Chance The Rapper no Sumol Summer Fest: o melhor concerto de sempre na Ericeira?

 

[FOTOS] Ricardo Miguel Vieira

 

Bastam umas curtas linhas para afiançarmos que a passagem de Chance The Rapper pelo Sumol Summer Fest da Ericeira tem direito a lugar na história do hip hop de palco deste país. Não é normal este tipo de estreias acontecer fora do natural eixo erguido entre Porto e Lisboa. Não é normal recebermos este tipo de artistas antes de uma real explosão no exterior. Não é normal os cartazes dos festivais estarem abertos a este tipo de talentos, que ainda não foram sancionados pelas tabelas de vendas. Não é normal, mas aconteceu.


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Chance The Rapper é um artista de mão cheia e a versão do Social Experiment que o acompanhou – baterista que soa como uma MPC, dois teclistas, um deles também capaz de agarrar no baixo, e Donnie Trumpet, claro – é sólida como as rochas da Pedra Branca que se situa ali mesmo de frente do palco. Este hip hop é outra coisa qualquer: é gospel e funk e jazz e punk e o que mais quisermos, mas é sobretudo uma força transformativa, ousada, capaz de olhar para o hip hop como um trampolim e não como um colete de forças. O Social Experiment tocou que nem gente grande, mas também pulou, dançou, correu em palco, dando uma dimensão teatral a um espectáculo bem mais articulado do que seria de esperar: gráficos, luzes, palavras e vídeos em perfeita sintonia para servirem e sublinharem o talento de Chance. Que largou, sobre a Ericeira, um fogo de artifício de palavras e sílabas e respiraçõs e flows absolutamente extraordinário. Isto não é normal neste tipo de concertos de festival, onde não costuma haver lugar para o detalhe, para o pormenor, para a miniatura.


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Claro que houve hits: “Juice” e “Cocoa Butter Kisses” e “Chain Smoker” à cabeça. Deu para revisitar #10Day e para perceber como Acid Rap afinal resulta na perfeição no palco e como Surf pode funcionar mesmo sem um cast digno da Broadway atrás. Agora queremos – perdão, “precisamos”… mesmo! – ver Chance The Rapper na Aula Magna, com um Social Experiment expandido, para percebermos melhor ainda o que é que nos aconteceu a todos ali na Ericeira.

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Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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