8 pérolas de corte & cola ou a superior arte da colagem no hip hop

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Há um fio que liga os pioneiros da música concreta – gente como os Pierres Henry e Schaeffer ou os membros do Radiophonic Workshop – aos primeiros DJs que no Bronx perceberam que podiam eles mesmos, com dois gira-discos e uma mesa de mistura, operar a sua própria costura sonora. Se a música concreta foi o universo da música erudita a entender que a tecnologia abria ao compositor um universo de novos sons, manipuláveis através dos gravadores de fita, já o hip hop foi o resultado do entendimento que o dj fez de uma nova tecnologia, aplicando-lhe uma visão criativa que depois se tornou cultura: a curadoria do passado numa estante recheada de vinil, as marcas de uma identidade cultural na selecção dos discos. A Universidade de Cornell recolheu, classificou e encontra-se no processo de estudar a colecção de discos de Afrika Bambaataa (a mesma universidade e colecção que estão na base da aventura Renegades of Funk de DJ Shadow e Cut Chemist) exactamente por perceber que está aí um intrigante e determinante labirinto de referências que está na base de toda uma nova linguagem, de toda uma cultura: o diggin’, a curadoria do passado, o scratch, a cultura de reedição da memória da música – de toda a música – através do suporte de vinil. Tudo marcas do hip hop que desembocam na perfeição na mix Cut n’ Paste, o momento em que a arte da música concreta, do corte e cola de fita analógica, e do dj de hip hop, da colagem de diferentes excertos impressos em vinil, se fundem num poderoso caleidoscópio feito de minúcia, olhar conhecedor do passado, skill, musicalidade e de uma igualmente saudável vontade de quebrar regras.

 


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[GRANDMASTER FLASH] The Adventures of Grandmaster Flash on The Wheels of Steel
(Sugar Hill Records, 1981)

A famosa cena da cozinha no filme Wildstyle mostra o enorme Grandmaster Flash a cortar com plena elegância duas cópias do mesmo disco e a deixar dessa forma muito claro que o DJ era ele mesmo um autor, mesmo se apoiado em matéria alheia para erguer a sua arte. Aqueles cinco minutos – que vão de Blondie aos Chic, dos Incredible Bongo Band aos Queen – são uma espécie de molde para toda a arte subsequente erguida através das rodas de aço: uma lição intemporal de timing, bom gosto, cortes cirúrgicos, flow. E naqueles breaks esconde-se também o ADN do hip hop, o impulso do futuro de permanente busca da batida perfeita. Tanta coisa em cinco minutos supostamente realizados com recurso a três gira-discos e uma mesa de mistura. Flash era rápido, de facto, e cortava com tanta alma que parecia um alfaite de Saville Row.

 


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[DOUBLE DEE & STEINSKI] Lesson 1: The Payoff Mix
(Tommy Boy, 1985)

Em 1983, Steve Stein convenceu o seu amigo Douglas Di Franco (Double Dee) a participar num projecto de elaboração de uma remistura para o tema “Play that beat mr dj” de G.L.O.B.E. & Whiz Kid. No júri que escolheria o vencedor do desafio lançado pela Tommy Boy estavam Afrika Bambaataa e Jellybean Benitez, dois importantes protagonistas da emergente cultura hip hop. “The Payoff Mix” conseguiu o primeiro lugar sem dificulades, obtendo aplausos unânimes por parte dos membros do júri. Nos cinco minutos e vinte e quatro segundos desse momento fundador da série de três lições que se revelariam visionárias estão ideias decisivas para se compreenderem as três últimas décadas de criação. E é importante perceber que esta é uma cut n’ paste mix de transição: Double Dee e Steinski usaram gravadores de fita, muito provavelmente Revoxes de quarto de polegada, mas também gira-discos, pegando na obra-prima de Grandmaster Flash e ligando essa praxis criada nos parques do Bronx a uma mais antiga linhagem de trabalho laboratorial começada no Groupe de Recherches Musicales dirigido em França por Pierre Schaeffer.

 

 


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[ERIC B & RAKIM] Paid In Full (Seven Minutes of Madness – The Coldcut Remix)
(4th & Broadway, 1987)

“This is a journey into sound”, promete a voz logo no início, antes de Rakim – que repete “Pump up the volume!” – se atirar com elegância a Ofra Haza que solta “Im nin alu” da garganta como se sempre tivesse estado ali, ao lado do MC divino. E depois é uma montanha russa de sete minutos, com breaks de todos os tamanhos e feitios a colidirem com vozes apanhadas em filmes e em programas de TV, mostrando que os Coldcut tinham estudado atentamente as lições apresentadas ao mundo por Double Dee & Steinski. Jonathan More e Matt Black ainda estavam a um par de anos de estabelecer a influente Ninja Tune, mas com os pés ainda firmemente plantados nos anos 80 projectavam já boa parte da ética sampladélica que lhes haveria de guiar a carreira e inspirar grandes momentos dos anos 90. Endtroducing de DJ Shadow e boa parte da Mo’ Wax não teria acontecido se esta mix não tivesse conseguido o impacto que conseguiu.

 

 


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[DJ SHADOW & CUT CHEMIST] Brainfreeze
(Sixty Seven Recordings, 1999)

As aventuras de DJ Shadow com Cut Chemist nos ultra-coleccionáveis Brainfreeze e, mais tarde, Product Placement deram origem a uma verdadeira febre coleccionista de Funk 45s. Esses dois CD’s de edição caseira e ultra-limitada valem hoje uma boa maquia, mas nada que se compare aos discos usados para construir essas mixes. Fãs devotos dos dois DJ’s andaram durante os últimos três anos a discutir afincadamente em sites especializados da Net quais os discos usados por Shadow e Chemist nesses dois “sets”. O facto de a informação não ter sido originalmente disponibilizada, fez desse trabalho uma titânica tarefa de “beat diggin’”. E o aparecimento no mercado dos CD’s “Brainfreeze Breaks” e “Product Placement Breaks” (não se percebendo muito bem se Shadow e Chemist estão envolvidos ou não) lança luz sobre o material usado originalmente, ou seja há quem tenha valorizado a matéria original só depois de reenquadrada pelos DJs. “Hey you, martial arts fan! Are you ready to get your guts kicked out?” O sample é certeiro, porque Brainfreeze é uma dose intensa de porrada: discos cortados com classe, pontaria de sniper e precisão de cirurgião, conseguindo colar coisas que supostamente não deveriam combinar, funk com rock psicadélico, spots de rádio delirantes e breaks daqueles que certamente animaram muitas rodas de b-boys nos pioneiros dias do Bronx. Classe absoluta.

 

 


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[PRO CELEBRITY GOLF & JAY GLAZE] Three Sinister Syllables
(Chopped Herring, 2004)

Na insuspeita Wax Poetics escreveu-se, a propósito de Three Sinister Syllables, qualquer coisa como “aqui está a nova Cabala. Estudem-na bem!” Percebe-se perfeitamente. Pro Celebrity Golf e Jay Glaze (quer acreditem, quer não, estes são os nomes dos dois génios loucos responsáveis por Three Sinister Syllables na Chopped Herring Records) criaram uma obra prima de Cut n’ Paste que é, ao mesmo tempo, uma espécie de registo exaustivo dos tesouros do Templo do Crate Diggin’ Universal. Confusos? Não estarão após o próximo parágrafo (i hope…).
Actualizando para 2004 a nobre arte do Cut n’ Paste iniciada por gente como Grandmaster Flash no clássico “Adventures on The Wheels of Steel” e prosseguida por devotos discípulos como Double Dee & Steinski (na famosa série das Lessons 1, 2 & 3), Coldcut ou, mais recentemente, pela dupla Shadow & Chemist, Golf & Glaze (é melhor simplificar o esoterismo dos nomes…) criam uma delirante viagem por um mundo de breaks, spoken Word records, loops de discos do leste europeu e excertos de exercícios psicadélicos escavados em Israel e outros locais exóticos. Ao todo são 74 minutos de puro paraíso aural, com centenas de excertos colados com classe e pontaria de campeão olímpico.

O carácter único de Three Sinister Syllables acaba por assentar no facto de Golf & Glaze terem concebido o seu álbum algures a meio caminho entre a tradição Cut n’ Paste e a escola europeia de Diggin’.
Passo a explicar. Embora Golf & Glaze reclamem a herança do Cut n’ Paste logo na capa (o disco é apresentado com uma colagem, com o título a ser composto com letras recortadas ao melhor estilo punk de uma série de discos clássicos de Hip Hop, dos A Tribe Called Quest aos Public Enemy), nunca sacrificam o seu abstracto desejo narrativo ao tecnicismo que por vezes é levado um pouco longe demais neste tipo de discos. Aqui, a música deixa-se respirar, para que se desenrole o fio condutor que dá alma a este disco: uma espécie de sonho molhado de qualquer digger, com breaks atrás de breaks, alguns absolutamente virgens, outros vindos directamente do território fértil do Hip Hop mais alternativo – de MF Doom (toda a terceira faixa lhe é dedicada) a Paul Barman. E esse é o segundo carácter distintivo deste disco. Normalmente as mixtapes ou compilações de diggers limitam-se a alinhar tema raro atrás de tema raro (caso da série Dusty Fingers) ou então são exercícios com o seu quê de masturbatório que alinham originais de temas que causaram furor no meio Hip Hop (ouçam-se as compilações de Soulman, por exemplo). A dupla Golf & Glaze não cai em nenhum dos extremos e prefere equilibrar a apresentação de alguns excertos bem familiares com a exploração de terreno desconhecido, mostrando-nos no processo dezenas de pequenos samples ainda à espera do produtor certo para serem glorificados. Depois é deixar a música respirar sem esquecer os cortes certeiros e precisos, que garantem que haja um groove constante, apesar das contínuas mudanças de rumo. Não há ruído em Three Sinister Syllables. E falo de ruído no sentido de perturbação do conteúdo da mensagem. As colagens são fluidas, perfeitas, calculadas.

Arqueologia sonora, arte pop, Hip Hop, diggin’, coleccionismo, bravado… Está tudo em Three Sinister Syllables de Pro Celebrity Golf e Jay Glaze. Classificação? Obra prima, caso ainda não tenham percebido!

Texto originalmente publicado em 2004 no blog Hit Da Breakz

 

 


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[UNITED STATES OF AUDIO] How High’s The Water Mama
(Solid Steel, 2013)

United States of Audio é um DJ de Bristol que tem assinado algumas das mais incríveis mixes que o enorme Solid Steel, programa de rádio ligado ao universo Coldcut/DJ Food/Ninja Tune, tem passado ao longo dos anos. USA já assinou outros tribrutos – aos Public Enemy ou aos Tackhead de Mark Stewart, por exemplo -, mas esta viagem ao interior de um dos mais celebrados discos de hip hop de todos os tempos é particularmente especial. Trata-se de uma espécie de Pedra de Roseta que permite ler as múltiplas camadas de que se faz o clássico dos De La Soul. A mix, explica USA, demorou alguns anos a preparar e contém centenas de diferentes samples que são uma revelação das crates a que Prince Paul e o trio de Long Island teve acesso quando estava a criar esta absoluta obra-prima para a Tommy Boy. E tudo é feito com inexcedível bom gosto, com flow de primeira água, com uma atenção preciosa aos mais ínfimos detalhes. É um incrível mural para admirar com os nossos ouvidos, uma daquelas mixes com que se aprende sempre qualquer coisa de cada vez que se carrega no play.

 

 


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[DEN SORTE SKOLE] Lektion III
(Den Sorte Skole, 2013)

Ainda muito recentemente escrevemos por aqui acerca de Indians & Cowboys, outra obra incrível dos dinamarqueses Den Sorte Skole que também mereceria lugar nesta lista de pérolas cut n’ paste. Mas Lektion III é uma obra marcante que mostra a agora dupla Den Sorte Skole a assumir o coleccionismo como uma arte em si: nesta mix cruzam-se obras charneira de gente como Piero Umiliani, Egisto Macchi, African Head Charge, Popol Vuh e até dos portugueses Petrus Castrus. Simon Dokkedal e Martin Højland são viajantes, descobridores dos distantes continentes que o passado esconde, ávidos e curiosos exploradores de algumas das mais recônditas zonas da música. E depois, usam todo esse saber acumulado para construirem fulgurantes murais de som, com todos os excertos recolhidos nas centenas de discos que pesquisam a serem colados com total precisão. Na verdade, é de contsrução de uma nova obra que aqui – como depois em Indians & Cowboys – se trata: um belíssimo Frankenstein, corpo construído de muitas outras partes, mas onde não se percebem cicatrizes nem costuras, onde nada parece ser colado do avesso ou à força e onde tudo se encaixa com aparente naturalidade, como se todos estes sons tivessem sido feitos para serem ouvidos assim e não para sustentarem as suas obras originais.

 


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[SEBO SELLOUT & FLOW ONE] 7 Steps for Better Listening
(no label, 2014)

E para terminar, uma espantosa mix assinada pela dupla Sebo Sellout & Flow One, originalmente apresentada na secção de mixes do fórum Soul Strut.  Sabe-se muito pouco desta dupla, mas esta peça é um óbvio trabalho de profundo amor fundado na procura de breaks e servido pela ética erguida por DJ Shadow em trabalhos como Brainfreeze: “first pressings only”, Sebo Sellout faz questão de explicar. Ou seja, o próprio acto da procura do break como parte do processo mais geral de composição e descoberta e construção destas obras de corte & costura. Alfaiates, claro, mas daqueles que recorrem apenas aos mais nobres e raros tecidos. Esta mix é particularmente funky, tem um refinado sentido de humor e um bom gosto inexcedível na escolha dos samples que foram editados meticulosamente no CuBase. Ou seja, a mesma ideia de mistura das ferramentas do DJ e da edição clássica inventada pelos arquitectos da escola de música concreta, mas já com as possibilidades da idade digital. Esta é outra daquelas peças de corte & cola com que se aprende sempre qualquer coisa, onde se descobrem raros samples que nos permitem perceber que o hip hop é, afinal de contas, uma cultura sonicamente muito vasta e complexa.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu