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YAKUZA

AILERON

Edição Independente / 2020

Texto de Rui Miguel Abreu

Publicado a: 12/11/2020

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O rótulo “novo jazz” não faz sentido, de facto, porque o jazz que hoje conhecemos é o resultado de um longo, complexo e histórico processo de evolução e crescimento. Falar em “novo jazz” seria, por isso mesmo, absurdo, até porque seria complicado identificar, do lado oposto, o “velho jazz”: seria o jazz mais free, o mais modal, o de fusão ou o espiritual, o hard ou be bop, o das big bands e do swing, o de Nova Orleães ou o ragtime aquele que mereceria, então, o epíteto “velho”? Mais apropriada talvez seja a ideia que Simon Reynolds aperfeiçoou do “hardcore continuum” e que propõe um olhar para a história da música de dança no Reino Unido, a que se estende desde a explosão das raves na segunda metade dos anos 80 até ao presente, como um processo de permanente evolução, transformação e adaptação, com o choque do futuro como factor constante. Falar, assim sendo, de um “swing continuum” será eventualmente mais apropriado até porque, na verdade, é no plano rítmico que muitas das transformações se têm operado, já que as “leis da física harmónica”, por exemplo, têm-se mantido imutáveis, sendo seguidas com mais ou menos rigidez ou ignoradas com mais ou menos liberdade, mas sempre consideradas.

E é interessante pensar como uma primeira geração de produtores hip hop que teve acesso a samplers pode ter sido educada, a partir das salas de estar dos pais, mas também de uma intensa dieta radiofónica absorvida nos anos 70 e 80 do século passado, a escutar alguma declinação do jazz no contexto desse “swing continuum” – Miles ou os Weather Report, Herbie e Chick Corea, o lado mais radiofónico do jazz de fusão, o seu namoro com a pop através dos êxitos das tabelas de vendas de nomes como os Steely Dan, etc – transportando isso depois para a sua abordagem sampladélica que nos deu boa parte da chamada “era dourada” nos alvores dos anos 90 em que se destacaram nomes como os A Tribe Called Quest, De La Soul, Gang Starr ou Digable Planets, todos capazes de integrarem alguns elementos do jazz na sua arquitectura sonora. Da mesma forma, a geração de músicos de jazz que começou a frequentar escolas e academias nessa mesma década de 90 foi educada, igualmente nas salas de estar familiares e nas estações de rádio do seu tempo, a acomodar o balanço hip hop como parte da sua mais funda identidade cultural. O jazz que moldou o hip hop seria depois ele mesmo “afectado” pelo mais ubíquo género urbano de sempre. E, hélas, eis os Robert Glaspers, Kasa Overalls, Terrace Martins, Makaya McCravens e Kamasi Washingtons, os Shabaka Hutchings e Kamaal Williams (o tal do Bieber Jazz…) desta geração. A história é a mesma: trata-se apenas de percebermos em que capítulo nos encontramos em cada momento. E também, já agora, não assumir desde logo que o melhor da história já foi relatado nos capítulos iniciais deste livro interminável…

E eis que chegamos aos YAKUZA e a AILERON, projecto acabado de auto-editar, agora mesmo, há apenas cinco minutos. É música que nasce não de uma prática comunitária – André Santos (baixo), Afonso Serro (teclas) e Alexandre Moniz (bateria) não são o resultado de uma vivência intensa num ecossistema de pequenos clubes –, mas antes de uma abordagem intelectual a um género, de uma ideia, de uma intenção, de uma dieta rica em audições. Na primeira entrevista que deram ao Rimas e Batidas, os membros de YAKUZA falaram de referências tão variadas quanto Harvey Sutherland, Robert Glasper, Kamaal Williams, Flying Lotus, Ezra Collective, Thundercat, Alfa Mist, Yussef Dayes ou ainda Aphex Twin, Squarepusher, Tigran, Evan Marien ou Hermeto Pascoal. Habituem-se: há uma nova geração cuja biblioteca é o Spotify, cujo clube é o YouTube. O que essa geração tem para nos dizer é importante e, quer se aceite ou não, quer se compreenda ou não, está a escrever o próximo capítulo desse “swing continuum”.



AILERON é um trabalho de elevada qualidade antes de mais porque aceita que a viagem que se faz com o ímpeto da descoberta como principal combustível é importante por si mesma, independentemente do destino a que possa conduzir. O que em primeiro lugar resulta claro da audição deste álbum com sete temas que se estendem por cerca de 45 minutos é o absoluto deleite que estes músicos sentem em tocar juntos. São igualmente sólidos executantes, todos os três, com consideráveis capacidades técnicas e expressivas, mas nunca parecem interessados em evidenciar algum tipo de virtuosismo discursivo, antes em expressar uma vontade colectiva de submissão ao groove, à tal ideia particular de swing que os anima e que é tanto herdada do jazz clássico como de todas as diferentes batidas que escutaram em todas as noites em que se acercaram de uma pista de dança.

O disco vive, portanto, de uma sólida fundação rítmica, erguida por uma bateria que não se incomoda com a repetição, mas que é igualmente capaz de subtis floreados, com um baixo ondulante que percebe que tem um importante papel a desempenhar no espectro mais grave das frequências, apresentando-se sempre irrequieto, fluído e até capaz de complementar harmonicamente o discurso do principal instrumento solista, a cargo de Afonso Serro. E o teclista é um fantasista com recursos consideráveis: em primeiro lugar entende muito bem que tipo de “cores” usar, recorrendo a uma ampla paleta que extrai dos seus sintetizadores e demais teclados, soando como Herbie no seu período mais cósmico, psicadélico e ainda assim funky como Bernie Worrell, percebendo-se claramente que estudou os mestres contemporâneos, como Kamaal Williams ou Robert Glasper (e que deixa claro, em “Picheleira”, por exemplo, que é também capaz de se expressar com plena energia num piano acústico). Juntos, estes três conseguem assim a proeza de nos apresentarem um som que, muito claramente, parece conter dentro muito mais do que a simples soma das partes poderia indicar (e, na verdade, uma ficha técnica detalhada seria útil para um melhor entendimento do que se escuta: há por aqui sopros e guitarras que seria interessante perceber de onde chegam, por exemplo). Seja como for, o seu groove é amplo, cinemático, capaz de fazer ondular cabeças, corpos e mentes que não temam fechar os olhos para verem os filmes que nos propõem: de cidades modernas que se cruzam dentro de carros rápidos, de néons que contrastam com os tons nocturnos, de aventuras que nos carreguem direitinhos até ao futuro, de pistas de dança em penthouses rodeadas de vidro que permitem ver a agitação urbana lá do alto, de piscinas infinitas e de auto-estradas que nos conduzem até à liberdade, com a propulsão certa e a velocidade de cruzeiro que ainda assim nos deixa ver tudo.

Não, este jazz não é “novo”. Mas é de agora, sem dúvida.


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