Vodafone Mexefest – Dia 2: Sevdaliza foi a diva que Portugal escolheu


[TEXTO] Alexandre Ribeiro, Alexandra Oliveira Matos e Ricardo Farinha [FOTOS] Sebastião Santana, Luis Almeida (Karlon e Eva RapDiva), Catarina Craveiro (Sevdaliza) e Mário Vasa (Moullinex) [VÍDEO] Luis Almeida

O segundo dia do Vodafone Mexefest foi tão intenso e preenchido no universo das rimas e batidas como o primeiro. Com as reportagens escritas, as fotografias publicadas e os vídeos editados, a equipa Rimas e Batidas partiu para mais uma tarde e noite de viagens entre os vários palcos espalhados pela Avenida da Liberdade e zona dos Restauradores.

O Capitólio foi o grande centro do derradeiro dia de festival, mas também o Cinema São Jorge ou o Coliseu dos Recreios tiveram actuações nos diversos mundos da electrónica, rap e r&b. Tudo começou pelas 18 horas, com um set de Nasty Niles, DJ de CJ Fly, que abriu as hostes no espaço do Parque Mayer com temas que foram de Kendrick Lamar a Skepta e a Notorious B.I.G.. Foi assim o segundo dia de Vodafone Mexefest.


corona


Os pingos da chuva catapultaram o concerto do Conjunto Corona – que deveria ser nos bastidores – para o palco principal do Capitólio. Mais do que São João ou qualquer outro potencial santo padroeiro, foram abençoados pela figura do Homem do Robe, que esteve representado num busto branco que tantos quereriam levar para casa (para guardar ao lado da cassete VHS de Cimo de Vila Velvet Cantina ou da caixa de comprimidos de Lo-Fi Hipster Trip).

Este singular grupo de rap, do produtor dB e do rapper Logos, a que em palco se juntam Kron e Fred&Barra – e, claro, o animador de serviço Homem do Robe – deu vários concertos marcantes desde que lançou o seu terceiro álbum de originais e expandiu a sua base de fãs. Percorreram os palcos do Lisboa Dance Festival ou do Tremor, entre tantos outros, como um memorável espectáculo em Paredes de Coura, uma apresentação incrível do disco no Musicbox, em Lisboa, ou uma actuação icónica n’O Portista.

Comparado com estes últimos, o concerto dos Corona no Vodafone Mexefest não teve o mesmo espírito festivo, o que se percebe. Muitos daqueles que aproveitaram para conhecer este conjunto – que não é de Gondomar, mas bem podia ser – tinham comprado bilhetes para o festival para ver outros artistas e não estavam familiarizados com a estética única do hip hop psicadélico e kraut rock, com letras portuenses a contar as aventuras da personagem Corona. Ainda assim, a sala estava bastante composta.

A actuação em palco foi, como sempre, enérgica e irrepreensível, com um toque de rock ‘n’ rol e atitude despreocupada – nota-se a experiência e a harmonia em palco entre os MCs e o patrón dB (de casaco de fato de treino da Venezuela) a comandar as tropas atrás da mesa. “Pontapé nas Costas” deu origem ao maior momento de mosh; o Homem do Robe tentou animar o público como ninguém, e distribuiu os habituais copos de hidromel (pela primeira vez desde que existe um patrocinador!). A fase Cimo de Vila Velvet Cantina da banda dura há mais de um ano, com sucesso, e um novo álbum estará a ser preparado. Venha ele. Não conseguimos sequer imaginar onde é que Corona pode chegar.

– Ricardo Farinha


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Da primeira linha de MCs da Pro Era, CJ Fly é o nome que gera menos entusiasmo, ficando atrás de Joey Bada$$, Kirk Knight e Nyck Caution, os grandes talentos do colectivo de Brooklyn, Nova Iorque. O público, que ocupou metade da sala, era um reflexo desse desconhecimento geral.

A mudança do Conjunto Corona para o auditório do Cine-Teatro Capitólio adiou, ligeiramente, o concerto de CJ Fly. E o primeiro encontro com o artista norte-americano não foi o mais agradável. A voz esforçada e a falta de brilho na entrega das rimas baixaram o nível da actuação, apesar de momentos como “Still the Motto”, tema da mixtape de estreia, Thee Way Eye See It, ou “Now You Know” e “Dope”, faixas de FLYTRAP, mostrarem que existe margem de manobra para melhorar.

Nasty Niles, DJ que estreou o segundo dia do Vodafone Mexefest, acompanhou o MC nesta tour europeia e Portugal não foi excepção. Depois de Kirk Knight exibir-se em grande forma na Galeria Zé dos Bois, em 2016, e CJ Fly ficar aquém das expectativas no Mexefest, Badmon precisa de equilibrar as contas em território nacional. Pelo bem das “finanças” da Pro Era, claro.

– Alexandre Ribeiro


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No Mexefest “kata para”, assim como Karlon que tem tido um 2017 cheio de datas em palcos de grande visibilidade. Às 20h40 abria a pista de dança do Palácio da Independência. Sim, de dança, leram bem. O rapper crioulo pôs o público a dançar funaná com duas bailarinas a abrilhantar o palco durante a música “Nha Cultura” e “Dixi Ribera”, do álbum Passaporti, já perto do fim do concerto.

Mas voltemos atrás, à parte em que o público, de todas as idades, de todas as cores, compreendia o crioulo do artista e aplaudia e ria perante a boa disposição de Karlon que, sem fazer longos discursos, foi agradecendo ao público pela “grande vibe” que trazia nova vida ao palácio do século XV. Com X-Acto ao comando dos pratos e Michel Galvão ao seu lado de microfone em riste e sorriso sempre nos lábios, a actuação passou principalmente pelo Passaporti – álbum que tem valido a Karlon o amor da crítica. Porém, não faltaram músicas do Meskalina e do Paranoia, momento que Karlon aproveitou para fazer destaque a João Salaviza pela realização de Altas Cidades de Ossadas, filme que recebeu o Mikeldi de Oro Ficción no Zinebi – Festival de Cinema Documental e de Curtas-Metragens, em Bilbao, Espanha.

Sem dúvida, uma excelente actuação de Karlon que tem vindo a confirmar o seu valor e a derrubar as barreiras das origens e da língua.

– Alexandra Oliveira Matos


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A noite tinha decididamente o carimbo Pro Era e, depois de CJ Fly, o experiente e conceituado Statik Selektah subiu ao mesmo palco do Capitólio. Foi a estreia em Lisboa, depois de no ano passado ter actuado no Porto. O nova-iorquino desfilou todo o seu talento, conhecimento e técnica a soltar faixas atrás de faixas, todas com recorte clássico, entre muitos cortes afiados e misturas de rimas e beats que nunca se tinham conhecido. Houve temas de Nas a House of Pain, de KRS-One a Joey Bada$$, de Fat Joe, Run The Jewels ou Mobb Deep (com homenagem ao malogrado Prodigy).

O DJ e produtor aproveitou ainda a ocasião para promover o novo álbum, 8, que será lançado a 8 de Dezembro, e do qual até já conhecemos os temas “Man of the Hour”, “But You Don’t Hear Me Tho”, “Put Jewels On It” e “No. 8”. Mostrou-nos outros dois: uma faixa com Action Bronson e outra com Joey Bada$$. Num horário de ponta, com tantos outros concertos a acontecer noutras salas espalhadas ao longo da Avenida da Liberdade e nos arredores dos Restauradores, só o público mais dedicado ao hip hop respondeu à chamada deste produtor e DJ que tem um currículo mais do que impressionante.

– Ricardo Farinha


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Às 22 horas em ponto estava já Nel’Assassin nos pratos, Tamin e Pina alinhavam-se ao microfone e Eva entrava do fundo da sala de microfone em punho por entre o público tímido que se encostava ao fundo e às paredes laterais como se tivessem íman. A artista angolana rimava acappela sobre ser mulher, sobre ser rapper, sobre ser mulher-rapper e introduzia assim a música “Outra Espécie”, a primeira do último álbum, Eva. No final da primeira música a lotação da sala já era considerável, mas amontoava-se à porta obrigando Eva a pedir como “prenda de natal” que se chegassem à frente. Não foi preciso pedir muito, na verdade. A meio do concerto foram avisar Eva de que o público fazia fila lá fora no Palácio da Independência e era preciso reforçar a ideia de que se teriam de apertar mais.

A sala estava cheia, a fila da frente compunha-se maioritariamente de mulheres e muita gente sabia as letras da artista que já é gigante em Angola. Antes do concerto Eva RapDiva disse em directo para o Facebook do Rimas e Batidas que iria fazer “um concerto típico de rap”. Assim foi e surpreendeu. Do spoken word com que abriu, aos braços no ar do público, Eva não deixou de lado as suas origens e rimou de improviso perante o espanto da plateia que aplaudiu de forma efusiva todas as dicas mais feministas da rapper que tem sido também rosto dessa luta pela igualdade. “Beleza não é tudo”, “Assobio Meu” e “Final Feliz” são as músicas de maior sucesso da artista e foram sem dúvida as mais cantaroladas.

A rapper ainda conseguiu arrancar lágrimas e sorrisos. Homenageou Tamin, que lhe deu o nome de “Diva” no início da carreira quando rimava no Bairro Alto por brincadeira, pediu aplausos para Capicua que não pôde estar presente, elogiou a voz melodiosa de Pina e o scratch irrepreensível de Nel’Assassin e ainda destacou o produtor Detergente, que produziu algumas das músicas do último álbum e viajou de propósito de Angola para a ver actuar. Eva não deixou de referir o gosto pela mistura de estilos antes de cantar “Final Feliz”, na recta final do concerto, e criticou quem levanta o dedo ao “rap kizombeiro” e se esquece de que o rap “é um estilo que nasce da mistura de estilos”.

Provavelmente uma das maiores surpresas deste Vodafone Mexefest pela reunião inesperada de tantos fãs e curiosos que saíram do Palácio da Independência claramente contentes pela opção.

– Alexandra Oliveira Matos


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Allen Halloween joga num campeonato apenas seu. Não existe ninguém em qualquer parte do mundo que pudesse vir da mesma escola, ter a mesma ideia. Até porque tudo tem a ver com as raízes do próprio artista e das vivências em zonas degradadas de Odivelas.

É completamente original e único como um dos maiores e melhores percursores do rap de rua em Portugal – sempre rodeado pelos seus kriminals em palco, com letras com punchlines e referências às vivências da rua – abrace e torne suas as sonoridades mais grungy e distorcidas e esteja a preparar um álbum acústico. Isto além das letras mais profundas e densas sobre o mundo, o Homem e a fé bíblica, muitas vezes contadas em histórias de personagens, sobretudo no último álbum, Híbrido.

Uma das faixas que mais demonstra esta (boa) disparidade é “SOS Mundo” – desde o refrão que diz “Kapa é cruz, credo, Kapa é confusão/Kapa Karma crew/Kriminals criam” até aos versos urgentes sobre os problemas profundos do planeta (que parecem cada vez mais actuais). Também essa faixa foi interpretada no Vodafone Mexefest, entre um desfile de clássicos do músico: de “Mary Bu” a “Livre-Arbítrio” em versão acústica, além de “Drunfos”, “Fly Nigga Fly” ou “Killa Me Cabrón”.

É também o seu lado de cantautor português – que um dia poderá (e deverá) estar equiparado a grandes nomes da música portuguesa, até porque a tour do esperado Unplugueto deveria passar pelos coliseus – que o tem levado a conquistar um público enorme, dentro e fora do hip hop – desde que apareceu que Halloween é a ovelha negra do movimento do rap nacional. E é o que leva uma plateia imensa no Capitólio, a preencher quase toda a sala, a cantar bem alto os versos de “Bandido Velho”; tudo depois de faixas sujas e cruas de street rap. Único.

– Ricardo Farinha


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Uma fila gigante para entrar no Cinema São Jorge era sinónimo de espaço cheio para a estreia de Sevdaliza em Portugal Continental – a cantora passou pela Madeira este Verão. Bastantes pessoas ficaram à porta e, sem estar a querer causar algum tipo de inveja, é possível que tenham perdido um dos melhores concertos da edição deste ano do Vodafone Mexefest…

Acompanhada por dois músicos e um bailarino, a artista deu tudo o que tinha – impressionante a forma como canta e dança sem grandes dificuldades -, coadjuvada por um público extraordinário – destaque para as primeiras filas – que foram incansáveis a preencher os silêncios entre músicas. Três ovações de pé é obra, tudo isto para alguém que construiu um percurso de forma independente, algo realçado pela própria durante o concerto.

Sedvdaliza, tal como as grandes divas da pop e r&b menos comercializado, apresentou-se com uma indumentária singular, mas foi na postura que surpreendeu, e a histeria que se gerou à sua frente nunca fez com que desmanchasse a postura solene, uma certa aura que transporta das letras para os vídeos, e, consequentemente, para o palco. A abrilhantar o alinhamento, grandes canções como “Human”, “Marilyn Monroe”, “Bebin” ou “That Other Girl” serviram para exercer a sua elasticidade vocal e, de certa forma, desmistificar que a estética da sua arte ultrapassava as suas capacidades como cantora.

Numa das suas intervenções, Sevdaliza rejeitou a intolerância, o racismo, entre outras coisas, deixando, de certa forma, vincada a sua posição quanto ao assuntos quentes que continuam a alimentar a imprensa. Uma activista social que não tem problemas em usar a plataforma que possui para falar sobre temas que importam.

Uma recepção em grande de uma sala a rebentar pelas costuras. De saída, agradeceu a “grande generosidade” da audiência portuguesa. Resta-nos esperar pelo regresso. Será bem-vinda, certamente.

– Alexandre Ribeiro


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Depois dos magistrais Orelha Negra, foi a vez de Moullinex e da sua talentosa banda encabeçarem o segundo e último dia do Vodafone Mexefest no Coliseu dos Recreios. Sala cheia e bem-disposta para a música igualmente alegre de um dos músicos que tem crescido mais nos últimos anos no panorama nacional (e internacional).

O novo disco, Hypersex, foi o mote para este espectáculo – que o foi na verdadeira essência da palavra. Tal como tinha sido na primeira apresentação do álbum, que coincidiu com o aniversário do MAAT, um fundo de chroma foi colocado numa das bancadas do coliseu para formar um estúdio improvisado que transmitiu em directo, para o ecrã gigante atrás da banda, tudo o que se lá passasse. Foi Ghettoven o principal responsável por dançar nesta plataforma (e no resto do palco) e contagiar todo o público – que nem foi difícil de convencer com a energia tão dançante como pop da banda.

Embora não tão espectaculares como no concerto de Orelha Negra, os efeitos de luzes também foram importantes para complementar toda a actuação. Luís Clara Gomes levou ainda convidados especiais da sua Discotexas, como Da Chick, que trouxe a sua energia funky ao concerto.

“Espero que estejam confortáveis aí, vamos dançar e fazer a festa”, foi dizendo Moullinex, que nunca tirou o sorriso dos lábios, mesmo quando o baterista Diogo Sousa teve “uma das piores cãibras da vida” e demorou alguns minutos até regressar ao palco para continuar a tocar. É importante consagrar nomes como Moullinex, na vanguarda da nova música portuguesa – que dá várias cartas lá fora – e este ano o festival que se espalha pela Avenida da Liberdade e Restauradores fez muitas apostas certas na música nacional.

– Ricardo Farinha


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