Vasco Martins: “Este disco, para mim, já estava nas dobras do tempo”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Depois da reedição de Mr. Wollogallu de Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro pela catalã Urpa i musell, Barcelona volta a prestar atenção à música que de alguma forma se liga a Portugal com o oportuno relançamento de Universo da Ilha, trabalho de 1986 da autoria do teclista e compositor Vasco Martins, originalmente alvo de uma prensagem privada tornada possível graças ao investimento de um mecenas francês e agora reapresentado ao mundo graças à acção da nascente Canela En Surco, etiqueta também operada a partir de Barcelona

Num momento em que a indústria da memória reimpressa em vinil se encontra em ebulição graças à acção de editoras como a Music From Memory ou a We Release Whatever The Fuck We Want Records, é mais do que evidente o interesse nas explorações do “quarto mundo” levadas a cabo nos anos 80 por estetas como Haruomi Hosono ou Jon Hassell. Ver que um disco produzido em Cabo Verde e redescoberto em Lisboa se encaixa na perfeição numa corrente que representou um pensamento avançado na década de 80 significa também constatar que o nosso passado continua cheio de pequenos segredos que urge redescobrir.

Conversámos há um par de meses com um prestável Vasco Martins que não escondeu a surpresa sentida por saber do interesse num disco de que já nem ele mesmo guardava nenhum exemplar original.

 



Como recebeu e encarou a proposta de reedição de Universo da Ilha?

Se bem me lembro foi há uns dois anos que recebi o primeiro e-mail do Abu; alguma indiferença: pensei que fosse uma espécie de moda à volta do vinil, mas o Abu insistiu e acabei por responder: “ok, pode avançar”; não estava entusiasmado é verdade, muito embora seja um álbum de que muito gosto, mas para mim já estava nas dobras do tempo.

Surpreende-o que haja interesse num trabalho lançado há mais de 30 anos?

Surpreendido, sim. Depois deste interesse estive a vasculhar na web e encontrei entusiastas; a venda online também; foi um vinil que teve uma espécie de “êxito” quando saiu; agora vejo, quando anunciei a reedição no facebook, que existem pessoas que ainda guardam o LP e estão contentes com a reedição; fico feliz com isso.

Fale-me sobre a criação de Universo da Ilha: este disco faz parte de um período criativo em que a electrónica desempenhava um papel importante no plano expressivo. Que instrumentos usou, como teve acesso a eles?

Nunca tinha até então gravado um álbum de música electrónica; cassetes que oferecia aos amigos sim; isso desde os tempos de Paris, nos princípios dos anos 80 (já agora: a música electrónica ainda representa um papel expressivo fundamental no que vou fazendo); quando adquiri o Yamaha Dx7 decidi então gravar um álbum que podia ir em muitos sentidos: ambient, world, improvisação…

Não tinha planos feitos: salvo as canções que foram compostas antes, tudo foi feito nos 2 ou 3 dias de estúdio; foi um projecto que envolveu poesia: saiu também um livro de poemas ilustrado pela Luísa Queiroz que também fez a linda capa do disco; foi deveras mágico: dentro daquilo que se chama genericamente como “realismo mágico”, expressão de que até gosto.

Convidei o Neney para cantar: é de Santiago: tem uma voz gutural e um timbre particulares; o Luís Morais a tocar sax alto; vozes off do grande pintor Manuel Figueira e do meu sobrinho Lari, que na altura devia ter 8 anos (agora é um muito bom violinista, com formação); a magnífica percussão do Tei Gonçalves; um solo simples de violão do Calu, que na altura tocava também baixo comigo no grupo Gota d’Ága; as sequências foram feitas no estúdio; as sequências/frases do Dx7 foram em real time; os chord-drones, como não tinha ainda o “midi-sytem”, foram a “desenrascar”: pedal em cima das teclas; um bass-drone com o dedo da namorada do engenheiro de som; enfim: como está a ver, tudo foi bonito e deveras “mágico”.

Sobre os instrumentos, é esta a lista: os Korg Ms 20, Ms 50, Delta e Analog Sequencer-Sq 10 (que foram comprados em Paris quando lá estudava), o Yamaha Dx7 comprado na Suíça por um amigo cooperante suíço, o Ferry Both, e o Roland Juno 106 emprestado pelo compositor e músico Vlu; a gravação foi feita directa para um gravador de fita Akay e o mixer usado foi o Peavy Mark IV/16; o belo reverb foi do mixer; o Fonseca Soares, engenheiro de som formado na INA, fez a alquimia.

O financiamento do fabrico do disco (o mecenas anónimo) foi o francês George Mahler, que tinha na altura alguns empreendimentos em S. Vicente. Não me lembro porque quis ficar no anonimato, já que tinha uma empresa. Faleceu há alguns anos. Foi um dos primeiros fãs deste álbum.

Onde foi gravado este álbum?

Foi gravado na Rádio de S. Vicente (ou Rádio Voz de S. Vicente). Hoje em dia faz parte da Rádio e Televisão nacional RTC.

Estava de alguma forma em contacto, directo ou indirecto, com outros músicos que realizavam experiências musicais semelhantes, como Hiroshi Sato ou Haruomi Hosono no Japão ou Jon Hassell nos Estados Unidos?

Com os músicos que cita não: só vim a conhecer o Hiroshi Sato em 2003, acho; o Haroumi Hosono não conheço, mas agora que fala dele vou conhecê-lo; o Jon Hassell talvez tenha ouvido nos finais dos anos 70, mas foi tangencial; não creio que me tivesse motivado; algo curioso: quase sempre críticos ou jornalistas, ao falarem da minha música, citam outros músicos, muito bons; uma espécie de referência paralela; alguns conheço é certo, mas na maior parte não; por exemplo: foi um crítico português que ao escrever sobre o meu álbum Quiet Moments nos anos 90, mencionou o Kitaro e o Wally Badarou: não os conhecia e adquiri imediatamente álbuns dos dois, de que gostei muito, sobretudo do Wally Badarou; vendo bem as coisas, passados estes anos, creio que na música electrónica dos anos 80, as minhas referências são estas: Vangelis (da prodigiosa fase do Nemo Studio), Klauz Shulze, Emerson (Lake and Palmer), Walter (Wendy) Carlos, Patrick Moraz, Joe Zawinul, Tomita… ; de forma directa: fui várias vezes ao Ircam em Paris ouvir música electrónica “abstracta”, deambulei pelas lojas dos sintetizadores a experimentar, quando me deixavam, os moogs, prophets, korgs, etc., e tive alguns workshops com compositores da chamada música “electro-acústica”. E assisti a memoráveis concertos de grande músicos e de todas as estéticas. Mais tarde vim a conhecer outros músicos que usam sintetizadores e que aprecio.

Via a música que produzia nesta altura como ligada ou separada da tradição de Cabo Verde?

Na tradição musical não acho; na tradição poética-ambiental sim: aliás o título do álbum, Universo da Ilha aflora essa perspectiva. “Em cada pedra virada para a Lua há um mistério”, como cantou o Neney (em crioulo); esta simples frase define o álbum: uma “nova” visão da música em Cabo Verde, a geo-poética, a procura de uma necessidade vertical de exprimir sentimentos abstratos e os ambientes paisagísticos de Cabo Verde. Continua a ser o meu apanágio, mesmo quando vou à tradição musical das ilhas.

Que pensa de uma editora em Barcelona estar agora a relançar este trabalho?

Como disse, foi inesperado como muitas coisas inesperadas, o mundo abre-se com bom “karma”. São boas pessoas, honestas, positivas, melómanos e algo “descobridores”. Agora são meus amigos! Espero que tenham escolhido bem e que tenham sucesso.

Que outros dos seus discos pensa que seguem o mesmo espírito de Universo da Ilha e que poderiam merecer atenção no presente?

Creio que o Universo da Ilha seja um caso único da minha discografia (na música electrónica, contando com os álbuns digitais, são 12 ou 13); no entanto julgo que o LP Oceano Imenso (’88) seja uma espécie de continuidade. Mas são diferentes.

Continua activo com novos projectos em que a electrónica desempenha papel central: fale-nos dos seus projectos mais imediatos…

Depois de me ter debruçado durante anos sobre a música sinfónica (9 sinfonias, concertos, peças sinfónicas várias) comecei de novo há já algum tempo a compor, dar concertos e a fazer “updates” (novos instrumentos, novas técnicas, nova estética); para mim a música electrónica é algo muito forte, com um grande apelo expressivo. Em 2016 (e 2017 digitalmente) lancei o álbum Essential Interaction; isso depois de 2003, do lançamento do álbum (raríssimo) Sarva Mangalam que saiu em Paris. Um intervalo de 13 anos, agora reparo…

Como disse, estava embrenhado na música sinfónica e noutros projectos. Mas nunca esqueci os sintetizadores: com o Kurzweil k 2600, um absoluto grande sintetizador, o Korg Wavestation e outros, continuei a dar concertos a a fazer “home recordings”. Tenho muita coisa gravada que considero interessante. Aliás no YouTube estão alguns temas. Gravei “Seven Trantric Pulsars” sem pensar em editar um álbum, mas para experimentar o bom estúdio do Jorge Nunes aqui na ilha. Resolvi no final de 2017 inclui-lo nos álbuns digitais/streaming; está no cdbaby; aos amigos e interessados em comprar, envio o link em formato wave via SoundCloud.

Agora comecei a adoptar, em concertos, a técnica do “real time” sem uso de laptop auxiliar, tal como fazia nos anos 80. Também nas gravações que vou fazendo. Para isso, adquiri outros instrumentos, quase todos analógicos e escolhidos à mão. Volto de novo às sequências, aos music drones, improvisações, “sinfonismo”, rítmica, envolvência ambiental. Cada concerto, mesmo se tem temas estabelecidos, é sempre novo. Bom para o público (espero) e muito bom para mim, já que, como performer, gosto de ter prazer no que exprimo. Pois a meu ver, quando se repetem temáticas, perde-se esse prazer porque as coisas se tornam rotineiras. E a rotina é o desfalecimento da arte e da vida.

O meu novo álbum para este ano chama-se Partum Spiralis. Já está em andamento e pode-se ter acesso ao memorando do ‘work in progress’ na minha página na WordPress. Penso fazer uma tiragem limitada em vinil com a minha assinatura, além de CD e talvez o coloque no streaming. O Universo da Ilha é expansivo. Partum Spiralis, também “inserido” nesta pequena ilha onde vivo (227 km), creio ser mais introspectivo.

PS: O álbum Partum Spiralis de Vasco Martins foi entretanto lançado, já depois da entrevista ter sido realizada, e pode ouvir-se seguindo este link.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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