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ZZY

Disorder

Edição Independente / 2020

Texto de Vasco Completo

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Descrever o mundo complexo da música desordeira de ZZY não é fácil. É, sim, fácil sentir e dizer que a sua música não é para se consumir desatento, como mera comodidade numa playlist. O artista faz convergir constantemente várias nuances e influências diferentes do que ouve – embora sem nunca sair da electrónica pura e dura, principalmente neste registo. Se tivermos de descrever o seu universo sonoro, Jon Hopkins, Moby, Trent Reznor, Burial e Qebrus são paragens possíveis, mas não obrigatórias.

Plastic Jazz mostrou, curiosamente, um universo particular de José Veiga. Apesar de conter alguns rasgos electrónicos e glitches que tornam evidente quem criou a música, para quem conhece a sua estética, é um trabalho característico e dotado dum espaço fechado na dimensão sónica de ZZY, olhando uma instrumentação mais acústica, com o piano e o jazz no centro do imaginário do músico. Enquanto Plastic Jazz se dimensiona e se concebe de maneira mais contida, Disorder é bastante aglutinador e expansivo – concretamente, pegando em influências de IDM, drum and bass, breakbeat e future bass.

Esta expansão sonora, na qual os graves sobressaem entre sintetizadores e batidas – que seguram a ergonomia desta nave –, demonstra, apesar de tudo, uma viagem mais solitária e introspectiva que outros trabalhos de José. O que vive dentro do som do produtor talvez se assemelhe a uma distopia do final deste século – da mesma maneira que as bandas sonoras de Blade Runner ou Matrix habitam os anos 80 e 90, respectivamente. Isto porque muita da música de ZZY soa como uma BSO, não só pelo que a caracteriza timbricamente, como pelo lado narrativo e semiótico do que é inefável.

A inexistência do piano neste trabalho pode, tal como no Teste de Rorschach – evidenciado na capa –, espelhar uma fome do produtor por timbres que se adequam a um novo presente, timbres esses que são novos, sem precedentes. Conjugar diferentes mundos sonoros dentro dum mesmo espectro estilístico, que é sintético, mas físico; metálico, mas humano; ríspido, mas harmónico; pode ser a forma de ZZY nos mostrar que a vida não é a preto e branco. A multitude de emoções possíveis ao ser humano não funciona por um código binário e a subjectividade e transversalidade que habita na escuta duma viagem pessoal como Disorder demonstra isso mesmo. Como nos conta a catarse que encerra o álbum, a arte também tem efeito curativo. Mas disso já sabíamos, não é?


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