Uno sobre Meu Filho: “Senti que estava a dirigir-me para um filho meu que nunca me tivesse conhecido ou que nem sequer tivesse nascido”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Wojtek Ścibor

“Interior de Portugal” é o novo single de Uno e antecipa o seu próximo trabalho, Meu Filho, que verá a luz do dia no decorrer de 2020.

Quase um ano após ter optado pel’O Caminho Mais Difícil, Diogo Colaço chegou na semana passada ao “Interior de Portugal”. Nos últimos anos o rapper e produtor tem-se dividido entre Lisboa e Covilhã, este último o local onde mais forças ganha para se manter activo e produtivo e que agora surge retratado numa das suas faixas, servindo de metáfora para o nosso próprio interior enquanto seres humanos, que considera encontrar-se cada vez mais “desertificado”.

O novo tema tem Uno creditado no instrumental, mistura, letra e voz, registo que será predominante pelo alinhamento de Meu Filho. “Interior de Portugal”, o primeiro avanço, foi apresentado com um videoclipe realizado por Alexandre Moutinho, da Estação Colectivo Artístico, e antecipa um ano ambicioso para o artista lisboeta, que revelou ao ReB ter mais outros trabalhos colaborativos na manga para atacar os meses que se seguem com alguns dos seus habituais parceiros.

Uno sobe ao palco do TGB, na Covilhã, este sábado, dia 14 de Dezembro, ainda com as músicas de O Caminho Mais Difícil na bagagem. A primeira apresentação ao vivo de Meu Filho já está marcada e terá lugar na edição de 2020 do Tugatek, que arranca no final do próximo mês de Agosto.



Traças aqui um paralelismo entre o interior de Portugal e o teu próprio interior enquanto ser humano. Que ideias são estas que desabafas na tua nova faixa e de que forma é que achas que estes dois interiores se interligam?

Quando comecei a ir ter com o Puto P à Covilhã (há uns 9/10 anos), a passar férias com a malta em zonas do interior da tuga, ou a trabalhar na [apanha da] fruta, percebi que a adrenalina que a maior parte da malta sente nas grandes cidades eu sinto nesses spots. Não é uma questão de viver pacificamente, para mim é viver mais vivo. Trabalho mais, encho mais a cabeça, vejo menos guita, fico mais positivo e preciso disso. Muita gente sabe do que estou a falar e sente o mesmo, e muita gente ridiculariza. Esta faixa é um incentivo para mim e para todos os que querem fazer uma mudança que por vezes parece impossível.

Estamos prestes a comemorar o primeiro aniversário de O Caminho Mais Difícil, o teu último álbum a solo, que te abriu algumas portas para que pudesses actuar de norte a sul do nosso país com maior regularidade. Sentes que marcou uma mudança na forma como as pessoas consomem e olham para a tua música ou ainda achas que este é o trajecto mais complicado de se percorrer?

Ninguém queria/podia pagar-me para dar concertos e eu queria muito apresentar o projecto. Então, uns meses depois de ter lançado o álbum, decidi não me importar de dar concertos à pala se sentir e gostar da ideia do evento. A guita há-de vir naturalmente, caso tenha vontade de vir ter comigo. Claro que se estás a receber guita comigo, eu vou querer o meu. Mas os Dukes andavam a organizar umas jam sessions no Anjos70 com actuações no início, e quando me convidaram para actuar soube logo que infelizmente eles não recebiam guita para organizar aquele evento. A cena é que eu estava desejoso de dar um concerto e eles queriam que eu lá fosse. Para mim foi simples. Não precisei de ver dinheiro para saber que, no fundo, saímos todos a ganhar. Tento fazer o cachet a vender CDs e às vezes consigo. Foi isso que aconteceu com O Caminho Mais Difícil. Não estou a dizer que fazer as cenas sem guita é que é fixe. Não é mesmo nada fixe eu andar a dar concertos frequentemente e continuar na prega. Óbvio que se queres dar dinheiro a um MC para ele actuar estás a fazer pelo hip hop e pelo trabalho dele, mas a malta que pode fazer isso raramente quer arriscar na minha cena e eu tive de me resolver nesse aspecto. Acho que mais pessoas me conhecem agora e as salas ficam um pouco mais cheias, o que é excelente e foi muito graças ao álbum e ao vídeo que o [Sebastião] Santana me fez. Também é graças aos lançamentos do meu pessoal. Mas sinto que quem já me conhecia me olha da mesma maneira, o que até é bom sinal para mim.

Agora lanças o “Interior De Portugal” já a apontar para um novo projecto. Foi algo que começaste logo a delinear após o lançamento do último disco? Em que fase é que é que se encontra o trabalho que nos reservas para 2020?

Já tinha começado a delineá-lo antes de acabar O Caminho. Era para ter saído por esta altura, mas levou imensas alterações. Deixei de sentir alguns sons, fiz outros. Já era para ter sido álbum, mas em princípio vai sair em formato EP. Já era para ter sido todo regravado com uma banda, mas ainda não foi desta. Neste momento estou a dar uns toques de mistura com calma e a planear mais um vídeo com o Alexandre Moutinho, da Estação Colectivo Artístico. Tenho outros projectos a serem trabalhados: um álbum com o TK, D’Éléments e Pika, a sair em formato de filme; uma dupla surpresa com um outro nome, também quase a surgir com um projecto; os projectos do Ginásio com o Benny, cenas com o Pilha… Quero lançar alguns deles antes do Meu Filho.

Sendo que o intitulaste Meu Filho e este tema te coloca nos papéis de produtor e intérprete, podemos esperar desta vez um projecto inteiramente escrito e musicado por ti? Qual tem sido o teu processo para a criação destas novas músicas?

Adoptei este título para o projecto porque à medida que ia escrevendo as faixas, senti que estava a dirigir-me para um filho meu que nunca me tivesse conhecido ou que nem sequer tivesse nascido. Alguém com os meus genes e perdido por aí… Gostei disso. Acho que nunca vou querer fazer algo assim tão solitário, visto que estou rodeado de gente linda e talentosa. Mas este projecto tem menos tempo ocupado por participações vocais e os beats ou são meus ou foram produzidos em sessões de estúdio com o Pilha (a maior parte são meus). Talvez quando acabar de misturar envie o projecto a algum multi-instrumentista amigo para dar um pequeno preenchimento. Para terminar, digo já com certeza que vou apresentar este álbum no festival Tugatek 2020.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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