8 coisas que aprendemos sobre untitled unmastered

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

A noite de 3 para 4 de março marcou o (in)esperado regresso de Kendrick Lamar aos discos, menos de um ano depois de ter lançado a sua maior obra-prima, To Pimp A Butterfly (TPAB), considerado o álbum do ano pela grande maioria da crítica internacional e que valeu ao seu autor, entre outras coisas, cinco prémios na última edição dos Grammys.

Todo este processo não fazia prever que o rapper de Compton lançasse música nova nos próximos tempos – embora houvesse rumores acerca de um possível trabalho com J. Cole. Subitamente, no início da semana do lançamento, um tweet improvável da estrela da NBA LeBron James a pedir que Kendrick lançasse os “untitleds” fez com que Anthony Tiffith, CEO da Top Dawg Entertainment, respondesse que ia ponderar. Um par de dias depois, anunciava que a label ia fazer uma edição na mesma semana. Chegou a noite de quinta para sexta-feira. De um momento para o outro, no Spotify de K-Dot havia um disco sem nome, com oito faixas anónimas e não masterizadas. “In raw form”, como Kendrick viria a descrever nas redes sociais. Porquê? Entramos aqui no universo de untitled unmastered:


[1 – As músicas têm origem no processo de produção de TPAB]

A grande maioria destas oito faixas anónimas eram demos e partes de temas pensados para entrarem em To Pimp A Butterfly. Foi no processo de construção do álbum lançado em 2015 que a maioria das faixas de untitled unmastered foram compostas e as letras escritas. São esboços, rascunhos que foram agora aperfeiçoados.

E é por isso que untitled unmastered não tem a coesão nem a conceptualização habitual dos discos de Kendrick – não é um álbum. Mas também não é uma mixtape. Terrace Martin, produtor, saxofonista e um dos colaboradores mais próximos de Kendrick, chama-lhe as “blueprints”, os “segredos”, em entrevista à Billboard. “Eram as plantas dos sítios para onde queríamos ir”, diz Terrace, em referência a TPAB, o destino final a que conseguiram chegar.

“Nós tínhamos seguido em frente. A questão é, depois de criarmos TPAB e de o disco sair, já não era nosso. Era de toda a gente. Passamos à próxima página – à procura de uma nova sonoridade e de fazermos melhor. Para nós, voltar atrás é uma coisa estranha. Mas apercebemo-nos, enquanto estávamos a fazer isto, que se calhar devíamos lançar estes temas. Eles não são throwaways, são fragmentos e ideias”.


[2 – Datas de gravação]

A música chegou anónima, mas com datas nos títulos, que indicam os dias das gravações ou as datas em que os temas foram compostos/escritos. Tirando a faixa “untitled 07”, todas têm dias específicos, que correspondem a um período entre os anos de 2013 e 2014, precisamente a época em que Kendrick e a sua equipa estavam a cozinhar To Pimp A Butterfly. A única excepção é a tal “untitled 07”, a faixa mais longa do disco e que, pelos vistos, foi feita entre 2014 e 2016. Já vamos perceber porquê.


[3 – Kendrick fez do lançamento disco uma surpresa até para os mais próximos]

Quando se está a trabalhar a este nível, conter as fugas de informação é vital. Mas, ao que parece, Kendrick Lamar não gosta de arriscar e o trabalho também chegou como uma surpresa a pessoas como Terrace Martin ou Thundercat. Anna Wise teve de manter o segredo, mas também só soube do projecto duas semanas antes do lançamento.

“Eu só soube muito recentemente… eles esconderam-no de toda a gente. De vez em quando, vou ao estúdio – e sinto que o Kendrick está sempre a trabalhar. Está sempre no processo de fazer alguma coisa. Ele mete as coisas cá fora consoante o que ele sente. Eu só me apercebi um dia antes que ele ia lançar estas músicas. Entrei no estúdio – eles tinham estado a gravar – e de repente havia esta conversa sobre a forma como lançar o projecto. ‘Oh shoot’, fiquei um bocado chocado”, disse Thundercat, baixista e produtor determinante na obra de Kendrick Lamar, em entrevista à Billboard.

“Eu ouvi alguma sobre isto na quinta de manhã. Ouvi dizer que iam lançar os ‘segredos’. Eu fiquei – ‘como assim?’ – e o Sounwave [produtor que trabalha com Kendrick] disse: ‘Estamos prestes a lançar os segredos, as plantas’. E eu perguntei quando. Ele respondeu-me – ‘provavelmente daqui a uns meses, não sei, é só uma ideia’. E depois acordei no dia seguinte com imensas mensagens a falar sobre isto. Eu fiquei: ‘Mas que raio aconteceu?’. Procurei online, e fiquei do género: ‘estes cabrões lançaram os segredos! Não! Deram as plantas aos outros gajos!’ Fora de brincadeiras, foi literalmente assim que eu descobri sobre untitled unmastered”, revelou Terrace Martin à mesma publicação norte-americana.


[4 – Os untitleds que já conhecíamos]

Como já dissemos aqui no Rimas e Batidas, os temas sem título que Kendrick apresentou ao vivo em programas televisivos norte-americanos estão todos em untitled unmastered.

A faixa poderosa que Kendrick interpretou no The Colbert Report, em Dezembro de 2014 – ainda antes da edição de TPAB – originalmente conhecida como “Untitled”, é agora “untitled 03”.

Fast-forward para 2016, depois do ano intenso marcado pelo lançamento de To Pimp A Butterfly. Kendrick Lamar começa o ano da melhor maneira, com uma actuação no The Tonight Show de Jimmy Fallon. A primeira parte deste tema pertence a “untitled 08”, no novo trabalho, enquanto podemos encontrar a segunda metade na nova faixa (quase homónima) “untitled 02”.

Tempo para o “Untitled 3”, uma breve parte do medley que Kendrick apresentou na cerimónia dos Grammys, em fevereiro. Uma versão destas rimas aparece em “untitled 05” em untitled unmastered.


[5 – Uma criança de cinco anos produziu um dos beats]

Falemos de jovens prodígio. Muitos rappers, DJs e produtores de hip-hop começaram a sua carreira cedo e alcançaram sucesso na adolescência ou na jovem idade adulta. Mas o filho de Swizz Beats e Alicia Keys – Egypt – tem apenas cinco anos e já fez um beat para Kendrick Lamar. Isso mesmo.

A segunda parte da faixa “untitled 07” foi produzida pelo pequeno Egypt. Esta é a razão para o tema ter sido concebido numa timeline tão dispersa em relação às restantes – entre 2014 e 2016. Um pai babado, Swizz Beats, mostrou no Instagram um vídeo do filho a criar o instrumental. E fez questão de dizer que Egypt não teve a sua ajuda. Cardo e Swizz Beats produziram outras partes dos vários beats que resultaram no tema mais longo de untitled unmastered.

“Young Egypt”, como Kendrick o menciona no tema, apareceu numa foto com o pai, K-Dot, Jay-Z e Usher numa suite na Super Bowl. E Swizz avisou mesmo que Egypt estava a vender beats para Kendrick – parece que afinal não estava a brincar.

“Vou-vos falar do melhor produtor de untitled. É o filho do Swizz Beats, o Egypt. Aquele rapaz… vai ser maior do que toda a gente. Vi no Instagram e pensei ‘isto é uma piada?’, mas depois vi o que a Alicia [Keys] escreveu sobre o seu bebé. Fez-me chorar, ler o que disseram e ouvir a sua música. É sobre isto que esta música é. Representar a família, a união, a juventude, o ‘próximo’, o ‘novo’, aquilo que é fresh. Este movimento baseia-se nisto. Mudança. Aquilo mudou o game”, disse Terrace Martin em entrevista à Complex.


[6 – Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad produziram um tema em conjunto]

A faixa “untitled 06” foi produzida em conjunto por Ali Shaheed Muhammad, dos A Tribe Called Quest, e pelo reconhecido produtor Adrian Younge. Inicialmente, o instrumental criado em Los Angeles teria como destino The Midnight Hour, o álbum que a dupla está a cozinhar para o futuro.

O seu amigo mútuo Cee Lo Green ouviu algumas faixas do disco e quis experimentar gravar uma demo para o álbum. O cantor acabou por fazer o tema a que chamou “Question Marks”. Sam Taylor, vice-presidente da Kobalt e ex-Atlantic Records, Sony e EMI, relacionado com todos os elementos, partilhou algumas das demos de The Midnight Hour com Kendrick, o que levou o rapper de Compton a terminar a sua própria de versão da demo de Cee Lo Green – com o consentimento de todos os envolvidos – e a introduzi-la em untitled unmastered.

“É do início do processo de gravação de To Pimp A Butterfly. Só me lembro de entrar no estúdio da No Excuses [em Santa Monica], onde fizemos o disco, e ver Ali, Kendrick e toda a gente a ouvir esta. Pensava que estavam a ouvir um disco antigo de bossa nova de Antônio Carlos Jobim, ou uma música de Stan Getz, mas depois ouvi uma voz a rappar. Era o Kendrick. Foi a música em que eu pensei da primeira vez ‘Wow, estamos a ir por dimensões diferentes”, revelou Terrace Martin à Complex.

Já foi também anunciado que “Question Marks” vai mesmo sair como versão completa no álbum de Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad.


[7 – O processo de gravação das faixas-chave e outras participações]

O disco começa com um tema com produção assinada por Hit-boy e DJ Spinz, de acordo com os créditos revelados na XXL Mag. “untitled 02” é da autoria de Yung Exclusive e de Cardo. Terrace Martin explicou todo o processo à Complex.

“Esta foi a primeira vez que trabalhei com ele. Foi em ‘Get Top on the Phone!’ [a segunda faixa]. Supostamente, eu ia para o estúdio às quatro da tarde. O Kendrick tinha-me ligado, a dizer ‘Yo, tenho esta faixa do Cardo, tens de vir’. Eu amo o Cardo, é o meu irmão, o meu amigo. Nunca tínhamos trabalhado juntos, mas costumávamos falar muito.

Quando cheguei lá, tudo o que ouvi foi ‘Get Top on the Phone!’. Aquele baixo emergiu e já estávamos a ultrapassar o limite musical. ‘Sabes o que é que temos de fazer? Temos de pôr piano’. Eu estava cansado, e adormeci no sofá por sete ou oito horas. Quando acordei, eram três da manhã, e tinham ido todos embora excepto o Cardo e o engenheiro [de som]. Ele tinha ficado acordado e estava à minha espera para eu fazer a minha parte. Acordei com uma vibe estranha, e de repente deu-me para isso. Toquei o piano.

[Mais tarde], o Kendrick e o Sounwave disseram ‘porque é que não vais buscar a tua corneta?’ Nisto? Havia conversas sobre ‘Alright’ na altura, e sobre mim tocar corneta por cima de uma coisa jazzy e com trap. ‘Ok, vamos fazer isto’. A parte experimental desse tema para mim foi aquele estilo jazz do saxofone a tocar com aqueles sons estranhos e desviantes de piano acima do trap para dar um ambiente mais dark e de horror”.

“A ‘untitled 04’ foi feita na mesma semana que ‘For Free?’. Não sei porque é que essa não chegou ao álbum original [TPAB]”, disse Terrace Martin à Complex. Com produções de Bizness Boi e Nard&B, o tema conta ainda com as rimas de Jay Rock e a voz de SZA.

“A faixa cinco é antiga. Era única porque estávamos todos juntos no estúdio, em vez de os vocalistas estarem na cabine. Tínhamos de estar todos muito calados e parados enquanto gravávamos cada uma das nossas partes. Nunca sei o que [Kendrick] quer ou o que vai acontecer. Apenas fico lá sossegada a aproveitar o facto de estar lá até que ele diz ‘Preciso que faças isto!’. Foi provavelmente uma das sessões mais íntimas que já tivemos”, diz Anna Wise em entrevista à Spin.

Terrace Martin toca saxofone, piano e também co-produziu o tema. “Estávamos a fazer tantas músicas, e o Robert Glasper também andava a participar em várias, que eu e ele pensámos que era ele [quem tocava piano] naquela música quando o projeto saiu. O Kendrick é que me relembrou ‘Não, és tu a tocar o piano. Estavas bêbedo nessa noite.’”, disse Terrace à Billboard. Punch e Jay Rock também participam no tema.

Logicamente, Thundercat é uma constante ao longo do disco. Os créditos oficiais ainda não foram avançados pela equipa de Kendrick.


 [8 – As letras de untitled unmastered incluem um diss para Jay Eletronica?]

Em untitled unmastered, como na restante obra de Kendrick e em geral no hip hop, os versos são tão ou mais importantes que a música em si. Kendrick é um músico e um artista incrível. Mas, acima de tudo, é um rapper. Um liricista que tem muito a dizer. As letras – na sequência de To Pimp a Butterfly – são políticas e com muita crítica social à mistura.

Além dessas, há um conjunto de rimas em particular que muita gente está a atribuir à continuação de disses entre Kendrick e o rapper Jay Eletronica. Recentemente, Jay falou de K-Dot no Periscope e depois atacou com barras em “#TBE The Curse of Mayweather”. A história não começou aqui. No famoso tema “Control”, de Big Sean, lançado em 2013, Kendrick roubou os holofotes e alegadamente desafiou Jay Eletronica, que também participa na faixa. Em untitled unmastered, muitos especulam que estes versos em “untitled 07” possam ser a nova resposta letal de Kendrick.

“You niggas fear me like y’all fear God
You sound frantic, I hear panic in your voice
Just know the mechanics of making your choice and writin’ your bars
Before you poke out your chest, loosen your bra
Before you step out of line and dance with the star
I can never end a career if it never start”

No entanto, Terrace Martin já veio desmentir que as letras são de diss para ninguém, na entrevista à Complex. “Não, não. Estes temas foram feitos há dois ou três anos. Não estamos a pensar nestes gajos no estúdio. Miúdos estão a ser mortos. Trump pode ser presidente. Pensas que temos tempo para pensarmos noutros rappers? Não! Nós temos famílias. Temos amigos à nossa volta que estão a morrer, assassinados por pessoas que se parecem exatamente como nós (…) não estamos no estúdio a pensar sobre nada do que estes tipos dizem”.

Expressões catchy como “Get Top on the Phone” ou “Pimp-pimp hooray” também já começam a deixar a sua marca nas redes sociais.


untitled unmastered já se encontra à venda em edição física, CD ou vinil, por encomenda através do site oficial de Kendrick Lamar. Todas as cópias vêm autografadas pelo próprio K-Dot. O disco também vai chegar às lojas portuguesas, através da Universal Music Portugal, mas ainda não há data prevista. Entretanto, o disco estreou-se no cobiçado primeiro lugar do Top 200 da Billboard, tornando-se assim no segundo álbum de Kendrick Lamar a alcançar o topo das tabelas de vendas na sua semana de lançamento, feito assinalável e que clarifica a importância de K-Dot no panorama presente do rap mundial.

Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha