Azymuth // Demos (1973-1975), Vol. 1 & 2

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

No capítulo final de As Serious As Your Life, livro originalmente editado em 1977 mas que mereceu relançamento recente, a autora Valerie Wilmer discute o futuro do jazz que, no arranque dos anos 70, foi obrigado a enfrentar a indiferença das editoras, então de atenções voltadas para outros filões musicais bem mais rentáveis. No texto “Does The Music Have a Future”, a notável escritora aborda a questão dos subsídios, estatais ou de fundações privadas, como uma das possíveis formas de sustento e aponta até a emigração, citando o caso de França que à época era um porto de abrigo seguro para muitos músicos de jazz, como outra saída possível para uma geração que então começava a sentir as dificuldades de garantir encaixe financeiro regular.

Um outro território impôs-se nos anos 70 do século passado como destino economicamente viável e alternativo às diferentes “ilhas” então estabelecidas pelo jazz – o denominado jazz de fusão, uma nova linguagem que levou o jazz para diferentes circuitos daqueles que os músicos mais alinhados com as correntes “free” ou as múltiplas denominações pós-bop exploravam em lofts e pequenos clubes. O acto de electrificar os ensembles prendeu-se tanto com o facto de haver uma geração de novos músicos tão habituados a escutarem Coltrane como Beatles, como com a necessidade que esses músicos tinham de singrar num diferente circuito de salas em que as bandas efectivamente eram obrigadas a recorrer a amplificação para se fazerem ouvir.

É na evolução do ecossistema da música ao vivo nos anos 70 que se deve procurar a causa da deriva do jazz: Miles a electrificar-se em 1969 com Bitches Brew – que viria a vender 400 mil cópias, número assombroso para um músico de jazz –, era um claro sinal dos tempos, causa e consequência em simultâneo.

No Brasil, claro, a música era igualmente um negócio sério. José Roberto Bertrami, teclista, atravessou a década de 60 a tocar samba e bossa nova nas casas de Copacabana, mas no seu apartamento no histórico bairro de Laranjeiras cedo iniciou uma experiência que haveria de o conduzir, juntamente com um pequeno grupo de aliados, até aos Estados Unidos da América. Bertrami conheceu Ivan “Mamão” Conti, baterista, e Alex Malheiros, baixista, ainda durante a década de 60 e foi com eles que gravou, como Projeto 3, o álbum O Trio, em 1968. Apesar de eminentemente acústico, esse trabalho tinha um vincado balanço de pendor modernista que haveria de ser aprofundado quando gravaram em 1970 o single “Mustang Côr de Sangue” a partir de uma composição de Marcos Valle lançada no ano anterior. O Hammond B3 de “Zé” Roberto Bertrami já prenunciava o futuro e terá sido argumento suficiente para que Marcos e o seu irmão Paulo Sérgio recrutassem o Projeto III para a gravação de O Fabuloso Fitipaldi, trabalho de 1973 assinado apenas pelos Valle em que o Conjunto Azimuth (assim mesmo, com “i”) é creditado como a banda de suporte. Com qualquer coisa de blaxploitation, esta banda sonora de um documentário de homenagem ao piloto de Fórmula 1, com interlúdios falados, sublinha que Bertrami e os restantes músicos estavam atentos ao que se passava mais a norte, com Isaac Hayes a funcionar como uma nítida influência. Na mesma época, Bertrami ainda carimbou arranjos para o clássico Previsão do Tempo de Marcos Valle (o teclista de Azymuth voltaria, aliás, a ser chamado por Valle para o álbum Vontade de Rever Você, de 1981, ao passo que a secção rítmica de Malheiros e Conti seria recrutada, já em 2001, para o álbum Escape, lançado na mesma Far Out a que os Azymuth se ligariam em 1996 para uma prolífica nova fase).



Com a benção de Marcos e Paulo Sérgio, Bertrami, Conti e Malheiros assumiram o nome Azimuth (mais tarde estilizado com “y”), a partir do título de uma das faixas de O Fabuloso Fitipaldi, e, com o percussionista Ariovaldo Contesini ao seu lado, começaram, ainda em 1973, a aperfeiçoar no estúdio caseiro do bairro das Laranjeiras o som com que haveriam de se estrear oficialmente em 1975 com o álbum homónimo Azimuth (que saiu pela Som Livre e que em 2015 voltou a ser relançado em vinil pela Far Out).

Os álbuns que a Far Out acaba de lançar, Demos (1973-75) Vol. 1 & 2, reúnem as incríveis experiências que o trio conduziu no seu estúdio caseiro, quando procuravam um som que lhes garantisse uma carreira e em que pudessem conjugar a sua particular identidade brasileira com os novos caminhos que o jazz então trilhava. E que fosse executável ao vivo, por uma célula de músicos contida que em palco nunca poderia contar com as possibilidades que os estúdios de multipistas então ofereciam.

Logo em “Prefácio”, a faixa que abre o primeiro volume deste conjunto de Demos, torna-se óbvio que estamos perante um documento muito especial. A bateria de “Mamão” é um propulsor complexo do som do grupo, colorida subtilmente pelas percussões e embalada pelo incrível baixo de Malheiros. E por cima de tudo, Bertrami dispõe um vívido órgão, exibindo as capacidades assinaláveis da sua mão direita, dona de uma inventividade a toda a prova. E fica, logo aí, estabelecido o tom para estas gravações, nitidamente exploratórias e servidas por um som muito aceitável (que infelizmente as notas de capaz não esclarecem se se trata de gravação directa ou multipistas, embora quase tudo aponte para a primeira possibilidade).

Joe Davis e Roc Hunter, da Far Out, descobriram estas gravações há 25 anos (!!!) quando foram ao Brasil para trabalharem com os Azymuth naquele que seria o seu álbum de regresso, Carnival, lançado pela etiqueta londrina em 1996. José Roberto Bertrami mostrou então estas maquetes ao patrão da Far Out, mas por alguma razão só agora elas vêem a luz do dia. Mas ainda bem que tal acontece.



O “arsenal” de Bertrami é considerável, tendo em conta a época, e mostra que havia um directo alinhamento com o que as fichas técnicas de trabalhos de Herbie Hancock ou Chick Corea então revelavam: Mini Moog Series One, Arp Omni, Arp 2600, Arp Solina Strings, Fender Rhodes 88, Hammond B3 devidamente emparelhado com a coluna rotativa Leslie para o efeito de “tremolo” correcto e ainda Clavinet com wah wah, tal como ensinado por Stevie Wonder em “Superstition”, o mega-clássico de 1972. Bertrami estava, portanto, em plena sintonia com o seu tempo e isso é que é extraordinário nestes dois volumes de Demos, a incrível modernidade daquele som que, embora seja muito “live” e portanto bastante cru quando comparado com o que o grupo faria mais tarde em estúdios que possibilitavam uma maior complexidade de arranjos, é, ainda assim, muito definido, erguido em cima de sólidas fundações musicais e até prenunciador de algum futuro. A depuração de meios – gravação directa, bateria, percussão, baixo e teclados – dá a esta música uma estética quase hip hop (juro!…) que, certamente, muitos produtores irão explorar, tanto pela via do sampling (várias passagens convidam a isso) como pelo simples estudo das ideias aqui presentes.

“Castelo”, a segunda faixa do primeiro volume de Demos, abre logo com um espantoso break de Ivan Conti, a que se juntam depois os outros músicos, com o teclista a alternar entre o Clavinet e o que soa a Rhodes processado, com riffs muito simples que parecem implorar para serem dispostos em loop. E por incrível que pareça as coisas não acalmam no impressionante “Melô da Cuica”, tema que vive de um riff no Hammond e de uma cadência funky na bateria complementada por pormenores deliciosos de Malheiros no baixo. Já “Laranjeiras”, tema em que o grupo homenageava o bairro onde se situava o estúdio, os Azymuth deixam entender que os seus hábitos de audição se estendiam para lá do jazz, com pormenores no solo de órgão que parecem remeter para algum prog britânico, mas a economia funky nunca anda distante e cada um dos músicos demonstra entendimento perfeito dos conceitos de groove e balanço, nunca tocando mais do que o necessário, mas garantindo em cada momento ser capaz de tocar o que se impõe, com classe e absoluta segurança técnica.

E essa é a nota dominante que atravessa os dois volumes: a solidez de cada um dos músicos, tecnicistas sérios que ainda assim sabem o suficiente para não se perderem em exercícios ocos de virtuosismo. Mesmo em “Bateria do Mamão”, um showcase de Ivan Conti no segundo volume (e uma potencial delícia para produtores que saibam usar bem as suas MPCs) que se estende bem para lá dos sete minutos, não há demonstrações histriónicas de técnicas complexas, apenas uma assertiva clarificação da íntima relação do baterista com a noção de tempo musical. Já o final de “Equipe 68”, mostra que Bertrami é capaz de extremos: lírico num momento, carregado de groove jazz noutro, aqui é completamente ácido, optando pelo ruído quase rock para uma explosão absolutamente descontrolada no que parece ser o Moog, antes do grupo pousar depois em cima de um par de notas mais cristalinas no Rhodes, no que parece um regresso à Terra após intempestiva missão cósmica.

Os Azymuth estrearam-se em 1975 na Som Livre, mas rapidamente apontaram ao exterior. Águia Não Come Mosca, trabalho de 1977, mereceu edição nos Estados Unidos e Japão através da Atlantic, facto que lhes abriu as portas da Milestone, editora de jazz histórica que logo em 1972, quando se ligou à Fantasy, percebeu que sopravam novos ventos no jazz, contratando Flora Purim, outro enorme talento brasileiro, que aí conseguiu carreira de sucesso. O mesmo sucesso foi igualmente alcançado pelos Azymuth, que em Light as a Feather, a sua estreia de 1979 no catálogo da Milestone, registaram logo vendas surpreendentes, catapultadas pela adesão das rádios ao clássico “Jazz carnival”, tema em que o grupo inteligentemente soube captar o zeitgeist combinando um pulsar disco, com arranjos típicos do jazz de fusão e um subtil sabor tropical que ajudou a fazer a diferença.

Que os Azymuth fossem depois capazes de transpor para o palco toda a energia que deixavam libertar-se nos discos foi, claro, condição fundamental para o sucesso que haveriam de alcançar nos alvores da década de 80. A raiz desse sucesso, no entanto, está toda exposta nos dois volumes de Demos que criaram entre 1973 e 1975, de ouvidos colados no mundo, cabeça aberta às novas possibilidades e pés bem assentes no chão. É que não há outra maneira de sentir o groove.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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