Vasconcelos Crew apresenta Quente Bar: “Sentimos necessidade de fazer um projecto mais sério”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Eduardo Gonçalves

Foram quase dois anos sem novidades, mas o quinteto de Coimbra mostrou que está aí para ficar. Haka, Claustro, mcf, Litos e Nolasco uniram esforços em Quente Bar, o novo EP com assinatura do colectivo Vasconcelos Crew e capa de Riça.

O aviso foi dado durante as derradeiras horas de 2018 quando os videoclipes de “Rodízio de Trips” e “Tipo Kanye” aterraram no YouTube, os primeiros avanços do mais projecto da VC. Poucos meses depois, já com todas as arestas limadas, o grupo voltou a fazer-se ouvir em “Vasconcelos”, o último single extraído de Quente Bar, que saiu nas plataformas digitais no mesmo dia.

Os seis temas apresentados pelo colectivo de Coimbra assinalam o regresso de mcf ao microfone, ele que assinou a produção do projecto. A gravação, mistura e masterização ficou a cargo de Mic, que ajudou a esculpir o trabalho na sua Sine Factory e assegurou ainda a presença no refrão de “Pelo Preço”. Zim, músico e reputado realizador de videoclipes no panorama nacional, encerrou a lista de convidados deste Quente Bar.



Vamos começar pelo título: que ideia é esta de Quente Bar?

[Claustro] Se conseguíssemos ter acesso a um heat map do movimento de cada um de nós na cidade de Coimbra, entre 2016 e 2018, a mancha vermelha deveria centrar-se ali no cruzamento das ruas António Vasconcelos com a Antero de Quental, zona onde morávamos quase todos e onde existia a Maria Nabiça, uma mercearia/bar, onde ainda existe a loja de conveniência Snack Attack e uma república de estudantes onde também morámos quase todos. Mas sim, está lá o Quente Bar e o Quente é um tasco, mas não um qualquer. Para nós tem uma mística. E essa mística levou-nos a dar esse título ao EP.

[Haka] É difícil resumir as dimensões do Quente, até porque o Quente a que vamos hoje em dia não é, para nós, o mesmo Quente que começámos a frequentar há meia dúzia de anos (ou mais). Começou por ser o ponto de encontro para uns quantos amigos que viviam nas redondezas e que, por uma série de motivos, se sentiam bem naquele sítio. Claro que os mais velhos olhavam para nós com alguma desconfiança, o que acaba por ser normal numa cidade como Coimbra, onde é difícil criar laços e raízes permanentes. Mas agora também somos parte da mobília que no início caricaturávamos.

Passaram dois anos desde que se deram a conhecer ao mundo enquanto colectivo com um EP homónimo. Quando é que as peças se voltaram a alinhar para começar a trabalhar neste novo projecto? Existiu algum “clique” que tenha despoletado o arranque dos trabalhos?

[Litos] Vamos traçando o caminho e os objectivos da crew através do contributo de cada um. Sem nunca comprometer os gostos e os filtros individuais, aproveitando cada furo na rotina para ir a estúdio e, também, aperfeiçoando técnicas de criação. Quanto ao “alinhamento das peças”, apenas podemos afirmar que tudo foi feito com calma e sempre com a certeza de que todos estávamos confortáveis com o que estava a ser criado. Ou seja, na verdade nunca fomos alinhando essas peças, mas sim tentando não deixar que se desalinhassem. Depois disso houve de facto não um, mas alguns cliques para estarmos neste ponto, tais como a superação do trabalho anterior, que não tinha sido feito com um objectivo tão sério.

[mcf] Sentimos necessidade de fazer um projecto mais sério, com melhores condições.

O Quente Bar foi feito de forma presencial com todos os membros do colectivo? De que modo se procedeu o processo criativo e técnico do projecto?

[mcf] Juntámo-nos uma tarde e eu mostrei alguns instrumentais. Fizemos a nossa escolha e definimos um bocado a vibe que os sons iam ter. Depois cada um escreveu as suas partes. Só em estúdio é que apresentámos o que cada um trouxe e definimos as estruturas dos sons. Tanto na gravação como na mistura, estivemos os cinco presentes em estúdio.

O EP dá a conhecer uma nova faceta do mcf que, além de prestar serviço ao microfone, alinhou num estilo de instrumentais mais virado para as sonoridades do trap, afectando, claro, o desempenho de todos os intervenientes. Foi algo planeado, esta mudança de ares a nível dos beats? O que esteve na base desta metamorfose do colectivo?

[mcf] Comecei nesta cultura pelo microfone e entretanto fui-me dedicando mais à produção, mas na altura em que começámos a formar aquilo que viria a ser a Vasconcelos Crew fui inspirado por eles. Estava desligado da música e foi este projecto que me voltou a puxar. A mudança no estilo de beats acho que é uma coisa natural. Hoje em dia não vejo muito as coisas como trap ou boom bap, é mais um caldeirão de influências de todo o rap que ouço. Mostrei os beats àmalta e ficaram. Como produtor do grupo, sei que posso moldar um pouco os projetos da crew a nível da sonoridade, mas sinto-me bem com esse papel.

Colaboram aqui com o Zim e o Mic, duas vozes discretas do circuito nacional mas com valências dadas noutros ramos directamente ligados à música. Como se deu a ligação e o que vos levou a optar por estabelecer estas parcerias?

[Haka] Conheço o Mic e o Zim desde que tínhamos 15/16 anos e sempre colaborámos de forma natural. Desta vez o Zim até gravou sem nos dizer, enquanto o Mic lhe mostrava o EP na Sine Factory. Gostou do tema, fechou a parte dele na hora e enviou-nos para ver se gostávamos.

[mcf] A primeira vez que trabalhei com o Mic foi na gravação do EP dos AVC. Dou-lhe sempre liberdade de criatividade quando trabalho com ele. Desta vez ele sentiu vontade de fazer o refrão e todos gostámos do resultado. Também conheci o Zim nessa altura e, desta vez, a parceria foi de forma muito natural, como disse o Haka.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira