposto o seu faustoso estilo de vida – tudo faz sentido, certo? A maior representação de Nova Iorque passou de baggy jeans and Timbs a uma cópia daquilo que muitos nova-iorquinos ignoravam: a cultura hip-hop do sul.

Dito isto, é fácil assumir que a Dungeon Family, e subsequentemente os Organized Noize, mudaram para sempre a cara do hip-hop, ainda sem saberem que o mesmo viria a acontecer com as seguintes gerações de artistas saídos de Atlanta. Rico Wade e Cee-Lo Green (Goodie Mob, Gnars Barkley) proclamaram artistas como Future – a quem Wade, seu primo mais velho, se referia como sendo o “futuro” do Dungeon – e Young Thug ou produtores como Southside e Metro Boomin como “The Third Coming”, a terceira geração de um som que promete não morrer.

 



The Art of Organised Noize mostra-nos não só a influência que o trio alcançou, mas também como foram criadas algumas das músicas que os elevaram a esse nível. Aquele mítico processo criativo que varia tanto de artista para artista: J Dilla a acabar aquilo que viria a ser Donuts numa cama de hospital apenas com um pequeno sampler e uma turntable; DJ Screw e a sua técnica de mistura para criar o clássico som de Houston, o chopped and screwed.  A procura pela individualidade foi também uma característica chave para encontrar a sonoridade dos produtores de Atlanta. LaMaquis Jefferson –  que tocou o que eu pensava ser uma guitarra em “Waterfalls”, mas que é afinal um baixo – explica no documentário que descobriu como dar aquela sonoridade ao instrumento numa sessão com os Organized Noize.

Seria impensável não existirem alguns dissabores na história de um grupo que atingiu tal nível de relevância cultural. Este foilme mostra-nos que o aumento do sucesso dos Outkast trouxe cada vez menos  colaborações com o grupo e, ainda que garantindo que não sentia remorsos, Wade mostrou-se desapontado com o facto de 3 Stacks e Big Boi terem recebido o Grammy para Álbum do Ano em 2004, pelo fantástico Speakerboxxx/The Love Below, sem o trio que os acompanhou desde o início. Com isto ficamos com a certeza que a Dungeon Family funcionava como uma verdadeira família, que tinha apenas chegado a hora dos mais velhos deixarem espaço para os mais novos reclamarem o seu lugar.

Em suma, The Art of Organized Noize mostra-nos que a arte dos Organized Noize vai muito para lá da música: é um estilo de vida, um modo de pensar e criar, algo que perdura ainda hoje no som que continua a sair de Atlanta.

 

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