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Fotografia: MIKE AK

O sucessor de Chá de Camomila antecipa o primeiro longa-duração do rapper e produtor da Mafia73.

Tóy Tóy T-Rex: “Eu não me vejo como underrated, mas sinto que devia trabalhar mais”

Fotografia: MIKE AK

Quando chegamos ao final de TENET, o novo filme de Cristopher Nolan, Travis Scott é a voz que dita o tom das reflexões pós-visionamento. Não é estranho ouvi-lo naquele contexto: sempre houve algo de transcendente na música do autor de ASTROWORLD, que fundou a sua personalidade musical a partir de Kanye West, Kid Cudi, auto-tune, Mike Dean, 808s, sintetizadores, entorpecimento e fúria (sim, não falaríamos de alguém que motiva amor e ódio em doses iguais se não existissem paradoxos).

É possível que Scott seja a referência imediata quando ouvimos Gota D’Espaço, o novo EP de T-Rex, mas não é a única: Força Suprema e Gson, mais como par, parecem ter também algo a dizer nesta conversa. No entanto, a força parece resultar do que o artista da linha de Sintra consegue fazer com essas coordenadas para construir a sua “salada russa”, que é trap, é soul, é r&b. E é, sem sombra de dúvidas, viciante. Difícil não ficar agarrado à intensidade de “Duvidava”, à alma de “Mau Tempo” e “Soft”, às inflexões vocais de “Tinoni” e às cadências drill de “Povo”.

No lugar de Houston, Atlanta e G.O.O.D. Music, há LS e Angola, kuduro e FS na frequência de Tóy Tóy. E sempre com os olhos no céu, à procura de inspiração nas estrelas. Não tardará a lá chegar, mesmo que seja apenas metaforicamente. Ponham os olhos nestas gotas.



Quando é que começaste a trabalhar no Gota D’Espaço?

Estou a trabalhar nesse projecto desde o ano passado. Ele tem muitas faixas antigas. As faixas mais recentes são a número 2 e a número 7. O resto é tudo antigo, vem já desde o início de 2019. Também tem faixas de 2018 nas quais trabalhei na altura do Chá de Camomila. É tudo muito antigo, ando a guardar isso no baú há bastante tempo. 

Queres explicar o título?

Eu lanço um projecto pequeno antes do projecto maior. E o projecto maior, neste caso, é o Cor D’Água. Então, eu quis arranjar um título relacionado com o Cor D’Água, um título que fosse meio espacial porque as faixas também me transmitem essa sensação. Foi isso que me veio à cabeça, Gota D’Espaço, visto que também é uma gotinha.

Quem é que produz estes temas?

Conta com três produções minhas, de resto são tudo produtores que eu conheci nas plataformas de YouTube, etc. Agora com essas coisas de burocracias, não convém estar a usar instrumentais for free. Uma das minhas produções é o “Gota D’Espaço”, mas só a segunda parte, depois do beat switch, o “Povo” e o “Ar”. 

Do que é que andaste à procura quando foste recolher beats? São vibrações diferentes, mas parecem todos feitos à tua medida…

Os drums têm que ser bué fortes. São bué crispy, sempre. Nas minhas músicas não deves encontrar muitos instrumentais em que o beat é muito low tone, tem sempre kicks fortes, seja r&b ou trap. Curto bué de cenas fortes. Hoje em dia, para mim, a melodia não importa muito por quanto mais melodias tiveres no instrumental, mais difícil fica para tu viajares em termos de refrões, fica muito limitado. Recentemente, as minhas músicas têm sido muito cantadas, o meu rap tem sido muito cantado, então acho que procuro que a melodia seja algo simples. Os drums é que têm de estar mesmo on point

Existe muita energia nestas faixas, o que remete logo para os espectáculos ao vivo. Como é que foi pensar num projecto que não tem concertos em perspectiva?

Por acaso as faixas são mega inspiradas em showcases, mas é aquele meio termo. Quis que tivesse os dois lados da moeda. Eu queria que fosse algo super orientado para showcase mas que ao mesmo tempo desse para ouvires em casa, para estares a “vibar” no cúbico. Tens ali algumas faixas que são meio slow. Quis dar os dois lados da moeda a esse projecto. Não me faz assim tanta confusão o facto de eu não poder expor essa energia a nível de showcase

Imagino que tivesses uma agenda bastante preenchida para este Verão. Como é que reagiste a tudo isto?

Ya, tinha. Fiquei um bocado down, mas eu acho que o crescimento está na procura da solução e da positividade. Eu quis focar-me no que isto tem de positivo, que é pouco, porque continua a haver gente infectada e pessoal a morrer, etc, mas no meio disso tudo eu quis mesmo manter uma linha. “O que é que eu vou fazer agora, como é que eu me vou adaptar a isto?” No final do dia, esse é o meu trabalho, e é só disso que eu vivo. 

Por outro lado, deu-nos tempo para pensar o que é que a gente vai fazer daqui para a frente. Eu falo sempre gente por causa do grupo, a Mafia73. Deu-nos tempo para a gente planificar e pormos as cenas todas em pratos limpos. Visto que eu também ia lançar o projecto todo às pressas — era para sair em Março –, acho que esse travão também veio por uma boa causa. Deu-nos tempo para nos organizarmos. Era um stress maior se eu não pudesse fazer música. 



Um dos momentos do EP que me saltou logo à vista foi a “Duvidava”, mais particularmente quando cantas “Tão condenado que eu mando shout-out para os OGs/ E eles entendem beef?”. Sentes algumas dificuldades em chegar a uma geração mais velha?

Ya, de certo modo sinto. Acho que a geração mais velha ainda vive de padrões. Eles ainda têm o padrão deles. Eu gosto bué da versatilidade musical e de fundir estilos, acho que a mim nunca me fez confusão, mas aos mais velhos faz confusão a mistura de estilos, hoje já vês um trapsoul, um trap junto com rock’n’roll, [e isso] já faz um bocado de confusão aos OGs. Depois tens aquela cena toda do auto-tune e da vibe Travis Scott e acho que é isso que faz bué confusão aos mais velhos. Essa é a única barreira que eu sinto para o pessoal mais velho. 

Por outro lado, eu tento sempre manter aquela cena de nunca deixar a qualidade lírica. Eu amo mesmo poesia, tento ao máximo nunca abandonar isso, e acho que é aí que ganho o respeito de alguns mais velhos. É a única coisa que acho que me liga ali aos mais velhos. “Pá, tu também és maluco, mas se calhar não és assim tanto, estás perdoado”. 

Como é a tua abordagem na hora de escrever? Por causa da energia que metes, dá-me a impressão que muito é feito em freestyle

Tenho o meu bloco de notas. Quando estou na rua, vem-me uma dica à cabeça e eu aponto — se calhar mais tarde pode-me fazer sentido. Mas quando eu estou sentado a construir a música, não gosto de estar a escrever, faz-me confusão. Se eu começo a escrever, faço as primeiras linhas e depois já vai tudo de freestyle. Vou fazendo o freestyle e vou decorando aquilo que eu faço para esteticamente estar bem construído e a métrica estar bem feita.

Quando é no verso, eu gosto de ir mesmo straight up, mas quando é nos refrões faço sempre uma guia melódica e depois ponho as palavras. Mas às vezes vem ao contrário. Quando o som já tem título, costuma vir ao contrário. Primeiro vem a letra, depois é que vem a melodia. 

Acho que quando se fala em artistas underrated em Portugal, o teu nome é sempre o mais referenciado. Sentes-te underrated?

O pessoal diz sempre isso. Eu não me vejo como underrated, ponho sempre as culpas em mim. Sinto que devia trabalhar mais. E trabalhar mais não é só lançar música. Vejo-me como uma pessoa que se calhar trabalha pouco e devia trabalhar mais [risos]. 

Bem, depois deste EP e das tuas participações em temas de FRANKIEONTHEGUITAR, Calema, 9 Miller, Mobbers e Biya, chegamos ao final de 2020 e deixas de ser underrated

Vamos lá ver o que é que o futuro nos guarda [risos]. 

Estavas-me a dizer que este trabalho serve para antecipar um álbum. Conta-me mais sobre isso.

Eu tenho como obstáculo pessoal… eu gosto de merecer as cenas. Eu não gosto de chegar e ah, só porque já posso lançar um álbum, vou lançar um álbum. Eu gosto mesmo de dizer, “não, está na hora de lançar um álbum”. Ainda estou a repensar a ideia e a digerir. Estou mesmo focado na construção do projecto e está mesmo dope. Aquilo conta com 14 faixas, já tem o conceito, já está estruturado. Tem a ver com Gota D’Espaço. A capa do GDE é um[a peça do] puzzle para a capa do Cor D’Água

Neste momento deves ser um dos rappers com personalidade mais vincada em território nacional. Entras num som e reconhece-se logo que és tu. Quando é que começaste a sentir que estavas a chegar a uma sonoridade tua? Foi algo planeado ou natural?

Acho que foi natural. E foi aquela cena da disciplina também. Sem sombra de dúvidas que eu sou ouvinte e fã dos Força Suprema, visto que também recebo uma grande influência porque também somos da mesma zona. E eu tinha um carácter musical muito Força Suprema. Como artista, eu tinha que me distanciar obrigatoriamente disso. 

Eu não sei se por acaso a FS ouve Travis Scott, rock ou metal, mas não devem ouvir. E isso são tudo cenas que me influenciam, e tento conjugar isso com a minha música. Fiz basicamente uma salada russa disso tudo e deu o T-Rex. 


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