Vasco Sacramento (Festival F): “Começamos a notar uma maior preocupação com o som e o espectáculo no hip hop português, que antigamente não acontecia tanto”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Também a sul de Portugal conseguimos detectar a tendência que tem afectado os maiores palcos de Verão. A programação da edição deste ano do Festival F reflecte a força do rap no território nacional, um género musical que domina a música de massas, acompanhando o fenómeno que se vive nos Estados Unidos da América, muito graças ao facto de já ombrear qualitativamente com o país que o viu nascer.

“Começamos a notar agora uma maior preocupação com o som e o espectáculo no hip hop português, que antigamente não acontecia tanto. Isso faz com que as actuações sejam cada vez mais interessantes e mais ricas”, constatou Vasco Sacramento, director da Sons em Trânsito, a promotora responsável pelo Festival F.

Papillon, Slow J, Piruka, DOMI, Holly Hood, DJ Glue ou Bispo então entre a comitiva de rap nacional a seguir viagem para Faro, incluindo-se num certame que oferece ainda vários workshops ligados à arte das rimas e batidas, bem como um espaço inteiramente dedicado à curadoria de Gijoe, um dos mestres sulistas do DJing. O Festival F acontece entre 30 de Agosto e 1 de Setembro e os horários das actuações já foram revelados pela organização.

O Rimas e Batidas foi até ao Capitólio para conversar com Vasco Sacramento acerca deste irresistível fenómeno, que está — a pouco e pouco — a reflectir-se na programação dos maiores festivais portugueses. O hip hop está de boa saúde e recomenda-se. Perdão: o hip hop português está óptimo e a respirar como nunca antes respirou.

 



Se fosses um agente de turismo, de que forma vendias uma visita ao recinto do Festival F?

Eu costumo dizer que o recinto é um dos pontos altos do Festival F. Porque é um recinto que se situa na Vila Adentro, a zona histórica de Faro. É um recinto muito rico. Há património histórico — tens um museu, a Sé, o seminário —, património industrial — tens vários armazéns que estão desactivados e que utilizamos para o festival — e um património natural brutal, porque que a Vila Adentro faz fronteira com a Ria de Faro e o cenário e a vista são deslumbrantes. Esse é o primeiro vector de atracção, digamos assim. Depois, é claro, vem a programação, na qual a música é o prato forte do Festival F. Mas além da música, que é o nosso core business, há uma proposta artística muito vasta, que vai da gastronomia, ao teatro, stand up comedy, video mapping, gaming, tertúlias…

Vão oferecer vários workshops aos vossos visitantes, outra das atracções alternativas do Festival F. Vai ser possível aprender a fazer música hip hop, beatbox, construção de instrumentos. Além da programação musical, também aqui há uma ligação forte ao hip hop, bastante mais vincada este ano.

Este ano, nós quisemos aproximar-nos do hip hop. Não é que não tenhamos tido hip hop nas outras edições — até porque já levámos a Faro alguns dos principais artistas nacionais do género — mas este ano, indo ao encontro do fenómeno que está a acontecer em todo o lado, nós quisemos aprofundar o hip hop. Aprofundar primeiro no cartaz — temos mais hip hop este ano do que nos outros anos — e depois através das actividades paralelas. Nesse sentido, criou-se a oportunidade de termos este ano alguns workshops ligados a essa área. Vamos ver como é que corre, é uma primeira experiência. Mas estamos optimistas de que vão ser um sucesso.

Dentro dessas atracções paralelas também está incluída uma curadoria de três dias assinada pelo Gijoe, um dos grandes veteranos na cena hip hop algarvia.

Eu vou ser muito sincero: eu não sou uma pessoa directamente ligada ao hip hop. Eu não conhecia o Gijoe. Foi a malta da câmara de Faro que o sugeriu. Para nós, fez todo o sentido atribuir-lhe essa curadoria, bem como a orientação para os workshops, porque o festival, além de querer dar uma visão alargada do que é a música nacional, tem sempre a preocupação de ter também artistas locais, de fazer mexer a comunidade musical local. Temos também o Sacik Brow ou o DOMI, por exemplo. Fazia todo o sentido envolver a comunidade hip hop local. Não só envolvê-los como performers mas também do ponto de vista da organização. Foi por isso que recorremos ao Gijoe para nos ajudar.

Em que estado é que achas que se o movimento hip hop a sul de Portugal?

Não tenho total certeza. Mas a sensação que eu tenho, sempre que organizo concertos de hip hop no Algarve, é que têm uma comunidade muito vibrante. A razão pela qual estamos a apostar mais no hip hop este ano tem também a ver com esse feedback dos concertos em anos anteriores. No Festival F espalhamos o hip hop por todos os palcos, mas há um em específico, no qual todos os anos a festa se prolonga até mais tarde, que é o palco da Sé. Já lá recebemos Dillaz, Mundo Segundo e Sam The Kid, Valete… Há muita gente por ali. Dá-me ideia que a maioria vem da zona da Quarteira, que tem uma cena já muito dinâmica, muito forte.

E para alguém como tu, que não está tão por dentro de tudo o que se passa no hip hop, há algum artista que tenhas convidado para a edição deste ano que te suscite especial curiosidade para ver ao vivo?

Vários. Não sendo uma pessoa do hip hop, eu gosto de hip hop há muitos anos. Primeiro, porque eu sou um apaixonado pela palavra. Estou muito ligado a outros estilos musicais — sou manager da Ana Moura, Pedro Abrunhosa, António Zambujo, Luísa Sobral, Rita Redshoes, Gisela João, etc. Quando trabalho com fado, por exemplo, a questão da palavra tem uma importância muito grande. No caso do hip hop isso também acontece. Sempre fui bastante seguidor daquela malta que é da minha geração, estamos a falar de Sam The Kid, Valete, o Carlão — e os Da Weasel, neste caso, até são mais velhos do que eu.

Este ano eu estou muito curioso para ver o Slow J porque eu nunca o vi em palco. Acho o trabalho dele muito interessante. Até porque, sendo hip hop, dá-me a ideia de que ele é muito aberto a outras linguagens musicais e acaba por criar um som muito próprio e muito interessante. Gosto muito do Papillon, também. Sinto que há ali até uma ligação entre os dois. É verdade que o Slow J teve um papel importante no disco dele, talvez seja por isso. Também tenho muita curiosidade para ver o Piruka, que também nunca tive oportunidade de assistir ao vivo. E sendo ele um fenómeno gigante, quero muito ver. Quero ver o seu espectáculo e a reacção das pessoas. E para além dos que lá vão este ano e dos que já lá estiveram, há ainda mais uns quantos artistas que podiam perfeitamente actuar no F. Posso dar-te o exemplo dos Wet Bed Gang. Há um poço de petróleo que continua a expelir talento dentro da cultura do hip hop.

Podemos então presumir que a aposta no hip hop será para continuar ou vão primeiro querer ter o feedback do público como garantia?

Nós tentamos sempre que o cartaz seja o mais abrangente possível e que vá a todos os géneros. Desde a Orquestra Clássica do Sul aos Moonspell. Nós vamos a todo o lado e é esse o objectivo. O Festival F propõe-se a traçar uma radiografia da cena musical portuguesa na actualidade. Há géneros que funcionam melhor em determinadas regiões do que noutras. Estou a lembrar-me do hip hop mas também do metal ou até mesmo o fado. Eu acho que o Algarve, para o circuito do hip hop, é indispensável. E há outra coisa: começamos a notar agora uma maior preocupação com o som e o espectáculo no hip hop português, que antigamente não acontecia tanto. Isso faz com que as actuações sejam cada vez mais interessantes e mais ricas. Até estou aqui com uma ideia, vou dizê-la ao mesmo tempo que penso nela: nós este ano vamos juntar a Orquestra Clássica do Sul à Katia Guerreiro e, para o ano, seria giro juntar a orquestra a um rapper.

 


Papillon // Deepak Looper

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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