Uno // O Caminho Mais Difícil

[TEXTO] Moisés Regalado

O independente e o alternativo não vivem apenas na metafísica das temáticas, no último oásis de palavras raras ou na complexidade dos flows mais afiados. O Caminho Mais Difícil, que agora se junta à extensa discografia de Uno, vem, antes de mais, ilustrar o rap que, sem ser street rap, nasce na rua, enquanto preserva a livre criatividade que por norma separa aqueles que falam para um auditório daqueles que, como é o caso, se dedicam ao seu consultório. E este é um disco que, de facto, se dedica ao restrito nicho que, antes de ver o que se passa pelas tendências, ainda procura a melancolia e a sonoridade (como em “Armado Em Ti”) do hip hop tuga mais primordial.

O que há, assim sendo, de tão “tuga” neste longa-duração? Os refrões de “Raio De Apagão”, com Cadela, ou as participações de Meraky em contexto semelhante (e que vêm recordar o que de mais improvisado se fazia na viragem do milénio). Mas também o desenrascanço lusitano aqui se prova, num disco inteiramente escrito, produzido e gravado por Uno — “e companhia”. E, se às vezes o nosso hip hop (ou, neste caso, o de Uno) nos reserva opções estéticas de gosto duvidoso, tudo faz sentido quando a volta se completa e nos deslumbramos perante a outra face da moeda. Neste caso, há nome para semelhante volte-face: Tilt, membro dos ORTEUM, aqui presente para fechar “Estrada Escondida – Filhos Do Ocidente“.

 



O Caminho Mais Difícil não vai atrair o público das views, da fama ou dos cachets mas, pelo sim, pelo não, Uno tratou de cortar os possíveis laços de forma unilateral, fazendo sensivelmente o que NTS e X-Tense fizeram em momentos distintos de 2018. “Nada De Novo” satiriza o que agora se promove (será que é mesmo de agora?), num certeiro cartão-de-visita para o que é possível encontrar no resto do álbum, regado a baixos impecáveis e tarolas boom bap — aqui o termo aplica-se. “O Princípio De Um Gajo Real”, quarta faixa do álbum e que sucede a “Ganzas e Som, Madrugada Fora”, uma espécie de prelúdio, acaba de o apresentar e logo se percebe que, apesar de Uno ser dado aos auto-retratos, não os pinta com o único e egoísta objectivo de se favorecer.

As dicas aqui “cuspidas” servem sobretudo para estabelecer uma distância de segurança entre o rapper e produtor lisboeta daquilo que se vai fazendo nos grandes palcos da capital mas o permanente à-vontade de Uno perante o microfone, bem como aquilo que consegue fazer na produção — mais do que auto-suficiente, apesar de haver ainda muito por limar –, colocam-no cada vez mais perto daqueles que também polvilharam o início deste ano com lançamentos imprevistos. Se há melhor do que uma boa refeição caseira? Certamente, mas nem assim aquilo que se come — e se faz — por casa perde o seu valor inesgotável.

 


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