Roger Plexico: um mito desenhado com beats

 


 

[TEXTO] Ricardo Miguel Vieira [ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Francisco Henrique Melim

 

A abertura da jornada no Porto, por altura do NOS Primavera Sound, faz-se numa ventosa tarde para os lados do farol de Leça da Palmeira. Bem junto à linha de costa, entramos numa pequena rua, pontilhada de moradias, e detemo-nos junto à entrada para uma casa. Saímos do carro e aguardamos a chegada dos anfitriões: DJ SlimCutz e Taseh, o duo que enforma a figura tornada mito de Roger Plexico.

A ruela está deserta, não se vê nem escuta um carro ou mota que seja. Mais tarde, com o desenrolar da conversa com os produtores, amigos de infância, que se lançaram à música praticamente juntos, até percebemos que este poderia muito bem ser o cenário da história da personagem Roger Plexico. Bastava que o céu virasse cor de carvão e as redondezas fossem ruínas à beira de um revolto Atlântico, porque é exactamente desse cenário sombrio, de narrativas passadas espelhadas em detritos de cimento, que se escreve os instrumentais no EP hoje lançado pela dupla nortenha: No Man’s Land. “Conta uma história sobre os sítios abandonados por onde o Roger Plexico terá eventualmente passado e tentámos pegar na energia desses locais e passar para uma música”, dir-nos-à SlimCutz.

O EP surge na sequência do término de gravação do disco com Ace, MC dos Mind Da Gap que se juntou a Roger Plexico para um trabalho colaborativo a lançar em Setembro. Entre o álbum e este novo EP, há uma actuação no Sumol Summer Fest, a 4 de Julho, onde serão desvendadas as malhas do LP a editar pela NOS Discos (em formato CD) e pela Monster Jinx (em vinil).

O portão abre-se, Taseh e SlimCutz apresentam-se e seguimos para o interior, onde ficamos a conhecer os dois estúdios onde nasce a música destes produtores. Espaços repletos de aparatos electrónicos e muitas figuras comics, universo predilecto de Roger Plexico, onde nada é certo e tudo é uma história por contar.

 

[NO MAN’S LAND]

[SlimCutz] “Acabámos o álbum com o Ace há uns meses e na fase de mistura fomos fazendo música nova e chegámos à conclusão que tínhamos música suficiente para fazer um EP de 10 músicas de vertente instrumental, semelhante ao que fizemos na cassete [Who Is Roger Plexico?]. Estamos a trabalhar quase diariamente, há muitas músicas a sair que não vamos deixar para trás porquese calhar já não íamos querer lançá-las se fosse daqui a um ano. [O EP] Chama-se No Man’s Land, conta uma história sobre os sítios abandonados por onde o Roger Plexico terá eventualmente passado e tentámos pegar na energia desses locais e passar para uma música.”

[IDENTIDADE]

[SlimCutz] “Estamos a chegar à nossa identidade sonora. É uma coisa que estamos à procura, mas estamos cada vez mais próximos de definir o som Roger Plexico.”

[Taseh] “Cada projecto vai tendo a identidade geral Roger Plexico, mas cada um é diferente à sua maneira, é um pouco isso que define o Roger Plexico. É importante perceber que crescemos praticamente juntos e que já fazemos música há uns 10 anos. Começou com brincadeiras de miúdos, depois nasceu a Monster Jinx e chegámos agora àquilo que é o Roger Plexico. Foi decidirmos que chegámos ao nosso ponto mais maduro, ao que realmente queremos fazer e juntámo-nos e começámos a trabalhar mais a sério.”

[ÁLBUM COM ACE]

[SlimCutz] “Chama-se mesmo Roger Plexico & Ace, é como se fosse um meeting entre os dois. É um álbum colaborativo, ele entra nas músicas todas. Ele tentou fazer uma coisa diferente, fugindo aos Mind Da Gap. Ele diz que sim, que tentou fazer algo diferente (risos), mas acho que ele não consegue fugir de ser ele próprio.”

[Taseh] “É o Ace a ser o Ace. Tem as típicas músicas que toda a gente sabe que o Ace é bom a fazer, músicas de amor, tem os clássicos mais agressivos… É um álbum clássico de rap a nível de temáticas líricas, perfeitamente normal.

[SlimCutz] “O álbum vai sair em CD em Setembro. Até porque achamos que há um mercado do vinil e das cassetes para esta onda dos beats, mas o pessoal do rap, principalmente em Portugal, ainda compra muito o CD. Não é um formato que sou fã, mas ainda funciona muito bem no hip hop em Portugal e não queremos que miúdos deixem de comprar a música porque está em cassete ou em vinil. O CD é um formato mais fácil. O vinil vai sair com o carimbo da Monster Jinx e o CD pela NOS Discos.”

[SUMOL SUMMER FEST]

[SlimCutz] “Temos um concerto [com Ace] marcado para o dia dos Slum Village, dia 4 de Julho. É quase como uma pré-apresentação do disco, é um concerto que será só de exclusivos, porque só terão saído duas músicas nessa altura. É [um cartaz] extremamente positivo. Talvez estivessem a fugir à linhagem inicial deles, principalmente no último ano. Então, este ano tentaram dar uma roupagem nova e está impecável. Slum Village e Chance The Rapper é um passo importante nos festivais portugueses.”

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

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