xtinto: a crónica de uma vida anunciada

[TEXTO] Beatriz Negreiros [FOTO] Steven Ferreira

2019 foi um ano que Francisco Santos, ou xtinto, como se apresenta por detrás do microfone, certamente recordará. Após uma estreia promissora, há quatro anos, com a mixtape Odisseia (partilhada com DEZ, e editada pela Andromeda Records), vincou ainda mais a sua pegada nas areias da praia do hip hop em Portugal e imprimiu o seu nome na memória dos mais atentos graças ao lançamento de dois EPs quase em simultâneo – Ventre e Inacabado – com o selo daquela que é provavelmente a editora actual mais valiosa do género tal como o conhecemos hoje: a Think Music

Inacabado veio primeiro, testemunho do auxílio prestado ao MC por benji price, produtor e rapper que recebeu de braços abertos um xtinto que aterrava em Lisboa com sede de gravar. A segurança com a qual a voz corpulenta de Francisco Santos assalta o primeiro verso de “sinope” deixa-nos sem dúvidas de que esta foi saciada. Uma espécie de bicho raro entre os seus contemporâneos, inclusive aqueles que jogam também pela Think Music, xtinto revela-se de imediato uma faca de dois ou mais gumes: a sua língua afiada permite-lhe navegar pelos mares aparentemente afastados daqueles que conseguem convocar perigo e humor no mesmo fôlego (uma referência a Onda Choc numa faixa lançada na última quadra de 2019? Agora sim, acreditamos em tudo). Nem o auto-tune meloso de um benji price, que nos fala de uma promessa já há muito concretizada — a de singrar, custe o que custar –, chega para suavizar a brutalidade da tinta derramada pela caneta do rapper. 

Ventre veio depois, mas a primeira faixa, “Opus Magnum”, já era escutada por fãs no ano passado, tendo sido publicada no canal de YouTube de xtinto em 2018. A “demo”, como se apresenta, soa já a produto completo, com a voz torcida do seu autor a apresentar-nos a mais um dos trava-línguas que já sabemos que só ele sabe cuspir: há que experimentar cantar a seu lado frases como “preso à prece, apressa peça a peçapara compreender a dificuldade do trocadilho. O instrumental, mergulhado num melodrama que nos lembra o pano de fundo de um dos contos de Sam The Kid — assim como a letra confessional — leva-nos ao passado: mas o refrão metálico cantado logo nos lembra que estamos decididamente no presente.



Inacabado, o EP que o rapper de Ourém descreveu em entrevista com o Rimas e Batidas como “um projecto de faixas que estavam a um pé de se tornarem obsoletas”, prossegue com “caixa”, na qual sórdida letra ondula por entre os espaços entre as notas sombrias de um teclado que parece anunciar um prenúncio mais negro. Chega-nos “interlúdio”, e o acariciar das teclas encostado a um baixo melancólico sublinha a dor de um coração partido afogado em vinho e bagaço — personagens principais nos seus tristes enredos; momentos como “Desculpa?/ Tás a revirar os olhos tipo achas relevante?/ Se eu já vi os olhos brancos em sangue do meu sangue/ E os meus dedos a escorrê-lo a sentir em vão a chance/ De anular dentes cerrados ver assim no chão em transe /Quem me teve nove meses” deixam-nos num lúgubre desconforto, mesmo sem saber a missa à metade. 

De regresso a Ventre. A pequena colecção de negros contos que o rapper já vinha a desembrulhar aos poucos e poucos, desde a sua chegada à capital e ao seu envolvimento com a Think Music, segue adiante ao sabor dos baixos ensurdecedores de “Jurássico Barco” — cortesia da produção afiada de LVIN. “Quentin Miller”, o tema seguinte, é uma lista telefónica de name-dropping necessária para situar o público apresentado a xtinto pela primeira vez: a referência a “Potential”, tema gravado pelo dito cujo (metade do duo WDNG Crshrs, de Atlanta), não é propriamente subtil, nem deve ser, num tema no qual o português se compara também a gigantes comerciais como Kendrick Lamar, numa tentativa bem-sucedida de demonstrar a quem o ouve do que é feita a sua constituição. 

Em “verbana”, penúltima faixa de Inacabado, o flow ritmado, temperado com o ligeiro auto-tune do refrão, logo dá lugar a uma tempestade organizada de ameaça e ganância em igual medida. Talvez mais memorável seja o fechar do capítulo de um livro por acabar, “ébano” — tema acompanhado pelos visuais impetuosos na realização de Billy Verdasca, que ilustram na perfeição os ataques ferozes lançados na lírica perfeita de xtinto. Já Ventre dá por terminado o período de gestação com a melódica “Sangue Novo” — a lembrar um Pedro Mafama que ainda não existe no seu melódico refrão — e a poesia suave de “Pentagrama”, momento para reflexão antes de lançar o barco ao mar. 

Mesmo antes de dar por encerrado 2019, xtinto leva Inacabado à Figueira da Foz no dia 20 de Dezembro, para o ver nascer no palco, terminando aquele que classifica ter sido o seu “melhor ano enquanto rapper”. 2020 será ainda melhor, de acordo com o próprio. A promessa leva consigo a garantia de uma língua ainda mais afiada. Se assim for, com certeza. Acreditamos.  


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