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Fotografia: Cláudio Ivan Fernandes
Publicado a: 27/02/2023

Da mesma matéria com que as lendas se fazem.

Wet Bed Gang no Campo Pequeno: Gorilleyez também choram

Fotografia: Cláudio Ivan Fernandes
Publicado a: 27/02/2023

Sabia-se que a noite de 25 de fevereiro seria impactante a vários níveis para os Wet Bed Gang, que celebraram dias antes o aniversário de João Rossi, um dos fundadores da banda, falecido em 2014, mas que continua a marcar presença regular nos versos do quarteto da Vialonga. Ao todo, foram cerca de duas horas de concerto com convidados inesperados (outros nem tanto) que fizeram gastar a voz tanto ao público como aos protagonistas. No final, é difícil perceber se foram as memórias ou a realização do que está para vir que levaram às lagrimas dois dos membros do grupo, mas ficou a sensação nostálgica que só um grande concerto consegue oferecer e a certeza de que estes quatro “gorilas” têm ainda muito mais para dar.

Apesar de Gorilleyez ter servido de mote ao maior concerto que os WBG já protagonizaram, não se esperava uma mera apresentação do disco tocado ao vivo de fio a pavio e, feitas as contas, ficaram até a faltar alguns dos novos títulos. Já para deleite de quem esperou às portas do Campo Pequeno desde o meio dia, não faltou no alinhamento um único êxito de uma já longa carreira para um grupo tão jovem.

Pisaram o palco pouco depois das nove horas da noite para serem recebidos por umas incríveis 6 mil pessoas que, em antecipação, se faziam ouvir sempre que alguém pisava o palco. Nas bancadas: poucos lugares vazios; e na plateia em pé uma grande mancha ocupava a totalidade da arena redonda do Campo Pequeno criando o ambiente acolhedor necessário num espetáculo do género.

Foi com um dos temas de Gorilleyez que o grupo iniciou a atuação, mas Gson rapidamente advertiu que esta seria “uma viagem nostálgica” para de imediato antes de nos trazer “Não Tens Visto”. O tema criou a primeira explosão na plateia que acompanhou o refrão e praticamente substituiu Zara G ao entoar os seus versos mais alto que o próprio. O sucedido repetir-se-ia mais tarde com êxitos como “Chaminé” – que provocou um moche generalizado ao qual nem mulheres ou crianças escaparam – , “Maluco”, “Aleluia”, “Não Sinto” ou, claro, “Devia Ir” que nos foi apresentada em medley com “Farda”.

Ora, quem segue a banda não consegue deixar de se perguntar porque é que os temas mais antigos compõem ainda uma parte tão importante do seu alinhamento. Sobretudo agora, depois de um Gorilleyez que mostra um som apurado e muito mais carregado de preocupações técnicas do que os primeiros EPs e singles da banda, que continuam a dar que falar e, certamente, a valer inúmeras audições nas plataformas digitais.

Por um lado, é certo que o Homem resiste à mudança, e mesmo a evolução é quase sempre vista, numa primeira avaliação, como algo a evitar face à incerteza que dela advém. Talvez seja este o fenómeno que se abate sobre os WBG e que não nos deixa gostar dos novos trabalhos tanto quanto gostamos dos antigos – mais inovadores e disruptivos na linguagem despreocupada e nos beats crus. Por outro, é certo que os WBG têm um público jovem (embora cada vez mais diverso) que passou uma derradeira fase da sua vida entre a secundária e a faculdade a criar memórias ao som dos seus hinos, fosse nos fones a caminho de casa ou nos inúmeros concertos que o grupo deu em queimas e festivais universitários. Se assim for, então é apenas uma questão de tempo até Gorilleyez ser imortalizado por uma geração ligeiramente mais jovem, tal e qual o que muitos jovens adultos fizeram com os primeiros trabalhos da banda.

Outros destaques da atuação terão que incluir obrigatoriamente as atuações de Phoenix RDC primeiro, que interpretou “Vencedor”, Nenny pelo meio que, em jeito de homenagem, nos cantou parte de “3,14” partilhando o palco com Gson que não conseguiu conter os sentimentos, e finalmente Regula que, com o suspeito do costume, entoou “Chauffeur”. Jimmy P foi o quarto e derradeiro convidado e não dispensou mais uma homenagem a Rossi, que foi sendo constantemente relembrado no decorrer do espetáculo.

Na origem da escolha dos convidados esteve o apoio prestado ao grupo da Vialonga ao longo da ainda curta carreira, mas sobretudo nos primeiros ano – como explicou o vizinho Phoenix RDC ao público, “eles eram mais novos e estavam sempre a pedir-nos a nós, mais velhos, que ouvíssemos as rimas deles. Fui eu que os levei ao meu estúdio e lhes gravei [as primeiras músicas]”. Em linha com o contributo agiu Jimmy P, quando há alguns anos mencionou os WBG numa das suas letras, tendo mesmo vindo a colaborar mais tarde em dois temas: “Young Forever” e “Kill ’Em All”. E se estes dois convidados serviram para evocar as raízes dos WBG, Regula é o presente e Nenny a bússola que aponta ao futuro dos WBG.

E por falar em futuro, só o grupo sabe o que nos reserva em termos musicais. Já no que diz respeito ao espetáculo, esperamos ter ficado com uma boa previsão daquilo em que se tornarão os futuros concertos do quarteto da Vialonga. É que um concerto de hip hop com uma rica banda de 6 músicos (guitarra, baixo, teclados, bateria e dois DJs nas máquinas), um coro de quatro elementos e uma equipa de 10 bailarinos não é só “mais um concerto”. Sobretudo sob um completo e épico jogo de luzes e kit pirotécnico que ajudaram a manter a temperatura bem alta durante toda a duração de um dos maiores espetáculos de produção portuguesa que passaram pelo Campo Pequeno nos últimos tempos. Perguntem ao Kroa: “Este foi sem dúvida o melhor concerto das nossas vidas. Nunca senti tanto amor nem tanta verdade como hoje”.


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