Vários Artistas // Electrical Language: Independent British Synth Pop 78-84

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Logo nas primeiras páginas de The Speed of Sound, as memórias de Thomas Dolby que ostentam o subtítulo Breaking the barriers between music and technology (Icon Books, 2017), o autor explica que quando sentiu o impulso para formar a sua própria banda, inspirado pelos concertos em que estava envolvido como técnico de som (Dolby conta que nos primeiros dois meses de 1978 operou a mesa de mistura para gente como The Fall, Gang of Four ou Blancmange), colocou um anúncio no Melody Maker com o objectivo de entrar e contacto com músicos que partilhassem as suas referências: “Cabaret Voltaire, Throbbing Gristle, Pere Ubu ou os The Normal.”

“Windpower”, tema que mereceu edição em single e que integrava o alinhamento de The Golden Age of Wireless, álbum de estreia de Thomas Dolby lançado em 1982, abre a recém-lançada caixa Electrical LanguageIndependent British Synth Pop 78-84 (Cherry Red), uma bem vinda antologia que se estende por 80 faixas repartidas por quatro CDs.

Dolby — na verdade Thomas Morgan Robertson (nenhuma relação com o senhor Ray Dolby, inventor do sistema de redução de ruído que foi baptizado com o seu próprio apelido) — nasceu em 1958, tinha acabado de entrar na adolescência quando o homem pisou a lua, há precisamente 50 anos, e cresceu, como de resto muitas outras pessoas da sua geração, fascinado com as promessas de futuro contidas na emergente tecnologia electrónica que lentamente se foi infiltrando na música popular graças aos pioneiros esforços de gente como Gershon Kingsley ou Jean Jacques Perrey.

No primeiro capítulo de The Speed of Sound, Dolby relata também como uma visita ao caixote do lixo que ficava ao lado da loja da EMS (a marca criada por Peter Zinovieff e Tristram Cary que foi responsável pela produção dos ainda hoje muito cobiçados e celebrados VCS 3 ou Synthi A) rendeu um Transcendent 2000, o mesmo sintetizador barato que se montava por módulos a partir de esquemas publicados na revista Popular Mechanics e que Bernard Sumner dos Joy Division — e mais tarde New Order — construiu e usou também logo em Unknown Pleasures (tal como relatado no excelente documentário da BBC Synth Britannia).

“Mal saí do meu quarto durante vários dias”, escreveu Dolby, referindo-se ao período que se seguiu após ter remontado o Transcendent 2000. Dali, o músico só saiu para ir ver uma banda que estava a tocar numa cave de Ladbroke Grove, os Throbbing Gristle que levaram os Clock DVA para a primeira parte. “O local estava cheio de tipos com borbulhas, todos vestidos com anoraks”. Esses “misfits” e “estudantes de arte” (como haveriam de ser descritos por Neil Tennant, futuro membro dos Pet Shop Boys que à entrada dos anos 80 foi editor da revista pop Smash Hits), que do punk herdaram o impulso de fuga à norma mas não se mostravam particularmente interessados em pegar em guitarras, foram os responsáveis pela criação da “linguagem eléctrica” a que se refere o título desta antologia.

O segundo tema de Electrical Language, “Science Fiction”, pertence ao obscuro Alan Burnham, músico que editou apenas um single em Janeiro de 1981, produzido por Daniel Miller, o fundador da Mute, “Music to Save The World By” (tema que, aliás, integrou o alinhamento de outra compilação da Cherry Red, Close to the Noise Floor – Formative Uk Electronica 1975-1984), e em cujo lado B se escondia a faixa aqui apresentada. Entoa, certeiramente, Burnham: “it’s all science fiction/ it’s all just a prediction/ of things to come/ things to come for us all”. Os versos bem que podiam descrever o que músicos como o próprio Burnham ou Thomas Dolby começavam, em finais dos anos 70, a fazer um pouco por todo o mundo: uma década volvida após o “pequeno passo para o homem” que foi, de facto, “um salto gigante para a humanidade”, quando as salas de cinema estavam inundadas de fantasias futuristas (o primeiro filme da saga Star Wars estreou em 1977), a literatura fantástica explorava distopias que ensombravam o amanhã (A Scanner Darkly, de Philip K. Dick, foi publicado em 1977, Vermilion Sands, de J.G. Balard em 1971) e o mundo se preparava para a chegada massiva dos computadores à realidade doméstica, muitos artistas com mentes exploratórias não aceitavam propriamente o “no future” proposto pelo punk procurando antes nos estranhos ruídos que se desprendiam de caixas cheias de misteriosos botões e nomes que pareciam resgatados eles mesmos à ficção científica — Korg, Moog, Transcendent 2000, Drumulator, Oberheim… — um vislumbre de um futuro alternativo.

As notas de capa de Electrical Language assinadas por Dave Henderson da revista Mojo balizam as bandas incluídas no alinhamento entre as que eram produto do já referido impulso punk e que viram nos primeiros sintetizadores amplamente disponíveis e financeiramente acessíveis uma forma prática de colocar em marcha o mantra DIY e, por outro lado, os descendentes directos dos Kraftwerk e de outras bandas alemãs similares, “mais cerebralmente inclinados”, “futuristas inspirados pelo visual discreto” dos homens de Man Machine. Ou seja, os tais “misfits” e “estudantes de arte” anteriormente referidos. A compilação explora, portanto, e ainda nas palavras do jornalista da Mojo, “o lugar onde reluzentes canções pop de três minutos, tortuosas peças experimentais e uma moderna cultura de clubes podiam co-existir.”

E isso significa um amplo alinhamento pontuado por nomes imediatamente reconhecíveis, como o já mencionado Thomas Dolby, os The Normal de Daniel Miller, os Colourbox, Be-Bop Deluxe, Orchestral Manoeuvres in the Dark, New Musik, Legendary Pink Dots, Human League, Thomas Leer e Fad Gadget, Colin Potter, Eyeless in Gaza, Pink Industry, Section 25, Tim Blake ou Paul Haig e uma horda de bandas e artistas que limitaram a sua existência a um par de singles ou a um solitário álbum, caso do igualmente já nomeado Alan Burnham, mas também de Testcard F (banda de Norwich com dois singles editados em 1983 e 1984), Chain of Command (trio da zona de Liverpool com uma única cassete auto-editada em 1983), Schleimer K (dois álbuns lançados em 1981 e 1983), Drinking Electricity (um álbum solitário de 1982), Basking Sharks (um álbum e uma cassete lançados em 1983 e 1984) ou, entre tantos outros, os Quadrascope (que lançaram um único single em 1983).

Na indústria das reedições fala-se muito em disponibilizar amplamente música que nunca se ouviu fora de determinadas regiões, mesmo que tenha aquando do seu lançamento original obtido considerável sucesso, caso de tantos relançamentos de obras africanas ou sul-americanas, por exemplo. Neste caso, trata-se de voltar a disponibilizar música que nunca se ouviu fora do seu tempo. Muitos destes nomes mais obscuros (só mais alguns, como sugestão para eventuais pesquisas: Ice The Falling Rain, Poeme Electronique, Voice of Authority, A Popular History of Signs, Laugh Clown Laugh, The Limit, Electronic Ensemble, Beasts In Cages, Zoo Boutique, The Fast Set ou ainda The Toy Shop e Solid Space) traduziram em curtíssimas discografias um impulso criativo alimentado por uma vertigem de um novo tempo que estava então a nascer, acusando o síndrome colectivo que Alvin Toffler identificou como “o choque do futuro”, a ideia de que “muitas mudanças estavam a ocorrer num curto período de tempo”. Essa velocidade de um tempo em que a ficção científica se revelava, afinal de contas, simples previsão de um amanhã que poderia estar a escassos cinco minutos de distância inspirava estonteantes peças como “The Human Factor” dos Music For Pleasure, um tema rápido, criado para dançar no clube do subúrbio, enquanto se falava de “greves de transportes” e de “vozes que se erguem”. Vozes que, certamente, falariam a “linguagem eléctrica” evocada pelos Be-Bop Deluxe de Bill Nelson, banda que no seu último álbum de 1978, inspirada pelos passos de David Bowie ao longo do muro que dividia Berlim, tentou aprender uma nova língua, tomando os sintetizadores como substitutos das guitarras com que ergueram boa parte da sua discografia. “I speak to you through electrical language/ Sometimes you hear me when our frequencies meet/ You try to listen but you don’t understand it/ Turn up the rhythm and you’ll pick up the beat”. Andróides que sonhavam com carneiros movidos a volts e humanos que aprendiam a falar uma linguagem eléctrica. Era bem mais simples, imaginar o futuro nesse tempo, certo?


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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