XXXTentacion: um talento perdido num oceano de problemas

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

20 anos, dois álbuns, um passado turbulento e uma série de acusações gravíssimas que deixam qualquer um nauseado. O resumo da curta carreira de XXXTentacion, artista norte-americano que foi morto a tiro na noite passada, é feito de momentos de algum folgo artístico e uma propensão inquietante para todo o tipo de problemas.

Antes de explodir para o grande público com “Look At Me!“, faixa editada no final de 2015, Janseh Dwayne Onfroy viveu uma história turbulenta, conturbada e bastante violenta: aos 6 anos tentou esfaquear um homem que se meteu com a sua mãe; mais tarde foi expulso do ensino básico por andar à luta. O centro de detenção juvenil foi a etapa seguinte. Num dos excertos mais repulsivos da entrevista no podcast No Jumper, XXXTentacion conta, sem remorsos, como espancou um colega de cela que era, segundo o próprio, homossexual.

A amizade com Ski Mask The Slump God, rapper que conheceu no centro de detenção juvenil, foi o impulso para uma carreira profissional no mundo da música. Members Only Vol.1! marcou o início do percurso colaborativo que iria desaguar na cena agitada de SoundCloud rap que teve o epicentro na Flórida. Denzel Curry, Ronny J ou Smokepurpp foram alguns dos nomes que fizeram parte do seu círculo inicial de colaboradores, ajudando-o a criar um som abrasivo e nocivo que iria influenciar alguns dos maiores nomes do rap norte-americano e uma nova geração de artistas que encontrava consolo na agressividade das letras e dos instrumentais.

 



Apesar da enorme base de fãs que rapidamente conquistou, a aprovação dos seus pares surgiu aquando do lançamento de 17, o seu álbum de estreia. Kendrick Lamar, por exemplo, deu o co-sign ao projecto que esteve na segunda posição da Billboard 200 em Setembro de 2017. Na altura do lançamento, a Pitchfork divulgou excertos de um revelador testemunho da ex-namorada do artista e, ao contrário do que seria de esperar perante a natureza das acusações, a sua carreira continuou a prosperar.

A mudança de editora (trocou a EMPIRE pela Capitol Records) e de estatuto levou-o até outros músicos como Diplo, Juicy J, Kodak Black ou Joey Bada$$. O último estreitou relações através de um freestyle partilhado no beat de King’s Dead, faixa original de Jay Rock, e a participação em “infinity (888))”, canção de ?, o segundo longa-duração de XXXTentacion que se estreou no primeiro lugar nas tabelas de discos mais vendidos da Billboard.

Fã confesso de Kurt Cobain (nem por acaso, Diogo Santos, colaborador do Rimas e Batidas, escreveu na crítica a 17 que este seria o disco a solo que o guitarrista e vocalista dos Nirvana faria se 1986 fosse 2017), a música de Janseh Onfroy era um espelho das suas inseguranças e mudanças radicais de humor, passando pelo trap, emo, grunge e r&b, géneros musicais que serviam de “embrulho” para as letras depressivas que, em raras excepções, também apresentavam alguma esperança no discurso.

Com apenas 20 anos, XXXTentacion deixou-nos um legado problemático que, para já, é abraçado (e impulsionado) por nomes como Kanye West ou J. Cole, que, aparentemente, preferem ignorar todas as acusações que lhe foram feitas nos últimos dois anos. No fim, a sua morte serve, mais uma vez, para alimentar as velhas (mas sempre actuais) discussões sobre as separações entre a pessoa e a sua arte.