Ace: “Roger Plexico foi um desafio para testar os meus limites”

[ENTREVISTA] Ricardo Miguel Vieira [FOTO] Deck97

 

O projecto colaborativo de Roger Plexico (SlimCutz & Taseh) com Ace, histórico MC dos Mind Da Gap (MDG), foi lançado ontem com selo da Monster Jinx. O disco funde duas gerações do hip hop nacional num registo de beats imersos em ambientes digitais e variações atmosféricas, com malhas densas e escuras e outras viajantes e até romantizadas.

Para Ace, tratou-se de um desafio, um teste às capacidades de adaptação a diferentes abordagens e estéticas dentro do hip hop. Um exercício que levou o MC e produtor associado aos MDG pressionar o “reset“, redireccionar flows e rimas para as produções que lhe passaram para as mãos e procurar “comunicar às pessoas”, especialmente as gerações mais novas.

Roger Plexico (que entrevistámos a propósito deste projecto em Junho) e Ace estrearam o projecto ao vivo na última edição do Sumol Summer Fest, altura em que trocámos umas palavras com o rapper de Gaia sobre a sua abordagem a um disco desenhado por produtores da nova geração.

 

Fizeste quase um reset entre os Mind Da Gap e Roger Plexico. Como foi essa adaptação a esta nova realidade?

Não foi fácil, mas nem foi pela questão dos Mind Da Gap. Os MDG, para mim, é como respirar, é uma coisa natural que não consigo dissociar de mim quando acordo. É o que sou, para todo os lados que vou eu sou uma extensão dos Mind Da Gap. São 22 anos de MDG, com um percurso musical e evolução de letras e temas e atitudes. Essa evolução percebe-se, éramos uns putos que começaram a fazer música com 18 anos e que agora têm quarentas. Em Roger Plexico tentei fazer isso que disseste: um reset. Não digo que tenha sido completo, porque há coisas que fazem parte do carácter de cada um de nós. Há coisas que não quero fazer, não por ser dos MDG, mas por mim próprio. Aparte essas coisas, tentei esforçar-me ao máximo para comunicar com pessoas mais novas do que eu.

 

Nesta altura encaras como uma espécie de renovado desafio falar aos ouvintes de gerações mais novas?

É uma coisa que com MDG já começa a ser difícil, sendo que somos gajos de 40 anos a tentar comunicar com um público bastante mais novo do que nós. Só daqui a 20 anos iam compreender o que dizemos. Então, tentei fazer esse reset: ‘esquece que és dos MDG, esquece que tens não sei quantas letras para trás, foca-te na música, nos beats que te passaram e tenta procurar dentro de ti coisas que fosse mais fácil comunicar às pessoas’. Haverá casos em que falhei redondamente, mas esperemos que haja casos em que acertei.

 


 


Que diferenças encontras na tua abordagem a este disco em comparação com os registos de estúdio de MDG?

A propósito deste projecto com Roger Plexico, acho que foi a primeira vez que usei o cérebro na música. O que quero dizer é não que não me deixei levar só pela emoção e pelo que o lado mais artístico em mim indicou. Ou seja, questionei-me se as coisas fariam sentido e se as pessoas iriam compreender-me, algo que nunca tinha feito até então. Fiz o exercício do reset para trabalhar com duas pessoas que são quase metade da minha idade e sem assumir aquela postura de que eu é que sou o gajo que manja disto (risos). Na realidade se formos a estudar isto, é claro que sou a pessoa que manja disto. Mas eu tenho uma história de 22 anos para trás e eu sei que o que acontece hoje em dia já não tem nada que ver com o que acontecia quando comecei. Não quero ser um dinossauro, não vou ser o T-Rex que vai ganhar assas e mudar completamente o seu carácter. Mas  vou tentar, dentro dos possíveis, como pessoa inteligente e talentosa que me considero, encontrar uma maneira, em projectos com outras pessoas e fora de MDG e da minha cena a solo, de explorar uma maneira mais fácil de comunicar com as pessoas.

 


 


 

E como é que foi estar em estúdio com músicos mais novos a controlar a produção?

Depois destes anos todos, achei piada fazer um projecto com putos 20 anos mais novos do que eu, com ideias frescas e outras formas de olhar para o rap. Foi um desafio ao mesmo tempo para testar os limites, espécie o maratonista que está quase a cair para o lado e a tentar ver até onde mais aguenta. Fui eu a tentar esticar a minha versatilidade, ver o que eu conseguia. Mas gostei do desafio e não foi nada do género do cota que anda nisto há muitos anos e que vai fazer o que lhe apetece. Tentei pôr-me sempre do lado deles e perguntar-me se seria assim uma coisa tão grave fazer isto. Acho que não caiu nenhum santo de uma igreja.

 

Sentes que a sonoridade de Roger Plexico diverge do que habitualmente escutas ou rappas?

Pode não ser muito diferente daquilo que eu oiço. Não vou dizer que não oiço Drake ou Lil’ Wayne. Não sou quadrado, gosto de dançar. Não tenho preconceitos. Eu tenho uma teoria: a música para mim tem de bater em alguns sítios. Na cabeça, tipo rap que te faz viajar e pensar naquilo que estão a dizer, tipo Black Starr; nos tomates – tipo Mobb Deep, aquele rap que ouves e que te sentes mais homem; há rap que tem de bater onde tiveres o ritmo – ou pernas, ou ancas, ou ombros; e, claro, o coração. Se não bate em nenhum destes quatro sítios, então não faz sentido. Em Roger Plexico, são mais os ambientes que mudam.

 


 


São mais densos e escuros… Têm outra carga emotiva.

Exactamente. Apercebi-me disso depois de estar tudo feito. Ouvi as músicas e pensei, ‘eish que dark que esta merda está’. É engraçado dizeres isso porque pensei que fosse uma paranóia minha e que as pessoas de fora não percebessem isso. Acabou por ditar um bocado o que aconteceu em relação às letras, que podiam ser coisas diferentes e acabaram por ser o que se ouve. Em termos da densidade, não é muito deslocado de MDG, que também tem músicas densas. Algumas até demais. Mas é um denso diferente porque a cena do sample muda tanto… É incrível, Roger Plexico tem samples mas é daquele género que não é suposto dares por ele. É mais ou menos a filosofia da produção que se faz hoje em dia, muito por culpa dos norte-americanos terem começado a colocar processos de milhões em cima da malta que samplava. A partir dessa altura o pessoal começou a fazer beats tocados. Roger Plexico até acaba por ter uma quantidade maior de samples do que cenas tocadas pelo Taseh, mas a interpretação é que dá a sensação de que é tocado.

 

Com essa sabedoria de mais de 20 anos no rap, mudarias alguma coisa neste trabalho?

Em dois dias escrevi as letras para as músicas todas, foi uma coisa muito rápida. Gravámos tudo em cinco sessões de estúdio. Na minha cabeça, como foi tudo rápido, imaginei que no Verão já andávamos por aí a apresentar o projecto. Ou seja, não mastiguei as músicas. O disco ainda agora saiu e há tanta coisa que teria feito de forma diferente. Apesar de ter usado um pouco mais o cérebro, continua a ser uma coisa muito espontânea, de deixar-me seguir pelo feeling. Desafio-te a dizeres-me uma letra de MDG onde tenha repetido a mesma palavra mais que uma vez. Aqui não tive esse cuidado. Acreditei muito neles como fontes de inspiração fresca e de juventude. Isto não é a minha praia, se calhar não faria isto assim, mas eles disseram-me que se fizer assim a música vai resultar melhor. Dei o benefício da dúvida e deixei abrir a possibilidade de que outras coisas pudessem acontecer. Estou contente por mim, neste aspecto, porque foi uma conquista minha enquanto pessoa. Para já é positivo, vamos ver o resto daqui para a frente.

 

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.