7 Dias, 7 Vídeos

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

 

Georgia Anne Muldrow e BJ The Chicago Kid têm feito parte destes meus últimos dias – estão em constante repeat. Por um lado, uma figura já conceituada da produção de hip hop, por outro uma voz ainda a dar os primeiros passos como MC/cantor de R&B. Gerações diferentes, a dar cartas em campos diferentes, unidos por esta grande família de ritmos, sons e palavras que é o mundo do hip hop.

Em 7 Dias, 7 Vídeos, há uma vasta pesquisa pelo mais e o menos óbvio, coleccionando o melhor fruto de cada árvore para dar a conhecer aos nossos leitores. É um resumo semanal onde o conteúdo nem sempre é mediático mas é de elevado interesse.

 


 

[METHOD MAN FEAT. RAEKWON & INSPECTAH DECK] “The Purple Tape”
(The Meth Lab, Tommy Entertainment)

Tema que serve de tributo ao clássico álbum de estreia de Raekwon, Only Built 4 Cuban Linx, que ficou mais conhecido como  The Purple Tape e que foi reeditado recentemente como noticiámos aqui. O single teve anteriormente uma versão de lyric video que já havia sido escolha semanal aqui neste canto.

The Meth Lab foi a importante reafirmação na carreira de Method Man, que conseguiu recuperar aqui o espirito de outros tempos, numa altura em que as lufadas de ar fresco vindas da nova escola nos vão roubando todas as atenções.

 


 

[GEORGIA ANNE MULDROW] “QUEEN KNOCKINGSTEIN”
(oLIGARCHY sUCKS, SomeOthaShip Connect)

“QUEEN KNOCKINGSTEIN” é o tema de abertura para oLIGARCHY sUCKS, álbum que a produtora, cantora e multi-instrumentalista editou o ano passado pela sua SomeOthaShip Connect. Georgia Anne Muldrow é uma marca da herança da arte do chopping que nos deixou o mestre Dilla. Cortes refinados mergulhados num groove neo-funk psicadélico perfeitamente modulado para encaixar nos nossos ouvidos.

Além das edições pela sua label, soma também um vasto número de outros lançamentos desde 2006. Na lista de editoras tem já carimbos das importantes Stones Throw e Mello Music Group. Esta última foi a que viu mais vezes o nome de Georgia Anne Muldrow no seu catálogo, que este ano lançou o seu A Thoughtiverse Unmarred.

 


 

[M.I.A.] “Borders”
(Borders (single), Interscope Records)

A londrina M.I.A. volta a demonstrar que é uma cidadã do mundo e cria um single de calibre militar marcado por tarolas que nos fazem querer marchar ao seu ritmo. A sua pop explora caminhos muito exóticos e facilmente detectamos que o hip hop faz parte da sua escola. O videoclipe é exclusivo da Apple Music, marca dessa grande guerra entre as plataformas de streaming que cada vez mais apostam no conteúdo próprio como forma de ganhar mais mercado. Outra “guerra”, mais importante, é a dos refugiados – sejam eles de onde for – que procuram a paz que não encontram na sua terra natal, causa aqui apoiada e até encenada por M.I.A. ao longo do vídeo.

Borders” foi lançado em formato single de áudio digital mais videoclipe e foi confirmado que fará parte, também, do alinhamento do próximo álbum da cantora, Matahdatah.

 


 

[UHLIFE] “no ebola (Prod. NiceGuyxVinny)”
(no ebola (single), Self-Released)

uhlife chamou a minha atenção a meio deste Verão quando colocou o áudio de “no ebola” disponível no SoundCloud. A sua batida downtempo, a linha de baixo e voz sombria. Um passeio pela rua de madrugada com os olhos vendados, a ouvir este som vindo dum qualquer ritual de voodoo urbano. É a imagem que me vem à cabeça.

Ansiava de certa forma por mais novidades, sendo que este single me cativou logo na altura. Ainda não foi bem desta, apesar de o EP já ter sido anunciado e do qual este tema fará parte. lofeye não tem data de saída prevista.

 


 

[J*DAVEY] “Outburst”

“Outburst” não é bem um videoclipe: é um visualizer, como lhe chamam aqui no título do YouTube. Basicamente uma combinação de efeitos psicadélicos que nos permitem acompanhar a música e embarcar ao mesmo tempo numa viagem pelo imaginário a que facilmente acedemos ao ver imagens deste género. Rap introspectivo num beat de camadas glitchy, ornamentado de vários pormenores no processamento de efeitos, migrados da música electrónica. Nota de curiosidade para a participação de Thundercat nas vozes secundárias.

O tema fará parte do próximo EP #LiteWaitLife.

 


 

[BJ THE CHICAGO KID FEAT. JOEY BADA$$] “Nothin’ But Love”

Conheci o trabalho do BJ The Chicago Kid há exactamente um ano, aquando o lançamento do videoclipe de “It’s True“, que conta com a participação de Schoolboy Q. Curiosamente, um caso semelhante a este, sendo que BJ entrou com refrões em ambos os álbuns dos MCs (Schoolboy e Joey) e mais tarde vê-se “recompensado” com participações para faixas em nome próprio.

Apesar de o ter ouvido no álbum do rapper da Top Dawg Entertainment, foi com esta faixa mais tardia que me ficou na cabeça a ideia de que este “gajo rima pra cara***”. Numa breve pesquisa, rapidamente fui para à sua promissora mixtape, deixando-me levar pelo delicioso medley de “One In a Million”, “R&B Thug” e “Feenin'”, numa ode ao R&B com contornos modernos e uma sonoridade fresh e completamente actual e contextualizada com a progressão do estilo. Aí fiquei na dúvida se o preferia ouvir a rimar ou a cantar. Seja de que forma for, a versatilidade está demonstrada e, aqui, surge num misto dos dois, colocando-se ombro-a-ombro com outras figuras do género como R. Kelly, por exemplo.

Esta vai para o álbum de estreia, In My Mind, agendado para o próximo ano.

 


 

[WIKI FEAT. NASTY NIGEL] “Livin’ With My Moms (Prod. Black Noi$e)”

O aguardado álbum a solo de Wiki, Lil Me, promete reacender uma luz no underground britânico dado que o MC de Nova Iorque há muito que pisca o olho aos suspeitos do costume do outro lado do Atlântico (Dirty Dike, Lee Scott, Skepta e companhia). Nem sempre consigo gostar do material de Ratking, mas desde que Wiki entrou no álbum do Earl Sweatshirt, e chegou mesmo a acompanhá-lo na tour do álbum, o rapper mostrou-me um lado quando fora do colectivo habitual. É, para mim, um talento em bruto e faz-lhe falta ter um álbum que o afirme, apesar de todo o mérito já alcançado com ao lado de Hak e Sporting Life.

É já dia 7 que o trabalho final chega até nós pela Letter Racer. Na produção vamos ouvir o habitual Sporting Life, com o qual fizemos uma entrevista aqui, e ainda nomes como Madlib, Kaytranada e Black Noi$se, que assina neste tema.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira