Ana Mazzotti: um elo perdido da cena jazz-funk brasileira

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

O olhar que a Europa e os Estados Unidos lançam sobre o passado da música, sobretudo o passado das músicas extra-europeias ou americanas, é sempre moldado pelo filtro de um certo desejo exótico construído ainda pelo pensamento desenvolvido numa era pré-Internet, quando DJs e coleccionadores começaram a aventurar-se na descoberta de pérolas perdidas do Brasil ou de África e de outras latitudes até então inexploradas e por isso mesmo bastante desconhecidas sendo obrigados a construir narrativas para os tesouros que iam encontrando.

Nesse tempo (que podemos localizar no início dos anos 90) o ainda difícil acesso à informação justificava a romantização construída em torno de misteriosas rodelas de vinil que guardaram para a posteridade grooves significantes, experiências avançadas com som, leituras marcadamente locais de tendências de fundo do plano internacional, do jazz ao funk, do rock psicadélico ao disco e outros géneros exportados para o resto do globo pelas indústrias europeia e norte-americana. Assim, um grupo de músicos contratados em 1970 para entreterem os clientes de um qualquer hotel em Acra, no Gana, Lagos, na Nigéria, ou Adis Abeba, na Etiópia, tocando com o filtro da sua própria cultura versões dos Beatles, Jimi Hendrix ou James Brown temperadas por originais que permitissem estender os seus sets pelo número de horas necessário, transformava-se, na voz dos seus “descobridores”, décadas depois de eventualmente terem registado um solitário LP num estúdio local, editado por uma qualquer micro-label há muito desaparecida, num “avançado colectivo funk-rock apostado na reinvenção do som internacional que lhes chegava pela rádio ou pelas mãos dos clientes do hotel onde todas as noites debitavam uma ácida mistura de grooves e ritmos tribais em concertos explosivos”.

A Far Out de Joe Davis, que começou a lançar os seus primeiros maxis nos idos de 1992 e que em 1995 se aventurou pela primeira vez na recuperação da memória do Brasil (sendo portanto pioneira nessa tendência que é hoje ampla e que é sustentada pela actividade de várias outras editoras, da vizinha Mr. Bongo às portuguesas Mad About Records ou Groovie Records, por exemplo) com o relançamento do álbum de 1970, Obnoxious, de José Mauro, tornou-se etiqueta especializada no olhar sobre o som jazz-funk que varreu o Brasil nos anos 70, sobretudo por terem sido responsáveis por uma espécie de segundas vidas dos Azymuth e de Marcos Valle, nomes de que lançaram, ao longo destas últimas duas décadas, variadíssimos títulos, entre clássicos e novas gravações.

Este ano, a Far Out, além do fantástico trabalho do produtor de Marcos Valle, Daniel Maunick, que se estreou finalmente em nome próprio com Macumba Quebrada, lançou igualmente memórias preciosas dos Azymuth, Milton Nascimento, Dila ou Ana Mazzotti. A recuperação dos dois álbuns desta última cantora, compositora e pianista de Rio Grande do Sul – que desapareceu prematuramente, em 1988, ainda antes de completar 40 anos, vítima de cancro – é particularmente pertinente e, juntamente com a revelação das demos que os Azymuth registaram antes de se terem lançado formalmente em meados dos anos 70, constitui mais uma bem vinda peça para a resolução do entusiasmante puzzle da cena jazz-funk brasileira e, sobretudo, para a arqueologia sonora do próprio grupo de José Roberto Bertrami, Ivan Conti e Alex Malheiros.



Em Eu Sou Ana Mazzotti, revelador documentário de 2013 carimbado pela produtora Antro Filmes, traça-se um aturado retrato da artista, nascida numa família de imigrantes italianos, que cresceu numa cidade profundamente católica, educada em colégios de freiras e, portanto, “programada” para ser uma futura dona de casa seguindo os conservadores preceitos da sociedade da época (Ana nasceu por volta de 1950…). Mas Mazotti nasceu igualmente numa cidade, Caxias do Sul, perto de Bento Gonçalves, onde se situava a maior fábrica de acordeões da América do Sul e foi esse, precisamente, o seu primeiro instrumento, o que lhe abriu as portas do mundo da música conduzindo-a a uma educação formal nessa área, frequentando aulas de piano desde tenra idade. Ana começou, logo no início da adolescência, por liderar os colectivos corais da sua escola – recorrentemente vencedores em concursos corais organizados localmente – até que a revolução de pensamento conduzida pelos Beatles apontou outras direcções alternativas para quem procurava desprender-se das amarras patriarcais da sociedade em que tinha nascido. Os Beatles, por um lado, e o facto da tropicália acomodar projectos como os Mutantes, com Rita Lee, por outro, deram a Ana Mazzotti a inspiração necessária: formou primeiro um grupo de covers dos Fab Four de Liverpool só com raparigas antes de ter mostrado mais ambições com os Mersey Beats, outro grupo já informado pelas experiências de fusão dos Mutantes e restantes tropicalistas.

Foi num dos Festivais da Canção locais, realizado em Bento Gonçalves, que Ana Mazzotti conheceu o seu futuro marido e produtor, Romildo Teixeira Santos, conhecido na comunidade musical por “Tijolinho”. Juntos, e decididos a viver da música, criaram o grupo Desenvolvimento, colectivo pensado para o circuito agitado de bailes no início dos anos 70, estrategicamente posicionado na mais cosmopolita Porto Alegre. Nas notas da Far Out, editora apostada, certamente, em apresentar Ana Mazzotti ao mundo sob uma perspectiva atractiva para os consumidores contemporâneos deste tipo de música, o Desenvolvimento é descrito como “um grupo psicadélico de oito elementos”, mas era, na verdade, um competente grupo de baile, premiado inclusivamente nesse circuito, obrigado a tocar música capaz de entreter plateias transversais, tanto em termos sociais como etários, com um reportório variado feito a partir dos êxitos que então tocavam nas rádios. A ambição de Ana Mazzotti, bem documentada em fotos de época reveladas no documentário, traduziu-se não apenas no considerável investimento em equipamento – com teclados diversos e PA de qualidade – mas também no formato dilatado da banda que viria a revelar-se insustentável em termos financeiros, facto que ditou o fim do Desenvolvimento e levou à sua mudança para São Paulo, em busca de novas oportunidades.

Ninguém Vai Me Segurar, trabalho que Ana Mazzotti e o seu marido Romildo T. Santos financiaram de forma totalmente independente, foi lançado em 1974 e já reflectia a nova vontade da artista: por um lado apostava sobretudo em composições próprias – as excepções no alinhamento são “Acalanto”, de Chico Buarque, “Feel Like Makin Love”, canção de Gene Mcdaniels a que Roberta Flack famosamente deu voz, e “Sou”, tema de Zé Roberto Bertrami –, por outro procurava agudas ligações ao som presente internacional (Roberta Flack tinha lançado “Feel Like Making Love” uns meros meses antes…) e, finalmente, apostava na mesma zona de confluência entre o jazz e a música brasileira que haveria de garantir lugares na história aos Azymuth, Flora Purim ou a Marcos Valle.

Gravado nos estúdios Haway, do Rio de Janeiro, Ninguém Vai Me Segurar contou com os préstimos de Zé Roberto Bertrami, que assegurou órgão, Fender Rhodes, clarinete e sintetizadores Arp, Moog e Melotron, e Alex Malheiros, no baixo, guitarra e viola acústica, dois músicos que eram elementos centrais, juntamente com Ivan Conti, dos Azymuth, grupo à época envolvido na fase de experimentação documentada com a edição há alguns meses dos espantosos dois volumes de Demos (1973 – 75)e que só se estrearia formalmente no ano seguinte com Azimuth. O percussionista Ariovaldo Contesini, que também participou no primeiro álbum dos Azymuth bem como das tais pioneiras experiências laboratoriais do grupo, e que tinha no currículo trabalho de sessão para gente como Tim Maia, Oscar Milito ou Jaime & Nair, foi o outro único elemento presente nas sessões de gravação do álbum de estreia de Ana Mazzotti, que foi produzido pelo seu marido, Romildo, que também tocou bateria.



O que surpreende no primeiro álbum de Ana Mazzotti é o seu espírito modernista, expresso nos arranjos imaginados por Bertrami, e nas suas composições que a espaços evocam algum do material que Arthur Verocai tinha tranquilamente revelado no seu homónimo trabalho de estreia, editado um par de anos antes. Em “Bairro Negro” (tema que, aliás, foi samplado por DJ Spinna no primeiro álbum dos Jigmastas), a conjugação da voz de Mazotti e dos sintetizadores e Rhodes de Bertrami, num elegante e sofisticado equilíbrio, ajuda a explicar o fascínio que esta música exerce até aos dias de hoje. Cruzamentos de balanço sambado, bom gosto bossa e progressão jazz sustentam uma voz de relativamente modestos recursos técnicos, mas extremamente segura por saber exactamente o que é capaz de fazer. Uma delícia absoluta.

O talento de Ana não era assim tão vulgar na época, mesmo num Brasil progressista em termos musicais, e valeu-lhe aplausos dos seus pares, não apenas dos músicos dos Azymuth com que colaborou, mas também de gigantes como Hermeto Pascoal – que é uma das cabeças falantes no já referido documentário que lhe foi dedicado – ou Chick Corea, que Mazotti via como uma inspiração directa (dedicou-lhe uma composição, “Grand Chick”, que se pode escutar em Ao Vivo Festival de Verão Do Guarajá 82)e a quem escreveu, tendo mesmo recebido resposta em que o músico americano, ele mesmo profundamente inspirado pela música brasileira, lhe dava os parabéns pelas suas composições e pelo trabalho que se traduziu no seu primeiro álbum. Um dos talentos que esses grandes músicos lhe reconheciam passava pela sofisticação harmónica das suas composições. Pensadora, além de música, Ana teve a oportunidade de escrever num jornal de Bento Gonçalves e de referir-se à riqueza e complexidade harmónica da mais avançada música brasileira, antecipando em muitos anos o conceito de música brasileira harmonicamente rica defendida por um artista como Ed Motta, certamente conhecedor das pérolas que Mazotti legou à memória musical do seu país.

O segundo e homónimo álbum de Ana Mazzotti resultou de um upgrade, compromisso entre a própria autora e a editora Gravações Tupi Associadas, um selo que integrava o conglomerado de comunicações Rede Tupi), consistindo em novas misturas do material do primeiro álbum e regravação das pistas vocais e overdubs de metais, com a adição do original “Eta, Samba Bom” que substituiu a sua versão do tema de Roberta Flack, sublinhando ainda mais a sua ligação às tradições musicais brasileiras que Ana teve coragem de querer fundir com outras linguagens. São esses os dois registos que a Far Out recupera agora para o presente, infelizmente a partir da restauração digital de cópias em vinil em bom estado já que os masters originais há muito que se perderam (condição normal quando os discos eram financiados pelos próprios artistas que muitas vezes preferiam investir em tempo de estúdio, quedando-se apenas com o master final que era enviado para a fábrica e quase nunca investindo na aquisição dos multipistas).

A qualidade da música harmonicamente sofisticada e ritmicamente avançada de Ana Mazzotti só nos leva a lamentar ainda mais a sua morte prematura pois percebe-se que este era apenas o princípio de uma história que poderia ter ido muito mais longe. Mas ainda assim, Ana alcançou o futuro com que sonhava. Estamos à beira de 2020 e continuamos a falar dela, certo?


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu