Violet: “Vejo, finalmente, uma mentalidade mais progressiva”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] João Viegas

Violet acaba de lançar o seu mais recente EP New Visions pela Paraíso.

Homenageando o espírito do selo (fundado por João Ervedosa aka José Acid aka Shcuro) que celebra a cultura rave portuguesa, Inês Coutinho traz uma sonoridade descomprometida que recupera algumas das suas bases e influências desde o princípio, aglutinando no house e no techno ambientes dark, acid, batidas dancehall e “melodias saturadamente cute”, tudo em 4 faixas. No entanto, este registo não é um processo nostálgico, nem um regresso ao passado. Procurando sempre a emoção na pista de dança, New Visions junta estas influências numa sonoridade futurista, na qual os sintetizadores dançam constantemente por cima das síncopas duma percussão que se sente influenciada por diferentes culturas de música de dança.

Inês integra inúmeros projectos e colectivos. Também já editou por várias editoras, nomeadamente a One Eyed Jacks, a Twirl ou a Snuff Trax. A produtora e DJ fundou com Marco Rodrigues a Rádio Quântica, projecto importantíssimo na divulgação de nomes e músicas do underground lisboeta e português; a sua editora naive, na qual já editou BLEID, Eris Drew e Odete; as festas mina. No ano passado teve referências em várias publicações, inclusive na Pitchfork, na FACT, na Resident Advisor (na qual mereceu um longo perfil na série Breaking Through) e na mixmag. Em grande parte as referências deveram-se aos seus mixes e dotes de DJing, que lhe têm valido inúmeras actuações fora de portas, incluindo no Boiler Room.

Em entrevista telefónica, a artista admitiu-nos que, embora aprecie o trabalho de DJ e as actuações que daí surgem, quer focar-se na produção. Tanto é que nos revelou o lançamento de um álbum, que dar-se-á ainda em 2019. Até lá, há New Visions para ouvir.

Falámos das suas relações com todos estes projectos: o que está por trás do novo EP, a representação feminina e queer na música electrónica e o que 2019 ainda vai trazer.



Contextualiza-nos um pouco: como surgiu esta ligação com a Paraíso (com quem já tens uma relação há algum tempo)? E porque fez sentido New Visions sair pela editora agora?

Olha, a pessoa que fundou a Paraíso é muito minha amiga já há muitos anos. Sempre tivemos uma amizade por um lado familiar porque ele é marido da minha prima, com quem eu faço as A.M.O.R., mas também muito musical. Nós conhecemo-nos todos por causa da música, ou seja, eles depois casaram-se, mas tudo começou por causa da música e por amigos em comum que eram DJs, porque gostávamos de algumas músicas em comum, etc. E pronto, fomos sempre acompanhando o que um e outro fazia e o João fundou a Paraíso um bocadinho como homenagem aos pioneiros da música electrónica em Portugal, que era outra das coisas que nós já tínhamos em comum. No nosso grupo de amigos, tanto o Photonz, como eu, como o João, tínhamos interesse pelos primeiros dias da rave em Portugal, e tínhamos CDs com compilações dos anos 90, como o do Alcântara-Mar, e éramos fãs dos Underground Sound Of Lisbon, etc. Por isso tudo isso fazia muito sentido na cabeça desta gente toda.

Nas edições iniciais da Paraíso, que são vários artistas, eu entrei logo na primeira e sempre acompanhei muito de perto todos os projectos da Paraíso, porque nós trocamos muitas ideias. Eu ajudo em várias coisas na Paraíso, até escrevo porque, antes de eu dar o salto para ser só DJ, fazia trabalhos como copy, então tenho alguma experiência a escrever e ajudo também na Paraíso com a parte dos press releases e ele ajuda-me na naive com a parte toda de sign, por isso temos assim uma relação mesmo próxima a nível das editoras. E, a seguir a este VA, ele sempre me disse que gostava que eu fizesse um EP, e foi assim que assim surgiu. Fazia sentido lançar agora um disco e gostava muito de o fazer com ele, é uma pessoa que eu confio a 100%, e assim foi. 

Mudaste alguma coisa no teu processo criativo para este novo trabalho, ou sentes que foi um processo semelhante a trabalhos anteriores?

Foi semelhante. Eu tive um bocadinho uma inspiração assim esparsa, porque não é assim totalmente… digamos que não é uma referência absoluta, mas tenho uma referência esparsa aos tais inícios da música electrónica em Portugal e na altura parece que se tocava e fazia música um bocadinho mais em esqueleto, um bocadinho mais, de alguma forma, crua, mas também com uma emoção bastante presente e uma música que não era nada snobe. Apesar de não ser necessariamente super colorida, era uma música bastante naive, de alguma maneira, não quero estar a usar a palavra da minha editora [risos], mas pronto, agora falta-me uma palavra melhor…

Descomprometida, se calhar.

Sim, descomprometida, exacto. E acho que fui buscar um bocadinho esse espírito como inspiração. O espírito de produtores e de DJs da altura. Nomeadamente, por exemplo, o Luís Leite, como DJ, fazia muito isso, tocar música às vezes mais simples mas que tem ali uma propulsão muito real e alguma crueza, mas também muita emoção.

Numa excelente entrevista que deste à Glamcult, referiste que quando estás a fazer música estás num estado irracional e, consequentemente, a tua música é informada pela parte sensorial e emocional. Nesse sentido, que emoções pensas terem influenciado o New Visions? Além, lá está, dessa homenagem aos inícios da música electrónica.

Para além disso, que acaba por ser uma memória um bocadinho de infância, porque esses big CDs começaram a sair quando eu tinha entre para aí 10 e 15 anos. Para além de ser uma parte de algumas memórias de crescimento, de aprendizagem e de novas amizades, acaba por ser também uma coisa feita com muito sentido de comunidade, não é? Porque a Paraíso é um daqueles projectos locais aqui em Lisboa com que eu me identifico totalmente e que eu quero nutrir ao máximo, por isso acho que deve inconscientemente estar presente esse amor à camisola, esse espírito de equipa que eu tenho com a Paraíso e com outros projectos como a Mina, a Quântica ou a Kit Ket. E de resto acho que é um bocadinho uma exploração ao nível mais sensorial, é uma exploração de um som que pega em algumas referências minhas mais antigas, do início, quando eu comecei com One Eyed Jacks, muito influenciada pelo Marco Photonz, que era um som mais raw, mais acid, mais jack, e eu acho que consegui integrar neste EP esse som de uma forma mais de suave, de breaks e de experimentação sónica futurista, que foram as coisas que me interessaram também nos últimos ano. E eu tenho estado muito interessada na ideia de integrar todas as minhas influências musicais desde pequenina, desde que nasci, sem excepção. Porque eu acho que há uma altura um bocadinho menos madura do nosso crescimento em que começamos a esconder as bases que não são fixes, do nosso gosto. E agora eu estou tipo, “não, olha eu gosto destas coisas todas”, e eu acho que isso se nota pelo menos para mim, eu noto isso na minha produção agora para o EP da Paraíso. Tens coisas desde dancehall, a acid, a breaks, melodias bué saturadamente cute ou whatever, tipo sem tentar ser especialmente dark.

Acho que isso faz imenso sentido: senti exactamente esse lado mais exploratório tanto com o ritmo como com o timbre.

Ya, pois também explorei bastante o ritmo. Usei algumas grelhas triplet e não sei quê para fazer uns snares assim mais diferentes. Ou seja, tecnicamente também tentei explorar algumas coisas novas. Por isso é que eu lhe chamei New Visions, porque tentei que fosse super eu, mas que não fosse a mesma coisa. Porque nós também estamos em constante expansão, não é, estamos sempre a mudar.

Independentemente da influência que vem a ter no próprio trabalho, é sempre interessante perguntar: o que tens ouvido e o que é que te tem fascinado mais ultimamente?

Ok… Eu vou-te confessar uma coisa: eu não sou super enciclopédica com música que vai saindo. Ouço muita música de amigos, por isso, se calhar quem ler isto ou quem ouvir isto, acha que eu acabo por referenciar um bocadinho as pessoas que estão no meu círculo mais próximo, mas é essa música que acaba por me inspirar melhor porque parece que ao conhecer melhor as pessoas sei melhor donde é que elas vêm e percebo melhor a música de alguma forma. Por outro lado, também gosto de apoiar música de pessoas que eu adoro e em quem confio. Mas deixa-me pensar… Ah, olha, por exemplo. Estava agora aqui a fazer um exercício para me lembrar, que estive a preparar ontem o meu primeiro programa na Rinse para fazer uma residência, toquei muita música daqui de Lisboa e toquei a Odete, eu sei que ela saiu na minha editora, lá está, há uma ligação mais pessoal. Mas a Odete inspira-me imenso enquanto produtora, porque eu revejo nela um bocadinho aquilo que eu era há uns anos. Trazer uma perspectiva fresca, ser completamente disruptiva mas transmitir na mesma uma música que tem uma carga emocional bastante forte, e que nunca é a mesma coisa. Ela pode fazer ambient, como pode fazer beats super abrasivos, e consegue sempre transmitir alguma coisa muito forte. Outra pessoa que me tem enviado música, e que eu toquei agora no primeiro show da Rinse, que é mais dedicado a Lisboa, é o Fábio Silva, que ele produz enquanto Fabaitos e ele também faz desde reggaeton a techno mas sempre com texturas que eu adoro, assim texturas meio suaves, meio parecem vocal synths, mas também sempre com uma cadência super interessante e que é bué boa para dançar. O Fábio adora dançar e vai às minas desde sempre. Acho que faz sentido. E depois internacionalmente há muita gente que eu adoro. A Doc Sleep de São Francisco mas que agora vive em Berlim é uma das minhas DJs preferidas e também é uma óptima produtora que tem uma editora que é a Jacktone. Vê-se o toque na produção dela e nas escolhas para a editora, que é super especial, é super dela, e eu identifico-me muito. Adoro a rRoxymore, é uma das minhas DJs preferidas, eu sei que ela está agora a fazer o álbum dela, estou ansiosa por ouvir, mas adorei os dois últimos EPs dela, na Don’t Be Afraid.

Enquanto que a Paraíso tem uma visão mais focada na música portuguesa, a tua naive tenta aglutinar malta internacional também, certo? Ainda no ano passado foram lançados trabalhos de Almaty e Eris Drew, por exemplo. Há uma intenção em desenvolver esta editora como um projecto mais global?

Quer dizer, sabes, o problema é que eu não vejo o global e o nacional. Para mim… quando dei por mim, tinha pessoas que eram portuguesas, que eram americanas, suecas, whatever. Não pensei dessa maneira. Ou seja, nunca pensei a naive nem como um projecto nacional nem como um necessariamente internacional, por isso acho que vai continuar assim. A música que ressoar comigo emocionalmente, e que venha de pessoas com quem eu me identifico também de alguma forma (emocional, mental, política, filosófica, etc), é essa a música que vou lançar na naive, porque no fundo acaba por ser essa a minha “nacionalidade”, quando eu estou a fazer música, e a escolher música. Só acho que não vou definir assim fronteiras mais físicas.

Com que tipo de artistas gostas de te rodear? Quais são os critérios para assinares um artista?

Olha, até agora os artistas que eu assinei, que não são assim tantos, foram coisas que surgiram muito naturalmente, e que eram pessoas que antes de serem artistas das editoras que eu fundei, eram meus amigos e eram pessoas que faziam música que eu gostava, mas também pessoas com quem eu posso ter  uma conversa e estamos sintonizados num comprimento de onda semelhante, em que eu me sinto entendida e sinto que a pessoa está preocupada com as mesmas coisas que eu – nomeadamente preocupada com questões ligadas à paridade… Não sei, para mim é muito importante trabalhar com pessoas que tenham preocupações humanistas, que sejam anti-racistas, etc. Ou seja, essa parte política e filosófica, no fundo, está bastante presente, e eu acho que isso também se reflecte na música, ou seja, eu também acho que isto não está completamente indissociado, percebes? Acho que também, de alguma forma, é por isso que eu gosto de música. Temos referências parecidas, ao gostarmos por exemplo de trazer mulheres, ou pessoas não-binárias à tona, também vamos buscar referências da cultura queer e da cultura negra que se calhar pessoal que está mais focado apenas no techno de Berlim, que vai buscar coisas mais brancas, e mais produzidas só pelo sexo masculino. Então acaba por ser uma coisa de alguma forma filosófica, mas também muito pessoal, emocional, pessoas que eu conheço e que me mandam música, e que naturalmente acabam por fazer sentido. Por exemplo, com a Helena foi assim. Era uma pessoa que eu conhecia só através do Twitter e do Instagram, mas ela punha stories e vídeos dela a fazer música e eu sempre achei que a música era fixe e que um dia em que ela iria fazer qualquer coisa que faria sentido para a naive. Ela começou a mandar demos enquanto falávamos sobre uma variedade de assuntos pessoais, desde tipo saúde mental até ideias sobre o futuro, e as estrelas alinharem-se quando eu recebi as músicas certas, que no fundo já sabia que iam aparecer, não é? De alguma forma. E a mesma coisa com a Almaty, era uma pessoa a quem eu me liguei numa altura… numa altura não, porque eu ainda faço isso, mas numa das ocasiões em que eu fiz workshops de produção voluntários para raparigas, tipo em todo o mundo. Na altura até fiz com ela por Skype. Fiz no Skype shared screen, porque estávamos em países diferentes. Mas com a Almaty foi uma coisa assim parecida, foi uma coisa assim mais natural. Eu dar-lhe umas tips de Ableton, e depois ela depois mandou-me uma faixa incrível. Ela também já trabalhava com o Ableton, eu sei que lhe dei umas luzes de como é que eu fazia certas coisas que ela achava que soavam bem. E assim surgiu naturalmente uma amizade. Ficámos em contacto, por uma questão mais de técnica e não sei quê. Depois ela mandou-me música com a Octo Octa e Eris, também acabou por ser ideia delas, porque elas já gostavam da minha música e da naive, e já tínhamos uma amizade. Já nos tínhamos encontrado em Berlim e em Inglaterra a tocar juntas, e acaba por ser tudo muito assim. Com o Marco Photonz obviamente ele vive comigo, temos uma ligação pessoal e musical já de mais de uma década. A BLEID também é a mesma coisa, é muito minha amiga, é parte da mina. Acabam por ser coisas que surgem muito naturalmente. Agora, não quer necessariamente dizer que tenham de ser amigos antigos. Às vezes posso ter uma, sei lá, ir viajar, ter um gig na Austrália e conhecer pessoas, ter um clique e decidir lançar. Ou seja, não há uma fórmula temporal fixa, eu acho que só tem que haver alguma ligação espiritual e obviamente sónica porque a naive, apesar de não ter assim um mapa sónico muito definido, há coisas que eu gosto e coisas que eu não gosto e necessariamente a naive só vai ter coisas que eu gosto sonicamente.

Sentes uma grande diferença entre lançares por outras editoras – como já fizeste com a Snuff Trax, a One Eyed Jacks ou a Twirl – ou lançares por uma editora que geres?

Sinto alguma. É assim, com a naive, como sou eu que faço tudo, depois promover é sempre uma altura menos… pronto, que me sai menos naturalmente porque estou a promover a minha própria música, não é? Mas também é música em que eu acredito e que se calhar… por exemplo, o meu primeiro EP na naive eu tinha mandado várias demos e não consegui que nenhuma editora lançasse, por isso também era uma coisa bastante pessoal e que para mim fazia sentido porque eu já tinha testado estas músicas e eu sabia que funcionavam. Então é assim uma espécie de um sentimento misto, por um lado não é tão fácil falares sobre a tua própria música, e tentares promovê-la, que é uma parte inextricável de lançar discos, tu tens que os promover, não é? Mas por outro é bastante confortável. Agora, é assim, eu também lancei em poucas editoras e, uma vez mais, foi sempre com amigos ou pessoas com quem eu criei uma ligação fixe, através da música. Por isso também não sei o que é que é por exemplo lançar por uma editora grande, em que tem uma estrutura maior, e tens que falar com vários membros de uma equipa. No fundo, eu acabo por falar só com um ou dois amigos quando estou a lançar nestas editoras e acaba por ser uma coisa bastante transparente e bastante pessoal, em que se eu tiver algum pedido, ele é ouvido em primeira mão, não é? Por isso acho que não é assim tão diferente.

Teres Violet, com que produzes e fazes DJing pelo mundo, gerires a naive, a mina e a Rádio Quântica, e possivelmente mais uns quantos projectos que ainda não viram a luz do dia. Como achas que se ligam todas estas vertentes? Sentes que umas funções influenciam as tuas competências noutros trabalhos, ou vês tudo de maneira separada?

Não, eu vejo tudo de maneira integrada. Acho que tem a ver com aquela coisa que estava a dizer mais cedo de eu decidir, se calhar nos últimos dois anos, uma das minhas grandes realizações individuais, foi esta coisa de conseguir integrar tudo e não esconder nada de mim. Não é esconder, é não esconder de mim própria, não é? Às vezes há aquela coisa quase de espírito de sacrifício de “não, vamos manter tudo separado…”, mas na verdade eu não glorifico esse método de trabalho, porque acho que se as coisas estão a acontecer todas ao mesmo tempo e se os projectos envolvem em alguns casos até as mesmas pessoas, isso acontece por uma razão, e acaba por se alavancar e por se criar aqui simbioses quando as pessoas se juntam. Por isso há projectos que sim, para mim fazem juntos de alguma forma mostrar-se. Tenho pessoas, por exemplo alguns residentes da mina a preparar mixes para a naive; uma das residentes, a BLEID, até já editou comigo na naive e já me remisturou para a naive; a Rádio Quântica abrange quase todo o underground que eu mais respeito, e mais ouço, e mais acho relevante aqui de Lisboa e de Portugal. Por isso necessariamente há muitos intervenientes na Rádio Quântica que acabam por me influenciar e inspirar muito, directa ou indirectamente, por isso vão aparecendo tanto na minha criação musical, como, sei lá, como decido coisas para a naive, também tenho várias pessoas da Quântica que já fizeram, por exemplo, mixes para a naive.

Já agora, uma pergunta um bocadinho mais geral, não tão relacionada com esse aspecto. Como vês o panorama da música electrónica nacional actualmente? 

Olha, vejo com imensa esperança, vejo muitas iniciativas fixes a acontecer, vejo, finalmente, uma mentalidade mais aberta, uma mentalidade mais progressiva — que é uma coisa que para mim também é muito importante. Estão a deixar de haver alguns tabus que não havia, as pessoas começam a achar realmente importante, por exemplo, a representação de género, classe ou raça na música. Porque acredita que há uns anos as pessoas olhavam para ti como se fosse uma ideia ridícula e gosto muito de ver este crescimento e de fazer parte dele também, não é? Porque eu também estou neste barco a evoluir. E depois acho que há muita música boa a sair e há muitas pessoas empenhadas em fazer resultar editoras, festas e isto acaba por ser… o sangue corre nas veias do underground, não é? São coisas a acontecer. Não basta só ter ideias e sonhar. Para fazer as coisas funcionarem, têm que acontecer outras coisas no terreno e eu acho que vão acontecer. E vejo com muita alegria e muita esperança.

Portanto consegues sentir algumas repercussões de todas as tuas investidas para melhorar a representação feminina ou queer na música, cá e fora?

Sim, eu acho que sim. Minha e de tantas outras pessoas que fazem esforços parecidos, eu acho sem dúvida que são coisas que surtem efeito e por isso é que não podemos deixar de trabalhar nelas e de falar nelas, não é? Porque quando paramos de falar a coisa volta ao normal. Volta ao status quo, que é bastante patriarcal e bastante branco. Nós temos de continuar a trabalhar, sem dúvida. Agora, surte efeito, claro que surte. Agora não podemos é parar [risos].

E, já agora, considerando que tens algum contacto com audiências lá fora: como é que achas que de lá olham música electrónica nacional? Sei que disseste que não gostas de ver as coisas divididas…

Eu não vejo as coisas divididas para a naive porque é muito o meu mundo pessoal. Mas claro que também sei apreciar as coisas dentro de fronteiras e também foi por isso que fundei a Quântica, porque também o Marco e eu vimos um mosaico a criar-se aqui em Lisboa que era super interessante e que merecia ter uma voz. E eu acho que há muita curiosidade mas ainda não há muito conhecimento do que é que se passa cá. Mas há muita curiosidade e há, por exemplo, a Príncipe. É uma editora que toda a gente conhece, que toda a gente adora e que eu acho que influenciou nos últimos 5 anos a música electrónica a um nível global e não só cá em Lisboa. De resto, eu acho que há uma grande curiosidade, não só em conhecer os artistas, mas também em visitar e vir ver o que é que se passa, porque eu acho que um bom símbolo de comunidade, e da música, e do que é que realmente se está a passar, é veres festas e como é que elas funcionam, e qual é a política das festas. E eu acho que essa também é uma curiosidade que as pessoas têm, e vês cada vez mais pessoal que vai passar férias a Lisboa, estão à procura destas festas mais underground, para verem como é que são essas movimentações cá em Lisboa, e eu acho que as pessoas vêem com imenso respeito quando descobrem as coisas boas que estão a ser feitas cá.

Voltando ainda ao New Visions, estás a pensar apresentar o EP também noutros formatos?

Ao vivo sem dúvida, eu estou a preparar um live act, já tenho um marcado para Abril, por isso até lá tenho mesmo que o acabar [risos]. Ao vivo, sem dúvida. Vídeo, a componente visual só mesmo se eu fizer colaborações porque eu sou uma naba com a parte visual das coisas [risos] e na verdade não estou a trabalhar nessa parte, embora seja uma componente que eu adore e que eu gostava no futuro de poder explorar melhor. Mas neste momento não estou a fazer nada, estou só a fazer um live act, porque eu gosto muito de performance ao vivo. Já não faço um live act há mais de dois anos, sem ser um especial que fiz no ano passado no Dia da Mulher. E estou a preparar um live act que vai incorporar, não só esta nova música do New Visions, mas também alguma música que já lancei e o meu álbum que estou agora a acabar.

Ok, e o álbum ainda vai demorar algum tempo?

Não, vai sair este ano porque eu estou mesmo a acabá-lo. Ou seja, as músicas estão feitas, eu estou só a fazer os mixdowns das músicas. Bom, isto não é oficial, mas não sou eu que o vou lançar, por isso agora depende um bocadinho da editora que o vai lançar, mas eles são rápidos [risos]. Por isso há-de sair algures este ano. Eu acho que no máximo a seguir ao Verão há-de sair. 

Já agora com o live act, já sabes onde é que vai ser, já está marcado?

É em Londres, num festival chamado Test Pressing. Algures em Abril.

A naive foi nomeada uma das labels do ano pela mixmag, tu foste também referida como das DJs a ter em atenção pela Go London, menções na Pitchfork, na Resident Advisor e na FACT…  Para além disto tudo, do álbum que aí vêm, o que nos podes adiantar sobre 2019? Qual é o futuro disto tudo?

É assim, eu já tenho alguns planos porque já tenho a minha agenda bastante planeada até Dezembro, em termos de actuações. Ou seja, vou estar a tocar, vou estar a fazer tours durante o fim-de-semana, que é uma parte que eu gosto muito e eu adoro tocar, sem dúvida. A minha componente DJ é muito importante para mim, mas a mais importante é mesmo fazer música, e tenho tido este tempo, agora que parti a perna, para fazer música em casa, algumas colaborações. Estou muito entusiasmada com elas, ainda não estão anunciadas, mas tenho algumas colaborações mesmo muito exciting para mim, nas quais estou a trabalhar. Tenho o álbum e depois tenho a naive, que é uma coisa que adoro fazer e que também já planeei os próximos cinco releases que vão acabar por cobrir quase o ano inteiro. Bom, temos agora o da Helena, a seguir será Overland (uma rapariga canadiana), depois é o segundo EP da Almaty, depois vem Photonz, depois venho eu com dois remixes muito especiais de dois ídolos meus… Por isso tenho aqui várias coisas para fazer, por acaso até já tenho o ano bastante planeado e vai ser uma mistura disto, não é? Fazer música, lançar música e tocar. 


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