J Dilla: A alma na máquina

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] B+ aka Brian Cross

 

Fevereiro é um mês que diz muito a quem gosta de hip hop, mais concretamente a quem é fã de James Yancey Dilla, que está hoje mais vivo que nunca. O MC/produtor de Detroit nasceu a 7 de Fevereiro de 1974 e deixaria este mundo com uma obra marcante no dia 10 de Fevereiro de 2006, três dias depois do lançamento de Donuts. Filho de uma cantora de ópera e de um baixista de jazz, reza a história que aos 2 anos já andava com discos debaixo dos seus pequenos braços a caminho do parque, fazendo saltar à vista o talento inato que o celebraria como um dos maiores produtores de hip hop de sempre.

Detroit foi a sua casa e foi nessa cidade no estado de Michigan que encontrou o seu primeiro grande amor, os Slum Village. O grupo fundado por T3 e Baatin lançou o seu álbum de estreia Fan-Tas-Tic Vol.1 em 1997 e disparou as batidas de J Dilla para os ouvidos de todos os amantes de hip hop. A partir do seu estúdio caseiro, Jay Dee retirou o máximo de cada máquina e trouxe-nos instrumentais que fariam escola com basslines titubeantes e drums inconstantes a nunca denunciarem para onde iriam.

 


 


Desde a sua entrada no jogo, Dilla Dawg trabalhou sempre com os melhores artistas com afinidades soul/hip hop/R&B. O Soulquarians foi o colectivo que o acolheu e juntou a nomes incríveis como Erykah Badu, D’Angelo, Common ou Questlove. O seu selo está nos melhores trabalhos dos artistas acima mencionados: Voodoo, Mama’s Gun, Like Water for Chocolate ou Things Fall Apart têm a sua marca de água e sublinham uma era no que toca à renovação da aura que se tinha perdido ao longo dos anos. Se olharmos para os MCs que tiveram instrumentais com carimbo de Dilla a sustentar as suas rimas encontramos muitos dos grandes nomes desta cultura: A Tribe Called Quest, Nas, Busta Rhymes, Mos Def, MF Doom, Common ou Guru.

Donuts é a grande razão para estarmos aqui. Perceber o álbum é entender o seu contexto. O hospital foi o seu estúdio, o lúpus que lhe roubaria a vida entregou-o aos cuidados médicos, mas a MPC foi sempre a seu melhor amiga, sendo através dessa máquina que deixou mensagens escondidas em cada batida desta obra. O sofrimento de quem estava (quase) incapaz de conseguir fazer o que mais amava na vida acabou por resultar numa energia sobre-humana que sobressai em cada som que salta de Donuts. A saída deste álbum teve selo da Stones Throw Records, a editora que sempre acolheu os artistas que queriam criar batidas que dificultavam a vida aos MCs. Madlib é um dos pilares dessa casa e J Dilla encontrou a sua alma gémea no produtor de L.A., sendo o “filho” dessa relação Champion Sound, um desafio criativo entre dois génios para quem não existe sample que meta medo.

 


 


Apesar de ter estado, de certa forma, omnipresente no universo musical americano, J Dilla só conquistou o verdadeiro reconhecimento depois da sua morte. O seu legado é impressionante, se fizermos uma revisão nos artistas que o referenciam como influência e que beberam alguma coisa da sua obra. Os discos póstumos têm saído de forma regular – o último foi Dillatronic, um conjunto de experiências com foco na electrónica menos convencional – e parece que não vão parar, o que é apenas o reflexo da ética de trabalho do produtor.

Os beatmakers olham para Dilla como um Deus, um homem que via no erro a oportunidade de ser diferente no meio do excesso de zelo pela perfeição. Não que ele fosse descuidado, muito pelo contrário, mas o erro era algo que o cientista da batida pensava tornar a obra mais fiel e inconfundível, tentando encontrar no seu digging entre discos o sample que desse uma forma intemporal ao seu som.

As referências a Dilla parecem nunca mais terminar no universo hip hop e o chamamento do seu nome parece cada vez mais comum. O Dilla Weekend celebra a sua obra todos os anos com nomes sonantes –9th Wonder e DJ Premier foram dois dos artistas no alinhamento de 2016 -, To Pimp a Butterfly tem lá dentro o prodígio de Detroit – Terrace Martin revelou que, juntamente com Sounwave, escutava Dilla enquanto construía “Complexion” -, miúdos como Joey Bada$$ ou Bishop Nehru utilizam os seus beats e tornam-no fresco novamente e Pusha T, MC que se eleva entre os melhores do jogo, diz isto no seu último álbum, lançado em 2015: “The only great I ain’t made better was J Dilla”. Um visionário que não deixa de se agarrar ao presente, mesmo que agora se cumpram 10 anos sobre o seu desaparecimento.