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Wandl: O som lo-fi de Viena

[TEXTO] Amorim Abiassi Ferreira [FOTO] Laura Jalaguier – Riot House

“O meu nome é Wandl e venho de Viena, Áustria. Produzo, canto sobre os meus beats e toco piano. Gosto apenas de fazer música na minha e com as minhas pessoas.”

Depois de ter actuado, Wandl apareceu acompanhado de duas latas de Heineken e mostrou-se bastante despreocupado quanto ao resto do seu tempo no festival. “Tenho um comboio às 10 da manhã, mas só me tenho de preocupar com isso amanhã”. Esta era a sua primeira actuação a solo em França. Já tinha tocado duas vezes no país, mas sempre em companhia de outros artistas. Nesse dia ocupava o palco principal do Europavox Festival, em Clermont-Ferrand. Mais tarde, tocavam Deluxe, Puppetmastaz e Chinese Man, grupos que trouxeram consigo uma massa de fãs que preencheram o pavilhão.

Lukas Wandl é uma das caras de um movimento que tem despertado na Áustria e que tem ganho reconhecimento e aliados na Alemanha. Lançou este ano o primeiro longa-duração, It’s All Good Tho, um projecto com uma identidade mais r&b em que mostra também a sua elasticidade como produtor ao longo de 17 músicas.

 



A Affine Records, uma label independente sediada em Viena, é a casa e família actual do produtor. A editora dedica-se a um som mais electrónico, mesmo que fortemente influenciada pela estrutura de beats rap. Wandl admite que é com os elementos da editora que tem crescido mais, acima de tudo porque são artistas que se concentram na música e pouco ligam às festas e distracções que costumam acompanhar o mundo do espectáculo.

Em 2015, surgiu um movimento na Áustria que abraçou o cloud rap. As músicas arrancam com repetições da palavra “swag” e, ao mesmo tempo, misturam incríveis samples de jazz com beats densos, referências completamente diferentes daquelas que os Estados Unidos normalmente nos trazem. Para isso certamente que contribuiu a forte herança jazz da Áustria, que ainda hoje está viva e é o poço em que os produtores fazem o seu diggin’. Em Viena, o respeito e a colaboração são dos elementos que mais dão força ao crescimento desta tendência. “Sim, há alguns rappers austríacos que se tornaram enormes na Alemanha e assim. E eu fui uma parte pequena disso com Crack Ignaz, um dos meus companheiros. Produzi o álbum completo que ele lançou no ano passado. Foi um álbum num estilo mais Madlib, construído a partir de samples. Eu penso que foi um projecto inovador e mesmo influente para as pessoas que falam alemão.”

 



Wandl cresceu numa casa em St. Pölten onde o ambiente musical era uma constante. O pai aprendeu a tocar saxofone sozinho e a mãe dava aulas de música. Começou a produzir aos 12 anos. Ao terminar os estudos, mudou-se para Viena. Lá conheceu Cid Rim e começou a associar-se à turma da Affine Records. Dorian Concept, um dos nomes mais sonantes da editora, tornou-se num dos mentores de Wandl, tendo também participado no disco e contribuído para as músicas “Beats (How I Want U)” E “Gay”, do seu novo disco.

O seu rapper favorito é MF Doom; Madlib é das suas maiores inspirações na produção e Michael Jackson é referência quando falamos de cantar e sensibilidade pop. Embora todas estas escolhas pareçam incontornáveis, ele não se fica por aqui: “A caminho daqui ouvi artistas da ECM. É uma das minhas labels favoritas e foi uma grande inspiração para a capa do meu álbum. Nos anos 70 e 80, eles tinham sempre uma moldura nas suas capas e lá dentro dentro havia uma fotografia bonita — muito minimal.”

Há também uma procura de gravações mais esquisitas em busca dos ruídos e texturas certas que precisa para as suas produções: “Ontem também estive a ouvir algumas cassetes de barulhos sombrios e fantasmagóricos. É uma das razões pelas quais estou sempre a voltar ao som vintage old-school, porque cria sempre um corpo mais forte — com soul e fricção. O som de cassetes carrega essa fricção que depois cria, pelo menos em mim, uma resposta corporal.”

A actuação de Wandl ao vivo no maior palco do Europavox transmitia uma sensação peculiar. Como se o espaço do palco se afunilasse à volta do seu sintetizador, computador e pads; que o observávamos no seu habitat natural — o quarto. Deixando o beat tocar, cantava algumas estrofes, pousava o microfone, ia para o piano e começava a improvisar. Passado um pouco, voltava aos controladores e manipulava de novo a batida. Uma actuação que procurava mais a convidar a curiosidade do que forçar a atenção. Em conversa com o Rimas e Batida, o artista mostrou uma preocupação em melhorar continuamente:

“Achas que falta conseguir agarrar mais o público?”

Lukas é, claramente, uma pessoa que gosta de desafios. Para além de já ter lançado dois outros EPs em nome próprio, responsabilizou-se pela banda sonora, tocada ao vivo, de uma peça de teatro em Hamburgo. Também produziu um álbum com Crack Ignaz, Geld Leben. O trabalho com Crack Ignaz levou-o em tour, altura em que começou a ganhar rapidamente fãs. Contudo, a tour, também na companhia do rapper Goony, mostrou-se intensa demais para o produtor e lentamente o puxou para um estado depressivo.

 



O estado vulnerável em que Wandl se encontrava foi o arranque para a produção do novo longa-duração, It’s All Good Tho. Criar um LP já era possível pela confiança ganha ao ter esculpido na íntegra o som do álbum colaborativo com Crack Ignaz. Produzir para si foi uma nova viagem de descoberta que o ajudou a sair do espaço mais tenebroso que o assolava. A influência também se mostrou nas suas letras: “Liricamente, os tópicos são bastante escuros. Tento não me censurar. Antes deste álbum, eu sentia-me demasiado tímido ou medroso para me expor como artista. É tudo bastante pessoal, melodramático, um bocado lamechas — como o r&b dos anos 90.”

O processo de criação do último longa-duração foi definitivamente catártico e voltou a despertar nele a vontade de colaborar com outros rappers e produtores. Wandl remata: “Agora estou a colaborar com muitos artistas. Fiquei bastante farto de trabalhar sozinho nos últimos meses. Estou a trabalhar com o Fid Mella, um produtor austríaco, Torky Tork, produtor de Berlim e também quero trabalhar com o Dorian Concept. Quero fazer coisas com uma banda ao vivo, com alguns amigos. É o que me está a manter motivado agora.”

 


 

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