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Faixa-a-faixa: o novo EP de T-Rex explicado pelo próprio

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

T-Rex juntou mais um projecto ao seu currículo a solo. O EP Chá de Camomila, que saiu no passado sábado, dia 20 de Outubro, conta com as contribuições de Beatoven, Frankie Baptista, Mafia 73 (o seu colectivo), Nimsay, DCOCKY e Yuri da Cunha.

Com um arsenal diversificado de flows, o rapper da Linha da Sintra foi a todo o lado, partindo sempre do trap e do r&b. Olhando para o panorama actual, Tóy Tóy T-Rex insere-se num grupo de artistas composto por Wet Bed Gang, Carla Prata, 11 LIT3S ou Mishlawi. Se quisermos ser mais concretos, GSon, NGA e Travis Scott são pontos-de-referência para compreendermos a sua personalidade artística.

Ainda a tirarmos as nossas próprias ilações sobre o seu novo EP, desafiámos T-Rex a explicar, faixa-a-faixa, Chá de Camomila.

 



[“CHÁ PRETO”]

T-Rex sobre Chá de Camomila: “A intenção é saltar um pouco para fora da minha zona de conforto”

 



[“BIGBOSS TYPE$HIT”]

“Este tema foi introduzido logo pelo comunicado da intro do beat. Fez-me lembrar cenários de glamour, bling bling, luxúria e sensualidade. Permiti-me ser guiado por isso E tentar enquadrar em momentos que já tenha passado e conversas que eu já tenha tido (tal como os resto das músicas que costumo dar à luz). Quis levar o dito ‘big boss’ para outro nível, algo mais interior porque acredito que o verdadeiro boss descobre-se no carácter. Daí o refrão ser ‘preciso de alguém mais sexy que o meu money’. Queria muito transmitir que no final do dia a gente precisa de alguém ao nosso lado que nos faça esquecer que o ‘kumbu’ é tudo, o que também não foge do contexto do Chá de Camomila, que sou eu a crescer e a entrar para uma fase mais adulta. E é nessa altura que começamos a achar que o dinheiro é tudo quando não é. É só um extra para organizar a caminhada da forma física. Sobre o flow, as palavras e as expressões que utilizei: tentei utilizar algo que os jovens da minha faixa etária conseguissem reconhecer com clareza sem se desligar do lado fresco, mas também utilizei um ritmo não muito complicado para pessoas mais velhas. Tenho como missão fazer música sem idade.”

 



[“R&BSR&B$”]

“Neste tema quis pintar as ocasiões em que vejo pessoas a evitarem certas músicas (neste caso de r&b) porque lhes lembram momentos muito importantes de relacionamentos que se calhar não funcionaram lá muito bem. Deixei-me ser levado pelo tema, por isso na primeira parte não utilizei algo tão aguçado em termos de palavras, optei mais por caprichar no feeling, na expressão, foquei-me em fazer o people perceber, como é óbvio, mas, acima de tudo, sentir o que é habitual quando ouvem os sons que lhe relembram esses momentos bem passados e que não podem voltar a ser repetidos. Na segunda parte é que já entro ali na minha praia, de uma maneira que eu gosto mais. Acredito que o pessoal depois de ouvir a primeira parte e passar a sentir o som já toma mais atenção e procura uma história, o que já dá para eu fazer os acrescentos que gosto a nível de flows e métricas.”

 



[“SAVE ME (SEM TI)”]

“Esta faixa foi inspirada por cantos gospel. Fala de salvação, aquela que nos livra do pecado grande! [risos] Visto que estou a caminhar e cada passo se torna maior, graças a Deus, começo a ser exposto a certos obstáculos emocionais, acho que posso dizer dessa forma, e a melhor maneira que tenho de não me acomodar é ser salvo pela minha companheira para que não me deixe cair em mãos e hábitos errados. É essa a mensagem que tento passar. E bom, sendo um instrumental que é mesmo a minha praia, optei pela minha construção normal com trocadilhos, frases com inspiração resgatada à poesia, incorporando a minha nova regra de ser o mais explícito e perceptível possível, e no final fazer o people sentir que é o filme da suas vidas.”

 



[“WE WILL ROCK”] feat. Frankie Baptista

“Em termos de engenharia, o “We Will Rock” foi um dos sons mais complexos e mais complicados de ser finalizado, já o tinha guardado no pocket há quase um ano mas não queria estragar a faixa com o meu processo de mix/master, que não era o pior, mas também não era o suficiente para a faixa ter a direcção e qualidade certa. A faixa conta com a participação do meu lil bro Frankie Baptista. Começámos a trabalhar nela praticamente no dia em que o conheci e a track é baseada na minha estrada, na minha verdadeira missão, na minha história e deveres como membro desta família (Mafia73), da minha família biológica e membro desta geração. A produção é minha, desde os drums aos hi hats, synths, etc., e a parte melódica, que é mais feita na guitarra, foi a parte do Frankie.”

 



[“NO GO ZONE”]

“Este tema é baseado nos dias de hoje. Está bem mais complicado para embarcarmos num relacionamento sério. O tema é baseado na visão actual da juventude que vê as relações sérias como uma zona de perigo ou, como diz o título, ‘No Go Zone’. E, sendo jovem, partilho muitas vezes esse mood com o resto, então a história desse interlúdio é com base nisso, em pegar outras coisas para adormecerem o amor. O tema foi produzido por mim, em termos de direcção quis que embarcasse em algo que soasse mais como pensamentos, por isso não fiz  versos longos e complexos. Como digo, gosto sempre muito mais que o people veja um filme da própria vida em cada faixa que componho.”

 



[“YA’ AMOR] feat. Máfia73

“O ‘Ya’ Amor’ também é uma das faixas que tinha guardado, mas como o tema envolve malandragem, e os membros do grupo são muito malandros [risos], decidi sacar da cartola e perguntar-lhes se tinham algo para dizer sobre esta viagem. O tema fala de amor mas de um amor diferente, o amor de início, aquele amor que é dado à rapariga que não foi apresentada como tua mulher e não sabes se será mas que é tua confidente dentro e fora dos momentos de loucura. E a faixa chama-se ‘Ya’ amor’ porque acho que há uma diferença entre tu seres o ‘amor’ dela e o ‘mor’ dela. A construção da faixa foi feita como estamos habituados a fazer: ouvimos os beats no estúdio, seguimos o tema, alimentamo-nos da energia um dos outros e contamos histórias para que estimulem a criação de canções que sejam sempre baseadas em momentos que vivemos. Na base da criação, tentámos adaptar-nos à nova wave do trap sem que o nosso rap perdesse a essência.”

 



[“MOOD”]

“É um tema também produzido por mim e é inspirado em certas situações em que não podemos confundir amor com algo muito pequeno e passageiro, mas que, ao mesmo tempo, não sabemos se pode tornar-se algo grande É um interlúdio e quis fazer algo wavy. Tenho ouvido pouco disso no rap português. Construí como gosto: aqueles flows ‘dançáveis’, mas desta vez mais perceptíveis e acompanhados com um lado poético. E deixo também claro que foi um dos projectos que perdi, então sente-se que está raw em algumas partes.”

 



[“QUERO”] feat. Nimsay

“Acho que o ‘Quero’ é das faixas mais lamechas de toda o EP. É mais sobre amor e fala desses momentos de intensidade, love e afecto. A faixa conta com a participação da Nimsay, que é artista da nossa label Bando Music, irmã e companheira de batalha. Quando eu estava a fazer a faixa, ela entrou no estúdio e disse que teria algo para contar na faixa. Eu concordei e a faixa pede mesmo um toque feminino. Eu só conseguia vê-la a ela ali. Sendo num estilo mais dancehall, uma coisa mais mexida, optei por não usar um flow tão dançante como gosto, embora em algumas partes se note, mas a ideia foi mais cooperar com o beat mas de uma maneira mais soft.”

 



[“SEM QUERER”] feat. DCOKY

“Este tema é outra mancha diferente na EP, algo mais dançante. Conta com a participação dos meus cotas, meus irmãos mais velhos DCOKY (Smyle & Judler). Celebra os nossos momentos festivos e é inspirada naquele teu amigo que te ‘arrasta’ sempre para uma festa em condições quando a tua intenção não era sair do teu posto. Pintei o quadro de maneira a adaptar o português ao flow riddim, juntei alguns tons de r&b e uma lírica mais dançante. A faixa foi criada como é costume: todos em estúdio, bottles, ideias e histórias.”

 



[“AUMENTA A FÉ”] feat. Yuri da Cunha

“Esta track é uma das mais significantes para mim, não só pela grande produção do meu mano velho Beatoven e a participação do grande cota Yuri da Cunha, mas é uma faixa em que eu vejo também como responsabilidade porque é dedicada à minha cota, à minha afilhada, que na altura enfrentava graves problemas respiratórios e ao meu cota e companheiro de batalha Smyle. O tema é inspirado numa história de amor que tem os seus ‘altos e baixos’, mas não são esses baixos que têm que ser valorizados. No final do dia, todos nós temos adversidades que têm que ser amenizadas pela força que deve ser partilhada numa relação. Faz-me lembrar muito a minha ‘casa’, falo da minha casa mesmo, da minha cultura, da minha gente, então tentei utilizar uma linguagem que retratasse essa dança. Foi uma faixa bem mais rappada, tal como aconteceu no primeiro verso do ‘Chá Preto’, para dar protagonismo àquele meu lado que o people já conhece e está habituado a ouvir.”

 


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