X-Tense: “Música que carrega opinião parece ser um problema em 2018″


[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS E CAPTAÇÃO DE VÍDEO] Manuel Abelho [EDIÇÃO DE VÍDEO] Luís Almeida

Apesar de existir a possibilidade do seu passado passar despercebido a toda uma nova geração que só agora deu de caras com a sua música, X-Tense é um verdadeiro veterano em cena. De mente brilhante do rap independente — quando, ainda em adolescente, surgiu ao lado de Swipe nos Deck-Arte — a artista que destila musicalidade por todos os seus poros, o percurso de Nuno Barreiros fica marcado por altos e baixos, “despedidas” momentâneas e aquela saudade de voltar a pegar num microfone como se de um bastão de Rei — que já não caminha nu — se tratasse.

Em 2015, quando X-Tense assinou a sua primeira mixtape a solo, os números do público de hip hop em Portugal estavam em claro crescimento. Para agarrar a sua quota parte do mercado, era necessário que o rapper e produtor se reinventasse, edificasse uma estrutura sólida que o apoiasse na retaguarda e, claro, se pusesse à prova naquele que é o maior desafio de um artista musical nos dias que correm: dar à luz um álbum de estreia memorável, o mais importante dos cartões de visita numa indústria cada vez mais selectiva, dada a quantidade de flores vistosas que desabrocham no seu quintal.

Editado há um mês, Rosa Dragão marca um ponto de viragem na carreira de X-Tense, que gerou fortes reacções nas redes sociais graças à generosa quantidade de singles e videoclipes que editou nos últimos dois anos. Na posição de maestro, é ele quem orquestra a equipa da rood, uma editora independente que ainda tem muitos frutos para dar.

“O meu álbum foi 90% produzido por mim”, explica ao Rimas e Batidas. Trap, future beats e bass music surgem aí como suporte instrumental do arsenal verbal que X-Tense transporta na língua, ele que em Rosa Dragão arrisca até mesmo em poemas cantados, como se o seu percurso tivesse andado sempre de mãos dadas com as baladas de r&b ou neo-soul.

 



A meio do último Verão, deu entrada no Rimas e Batidas uma entrevista do Rui Miguel Abreu com o RealPunch em que, a certa altura, se falou sobre os Tribruto terem sido pioneiros do rap humorístico. Lembrei-me logo dos Deck-Arte, que apareceram ainda antes disso. Pioneiros dos pioneiros?

Deck-Arte foi o primeiro projecto que eu tive a nível de rap, quando tinha 15 ou 16 anos, apesar de as coisas só terem começado a sair cá para fora quando eu estava nos 18. Tanto pela personalidade da pessoa com quem eu estava, que também era um palerma, como eu, a coisa alinhou-se muito por esse tipo de rap satírico. Havia muito humor ali à mistura, mas sempre na onda da sátira. Percebo a ligação com os Tribruto. Foi um projecto que acabou por durar pouco tempo. Éramos pessoas um bocado divergentes, tirando essa parte. Se calhar alinhávamos na parte artística, mas a divergência que hoje faço com a minha música, que não era englobada por esse colectivo, se calhar fez com que durasse pouco tempo.

O teu papel nos Deck-Arte era de MC e produtor, certo?

Sim.

Ainda mantens esse lado da produção activo nos dias de hoje?

Sim. O meu álbum foi 90% produzido por mim.

Então, quando os instrumentais vêm assinados por “rood”, és tu quem assumes a produção?

Não necessariamente. Nós somos mais do que um produtor e, entretanto, até já se juntaram mais. Inicialmente era eu e o Hype Mike. Havia beats dele, beats meus e beats em que trabalhávamos em conjunto. Por uma questão de querermos dar nome à marca, mais do que estarmos a fazer a contabilização de quem produziu “este” ou “aquele”, assinamos sempre “rood” nos beats. Mas quando está “rood” num beat é possível que seja inteiramente meu. Como o álbum é meu… Há lá um do Cálculo, um do Unvox, um do SP Deville, um do Hype Mike… Mas para ti é tudo rood, estás a ver?

Ou seja, assumiste também o papel de produtor executivo?

Sim, é isso.

Dás sempre uns adds nos instrumentais, mesmo naqueles que te são cedidos por outros artistas?

Com os produtores exteriores não. No caso dos produtores da rood, para o meu álbum, sim. Imagino que, se estivermos a trabalhar para um projecto do Hype Mike ou de outra pessoa que esteja a trabalhar connosco — temos alguns projectos que vão sair pela rood este ano — pode acontecer ao contrário. Começo eu um beat e ele acaba-o. No meu álbum há aquela coisa, eu sei para onde quero seguir com a música, é sempre tendencioso que eu acabe ou dê o toque final.

Tu lançaste a mixtape O Rei Vai Nu, desapareceste do radar e, de repente, surges com singles sucessivos associados a uma nova produtora/editora. Como é que a rood surge na tua vida?

É engraçado, porque a mesma velocidade — não há de ser exactamente a mesma — com que isso sai cá para fora é a mesma velocidade a que isso acontece na minha vida. Na altura da mixtape O Rei Vai Nu, eu estava com uma orientação diferente. Tinha muita fome de escrita — tive muito tempo parado — e havia essa energia presente. Lembro-me de até ter comentado com algumas pessoas que, sendo eu produtor, nunca se justificou que eu tivesse trabalhado com beats estrangeiros, etc. A questão é que a minha orientação, na altura, não estava exactamente direccionada para fazer um projecto com pés e cabeça. Surgiu tudo daquela fome de escrever e eu fui englobando num projecto. Até acho que há uma diferença evolutiva, porque nota-se que estive seis anos parado e o aquecer da caneta, ao longo do primeiro ano ou ano e meio, fez com que houvesse alguma diferença entre as faixas. Quando cheguei ao fim desse projecto, aí sim, comecei [a pensar] “epá, curtia voltar a fazer música”. Já conhecia o Hype Mike, começaram a surgir ideias e falámos de trabalhar juntos. Daí em diante [a coisa] foi sendo puxada. A nossa primeira ideia até era trabalhar num projecto dele, do qual fazia parte “A Fórmula”, um projecto de cinco faixas, puramente hip hop de club. Esse projecto acabou por não sair, ou transformou-se no Hype Myke x X-Tense mais tarde. Foi daí que surgiu.

Acabas de falar em “orientação”. Da última vez que conversámos, destacaste também um “shift” bastante importante na tua personalidade. O que é que aconteceu ao certo para que assumisses definitivamente o papel de artista? Até porque hoje se calhar já nem gravas num quarto, tens uma equipa ao teu lado que se estende do áudio à imagem. Passou a ser um trabalho “a sério.”

As necessidades hoje em dia são completamente diferentes. Mesmo no processo de criação de música, eu acho que, antigamente, não havia a preocupação com coisas que hoje são essenciais, como é o caso do mix e o master. A engenharia de som, hoje, tem uma presença muito significativa na indústria. Cá [em Portugal]. Porque sempre foi uma coisa importante nos States. Tem muito significado. Tu podes tocar duas faixas lado a lado e, se elas não estiverem bem trabalhadas em termos de engenharia, tu vais notar a diferença. Logo aí tu começas a notar que, no processo de criar música, já te faltam algumas peças extra. E quando levas isto para o que é trabalhar vídeo, trabalhar promoção, em 2018, claramente que eu precisava de me rodear de pessoas. A dificuldade aqui, que acho que é igual para toda a gente, é encontrares aquela equipa que te é natural, que é uma extensão de ti. Por acaso, isso acabou por acontecer, mas levou algum tempo. Acaba por culminar no meu álbum, o sentir que a equipa está completa, por assim dizer.

Quem são as pessoas que te acompanham?

Falando primeiro da equipa, nós associamos-nos com outra equipa que havia, que está associada aos Double Trouble, que é a The No Type Records. Basicamente, nós associamos-nos com eles e essa foi a mais recente extensão da equipa. Neste caso, são o Dogma, o Wave — um dos produtores que está agora a trabalhar connosco e que, por certo, vai fazer ondas este ano. Estamos a trabalhar associados com os Double Trouble e ainda está em discussão se os Double Trouble vão sair pela rood este ano ou não. O I.VAN está na mesma situação. Temos várias pessoas pessoas com quem trabalhamos de qualquer forma, e acho que as pessoas já perceberam a nossa associação aos Double Trouble. Agora como é que isto funciona em termos da rood, da label? São passos que só os próximos meses vão poder garantir. Mas somos capazes de estar com uma equipa de dez pessoas neste momento.

Vamos agora mais a fundo no teu disco. Dessa vez que falámos, não quiseste abrir muito o jogo face ao que contas no Rosa Dragão, embora o enredo me pareça bastante claro. Tu tens aquelas gravações que parecem de uma espécie de terapia.

É de uma leitura da aura. É real.

 



Pelo decorrer do disco fica a sensação que te vês como um dragão, embora disposto a deixar que a rosa te consuma. Isto será uma metáfora para um acto de purificação ou harmonização, talvez?

É complicado colocar palavras aqui. Se as puser, se calhar, estou a tirar-te a oportunidade a ti de me dizeres o que pensas que foi. E tenho de ser honesto contigo, eu também não sei se tenho as palavras correctas. Mas se queres uma opinião pessoal, eu acho que tem que ver com ego e o teu real “eu”. Tudo o que tu tens na frente, de seres quem tu és no planeta, aquela camada de abstracção, aquela máscara extra que está entre ti e o mundo. A minha, provavelmente, era um dragão porque a minha personalidade tende para aí. Outras pessoas hão-de ter outra máscara. Esse é o meu processo pessoal e há várias coisas no álbum que a descrevem, momentos chave dessa passagem. E acho que essa é a minha maneira de sentir a coisa. Não te vou dar uma a ti, porque tudo o que lá está são músicas factuais. A leitura da aura que tu ouves é uma leitura factual. Tu, se calhar, interpretas de outra forma e tens outra coisa para dizer. Não sei.

A ideia para o álbum surgiu dessa leitura da aura? Como é que calha as gravações falarem numa “rosa” e num “dragão”, sendo que esse dois nomes surgem presentes no título do teu disco?

Eu sou um gajo crente em algumas coisas e eu acho que nada disso fui eu que fiz. Eu acabei por chegar a um ponto em que reparei… A ideia do álbum se chamar Rosa Dragão aconteceu umas semanas após essa leitura da aura, porque fiquei interessado no conceito e achei que fez sentido em vários aspectos. Depois comecei a ver, tanto as músicas que eu tinha como algumas coisas que eu estava a fazer, e comecei a reparar que a música por si… Eu acho que só tive de fazer, “olha, troca esta [faixa] para aqui.” Estás a perceber o que eu estou a dizer? Se calhar, não as fiz por uma ordem cronológica, apesar de as ter vivido de forma cronológica. Tenho pouco envolvimento nisso e tenho recebido alguns elogios pelo conceito, mas é engraçado porque não o fabriquei. Foi mesmo a vida que fez com que o projecto assim fosse.

Também é engraçado estares a apontar para um espectro mainstream e, ao mesmo tempo, não descuidas minimamente do lado conceptual — algo que é frequentemente debatido nas redes sociais. O Rosa Dragão é um álbum profundamente introspectivo, aliado ao trabalho milimétrico que aplicas tanto nas letras como nas batidas.

Eu tenho algumas dúvidas pessoais quanto a esse termo, do que é “mainstream”. Eu gosto de música porque me soa bem. Eu gosto mesmo de música. Eu até sinto que algumas pessoas se afastam de coisas que soam demasiado bem. Isso para mim é um bocado confuso. Eu gosto mesmo de música. O caso da “22:22”, é uma das músicas que eu lá tenho que, em termos musicais, mais gosto. Aquilo para mim… Eu lembro-me de misturar algumas faixas e lembro-me, por exemplo, eu adoro uma faixa que lá está que é a “Ego” — com o Sacik Brow e com o Lalas49, numa produção brutal do Cálculo. É uma faixa que tem um espaço no meu coração, tal como outras coisas têm outro espaço. Acho que, no rap, há muito essa preferência por uma determinada sonoridade, na qual a “Ego” encaixa perfeitamente. Sabia perfeitamente que a “Ego” está dentro desse range. Mas acho que nem penso muito nisso. Sou um bocado surpreendido. A diferença entre a “Meu Deus”, que é uma faixa mais escura, e a “22:22”, para mim, é tão simples como o sentimento que a motivou. O sentimento por detrás de uma é um, detrás doutra é outro. Não penso muito nesse factor. A música é sempre feita com o mesmo empenho e a mesma paixão, porque eu gosto mesmo daquilo que eu faço e de fazê-lo. Acho que nunca paro para pensar “esta é mais mainstream do que aquela”. Quando estou numa fase de “como é que eu vou promover a minha música?” Aí consigo ver, “esta música vibra com mais pessoas do que aquela”, etc.

Por falar em musicalidade: já te tínhamos ouvido arriscar em algumas cantorias no passado, mas neste projecto assumes-te confortavelmente nessa posição. Agora até me veio à cabeça aquela remistura do Michael Jackson que fizeste n’O Rei Vai Nu. Podemos assumir que foste beber daí toda essa musicalidade, aliada aos teus toques de dança.

É capaz, é. Eu não te consigo dar essa resposta em concreto, porque nada disso foi mesmo pensado. Especialmente a parte da dança, que eu até costumo dizer: “eu não danço, eu tenso.” [risos] Até te vou contar uma história engraçada sobre isso, que foi a primeira vez em que eu me apercebi disso. Foi num cypher que está aí na net, feito com o ZA, o Nasty Factor, etc. No cypher, cada um vai em frente da câmara separadamente, não é? Eu, na altura, não estava a fazer vídeos e reparei que a malta comentou “estás a dançar”. “Eu estou a dançar?! Não estou a dançar. Estou?” E depois percebi o que é que o pessoal estava a falar. Eu tenho uma maneira de me gesticular, mas sempre foi minha e acho que o choque só aconteceu agora, porque eu agora estou em vídeo. Percebes? A parte das influências do Michael, é bastante provável. O SP também me chamou à atenção para isso, enquanto estava a fazer a mix do meu álbum. Não é pensado mas é provável. Eu gosto muito do Michael.

Eu também tenho uma ideia de que tu e o SP partilham de certos aspectos técnicos. Até mesmo pela história: ambos se apresentaram ao público enquanto peças-chave de uma dupla e têm batalhado pelo reconhecimento, agora numa vertente individual.

É um pouco diferente mas eu percebo o que estás a dizer. É engraçado, porque a química entre mim e o SP, tanto em termos de trabalho como de amizade, foi instantânea. Ele foi das pessoas com quem tive maior conexão até à data no movimento [do hip hop]. Isso que estás a dizer tem uma amplitude um bocado maior, para mim. Mas tem graça, porque eu estou para fazer uma faixa com o SP desde que ele apareceu. Quando o SP apareceu, eu apareci com os Deck-Arte. Ele veio logo ter comigo e o convite dele, na altura, era “eu produzo a tua parte do beat e tu produzes a minha parte do beat. Vamos fazer uma cena”. Essa cena levou quase 15 anos a executar. Mas é engraçado. Aconteceu quando eu fui ao Três Pancadas. Por acaso, ele estava na Big Bit e eu nem sabia que ele estava em Portugal. Nós vimo-nos, ele estava a seguir as minhas cenas. Disse-me “mano, a ver se fazemos uma cena.” E eu “claro, há bué…” Começámos a trabalhar juntos e mais coisas vão acontecer entre nós. Ele está a trabalhar em projectos nos quais eu também tenho coisas produzidas. Temos algumas coisas gravadas. Imagino que eu e o SP façamos mais trabalhos juntos daqui para a frente.

Em relação aos outros convidados, tiveste algum cuidado na escolha das pessoas que te acompanharam nesta jornada?

Claro que sim. Há várias coisas. O Cálculo foi uma energia bué natural. Nós conhecemo-nos numa vinda dele cá [a Lisboa]. Acho que até foi num concerto de Rolézinho, já há algum tempo. A empatia foi instantânea e eu gosto bué dele como produtor e como MC. Ele tem uma cena… Estão a criar-se uns alicerces novamente e eu vejo o Cálculo na linha de um Ace. É aquele update do que o Ace representava. Não os colando um ao outro, mas há ali uma coisa… E eu acho que o próprio Cálculo admite que o Ace é um dos MCs favoritos dele. Gosto muito do que ele faz e é uma das colaborações que surgiu. O Sacik Brow e com o Lalas49 teve a ver com o que eles representam no movimento, o significado que eu lhes atribuo. Juntei-os no “Ego”. São pessoas que, mesmo que não usem o mesmo termo que eu, são activas no combate. Por isso é que a faixa fez sentido a toda a gente e foi uma cena que aconteceu bué depressa. O SP já te expliquei como é que a coisa aconteceu. Foi engraçado, porque ele deu-me o beat, foi escrever e não me disse. Eu cantei-lhe o que escrevi e ele mostrou-me a cena dele logo a seguir e “ok, vamos só fazer um refrão”. Foi uma coisa bué instantânea também. Há uma outra participação que eu tenho que é a FLSHA. A participação dela parte de uma faixa que ele tinha editado e que eu lhe pedi para remixar — a faixa chama-se “Tonight” e é bastante fixe. Não foi uma participação directa, apesar de eu ter a intenção de fazer algo com ela também. Tem uma voz bué interessante. O Walez eu costumo dizer que é a minha aposta para o que aí vem. Eu acho que ele é velha e nova escola. Ele tem uma energia pela qual eu simpatizei logo. Tem aquela carga de humor que me diz muito. Também foi uma pessoa com quem eu quis logo trabalhar numa onda de “ouçam, que este gajo é muito fixe”. Ele fez um belíssimo trabalho. Trabalhar com o Hype Mike acho que nem vale a pena referir. Depois há a FLUX, com o Unvox, que eu aconselho vivamente. É um produtor que de certeza que vai dar que falar. Ele é muito muito bom. Creio não me estar a esquecer de ninguém.

Tu agora tens uma equipa, vários videoclipes, um disco de estreia e até mesmo um jogo do “#PIXAGRANDE”. Como é que isso surgiu?

Eu por acaso tinha esse projecto lá parado, não com a intenção de fazer nada do que fiz. Na altura em que se começou a trabalhar na faixa com o SP — que nem foi assim há tanto tempo — eu estive com ele, ouvi a faixa, escrevi, ele escreveu e eu disse-lhe “eu tenho aqui este projecto, o que é que achas de fazermos isto e isto?” Ele riu-se bué e disse “isso era bué fixe”. A partir daí executámos tudo num mês e pusemos cá fora. Foi uma das últimas faixas a serem criadas e é engraçado porque, neste momento, é uma das mais significativas. Tanto em termos de números como de popularidade. Apesar de a coisa encaixar, o que encaixa é o facto de eu acordar todos os dias e ser eu todos os dias. Houve pouco planeamento em algumas das coisas que acabaram por bater tão certo. O vídeo com a máquina de arcada, depois o tema do Street Fighter que utilizámos no jogo. Foi tudo acontecendo muito naturalmente. Claro que o jogo teve ali uma preparação inicial. “A certo ponto vou ter de me dedicar a isto”. Foi giro. Ri-me bastante a fazer isso por acaso. [risos]

Vi hoje de manhã no Twitter que essa faixa até está a gerar alguma polémica.

Relativamente aos tweets, o que posso dizer é que me mencionaram no centro de uma discussão que me parece não ter qualquer fundamento. Creio que a discórdia começou com as semelhanças de argumento entre o “#PIXAGRANDE” e o “#COMOTODOSFAZEM” do NTS, que saiu recentemente. A battle, a sátira, a crítica são alicerces centrais do hip hop. Música que carrega opinião parece ser um problema em 2018, talvez por estarmos rodeados de música que não diz nada em concreto. Seja como for, acho que tornarem este tipo de questões “pessoais” é um erro, afastarem-nas do âmbito da música é um erro e as redes sociais em geral são um erro. Eu dei a minha opinião sem ofender ninguém e tomo orgulho nessa postura. Não precisamos de concordar, há microfone e oxigénio para todos.

Apresentaste o Rosa Dragão ao vivo um par de dias antes da edição do disco. Como é que a festa correu? Há por aí mais alguma data no horizonte para aqueles que não te conseguiram apanhar da primeira vez?

A casa não esteve cheia, podia ter estado mais. Mas acho que é uma porta nova que eu há bué que tinha para abrir. Tenho estado a evitar… Evitar porque queria ter o meu projecto fixe. A maior parte dos promotores quis que eu fosse cantar músicas do Hype Mike x X-Tense e, provavelmente, são músicas que eu não tenciono apresentar. Há uma série de circunstâncias minhas. Eu sou uma pessoa complicada, acho que isso sempre foi público. Mas desde que eu criei essa festa [de apresentação], o número de convites para as mais variadas coisas disparou e imagino que agora vou estar muito mais presente nesse formato. Acho que essa primeira vez, pela maneira como tudo foi executado… Em Junho eu decidi “nós vamos ter um álbum cá fora a 15 de Setembro mais um vídeo. Vamos ter uma festa organizada por nós”, porque era assim que eu queria fazer. “Vamos trazer o Lalas49, o Sacik…” A logística desta coisa é mais incrível do que possa parecer e eu estou contente que tenha corrido tão bem. Existiram alguns problemas técnicos. Eu, por exemplo, nem tive tempo de fazer soundcheck, porque o Hype Myke tinha um evento no mesmo dia. Várias coisas que podia ter sido mais cronometradas, mas gostei muito do que aconteceu nesse dia. Até porque era o dia do meu aniversário e havia ali um ambiente muito… Haviam ali dois ambientes: pessoas que não me conheciam e estavam ali para ouvir a minha música e pessoas que, provavelmente, me conhecem desde miúdo. Foi uma cena interessante. Pelo menos para mim, teve um significado especial.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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