A última (e)missão

Escrevo isto poucas horas depois de ter feito a ultima emissão na O2. Há mais ou menos 16 anos estava tudo a começar. Se isto fosse num filme, faria vénias ao argumentista, mas aconteceu na vida real – e a mim!

Não recordo as datas precisas, mas sei que as primeiras emissões em 102.6, como Rádio Oxigénio, foram por esta altura, final de Setembro, início de Outubro. Algum tempo antes, Pedro Brás Monteiro, dono da Rádio Marginal e da Rádio Comercial da Linha, chamava-me ao gabinete depois do meu programa na Marginal (Mercúrio, 7-9 da noite) e estendia-me uma factura de CDs comprados numa grande loja (que agora já quase nem vende discos…). A lista era interessante. E longa. Tinha Kruder & Dorfmeister, Massive Attack, St Germain, colectâneas da Irma… Se já tivesse telemóvel com máquina fotográfica teria tirado uma foto mas era 1999, acreditava-se que o Y2K ia destruir o mundo e o pessoal reunia-se em fóruns para discutir música, mas não havia vídeos, nem SoundCloud, nem redes sociais… A internet era uma miséria no século passado, ninguém falava de MP3s ou downloads!

Admito que vacilei quando Pedro Brás Monteiro perguntou se era possível fazer uma rádio com aquela música. Primeiro achei que era uma pergunta retórica, que tinha comprado os discos para ele e estava a fazer uma piada. Mas ele queria mudar a RCL e até já tinha um nome para o novo projecto: Rádio Oxigénio. Eu tinha vindo da XFM, passara brevemente pela Voxx (quando ainda era proibido falar) e estava feliz por ter encontrado na Marginal (a convite de Pedro Coquenão, hoje Batida, na época a dirigir a Marginal com Rodrigo Albergaria) espaço para partilhar a música em que acreditava. Com aquela factura de discos na mão, senti-me como se o Génio da Lâmpada me tivesse concedido um desejo, ou aquilo fosse a lotaria! Pensando bem, até acho que foi mais ou menos isso que aconteceu…

Começámos só com notícias, playlist durante o dia, alguns programas de fim-de-semana e um programa de autor à noite: Pentágono. Tinha uma promo de que ainda hoje me lembro (“cinco agentes em missão especial investigam ritmos de todas as latitudes”, a música era de Visit Venus). Cada dia uma pessoa: Sofia Morais (Miss Kitty), Johnny (Mr Brown), Tiago Santos (Mr Cool), Rui Miguel Abreu (Mr Big) e eu (Miss Isi). Depois saiu Johnny e entrou Dexter (Mr Blue), saiu Dexter e entrou Carlos Cardoso (Mr Hyde). Tudo acontecia na Torre da Aguilha, em S. Domingos de Rana, num barracão isolado e meio sinistro, que partilhávamos com a Rádio Marginal (e onde toda a gente tinha medo de ficar sozinho à noite).


 

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Sempre acreditámos (eu sempre acreditei) que a Oxigénio fazia sentido e era única, mas erámos pequenos, quase desconhecidos, e isso tinha custos (fomos sempre pagos!). Quando a corda apertou a sério (o 11 de Setembro agravou tudo), Luís Montez e Álvaro Covões resgataram-nos e levaram-nos para Lisboa, Rua do Viriato. Chegámos logo depois da Radar e um pouco antes da Marginal. Nessa altura já com emissão durante todo o dia, reforçada por Rui Portulez e Jorge Évora, mais tarde também por Rita Moreira. Muita gente entrou e saiu da Oxigénio e hoje (11/9/2015) foi a minha vez de fazer a última emissão. Foi há pouco. E aguentei-me. Mas custou.

Olhei para as pastas de música daquela rádio e senti um orgulho imenso e ao mesmo tempo frustração por não poder trazer tudo comigo. Música do caraças!!! Muita descoberta pelas várias pessoas da equipa, muita também trazida pelas centenas de convidados nacionais e estrangeiros que foram aparecendo, alguma ainda do tempo do Lux Sagres FM. É uma base de música extraordinária, mas há que dizer que o grande orgulho da O2 sempre foi ter dois pratos de gira-discos no estúdio (uma exigência da equipa do Lux que ainda vale como um trunfo!)

Mesmo que quisesse, não conseguiria listar todos os momentos especiais que tive na O2. Foram 16 anos incríveis! Aprendi e cresci muito. Desafiei-me (a mim própria e espero que também aos outros – alguns, pelo menos), comovi-me, fiz figuras tristes, tive tiradas parvas e outras até inteligentes (acho…), tropecei no português, inglês e espanhol. Diverti-me muito e algumas vezes até perdi a cabeça. Entrevistei gente extraordinária que admiro como James Murphy, Dâm-Funk, Jamie Lidell, DJ Harvey, DJ Vibe, Carl Craig, Jimi Tenor, Luke Vibert, DJ Vadim, Andras Fox… dezenas (centenas?) de DJs e projetos nacionais cujo name dropping não vou fazer porque a lista é demasiado longa (e não quero esquecer-me de ninguém).

O que fica é um coração cheio e um nó na garganta (que espero passe depressa porque tenho que gravar Os Cientistas Loucos – deixo de fazer emissão mas continuarei a colaborar).

Foi muito bonito! Das melhores coisas de sempre na minha vida.

E sei que a Oxigénio continuará tão especial como sempre a dar-nos música para respirar, e não só. Agora vou poder apreciá-la da melhor maneira: como ouvinte (que estava lá quando tudo começou).

Music Saves Our Souls!

Observação: A minha última hora de emissão não foi planeada. Aconteceu assim.

 

Isilda Sanches

Escreveu em jornais como Se7e, Blitz, Já, Independente ou Diário de Noticias. Fez radio na XFM, Voxx e Marginal, fundou e coordena a Rádio Oxigénio. É bastante melga quando gosta de alguma coisa.

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