T-Rex sobre Chá de Camomila: “A intenção é saltar um pouco para fora da minha zona de conforto”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

T-Rex apresentou “Chá Preto” na semana passada. O single é o primeiro avanço de Chá de Camomila, um EP que pretende editar em breve.

No 25 de Dezembro de 2017, T-Rex colocava cá fora o videoclipe de “My Way”, tema que levou a uma primeira tentativa de contacto por parte do Rimas e Batidas, que não foi bem-sucedida. Menos de um ano depois desse lançamento, as redes sociais ajudaram a estabelecer a ligação com o rapper. “Acho que posso dizer que já me encontrei”, revelou em conversa com o ReB. Afinal de contas, “My Way” fechou um capítulo com mais de um ano — a faixa pertence a 11-se, o seu último trabalho editado pela Bando Music. Estava na altura de mudar o chip.

“Posso dizer que parte do meu som já tem o meu carimbo”, admitiu T-Rex sobre as mutações pelas quais tem passado devido às muitas horas de trabalho e à observação dos métodos dos artistas mais experientes com quem se cruza no estúdio. “Chá Preto” podia até estar assinado por “T-Rex versão 2.0”. A maturidade nota-se logo na escolha do instrumental. É verdade que Eestbound tem o seu nome cravado em “Antidote”, de Travis Scott, mas pouco ou nada se fala daquele que é um dos geniozinhos que faz parte da prolífera cena de beatmaking de Toronto.

O “regresso” de T-Rex à actividade foi feito em boa companhia. O rapper da Linha de Sintra tem trabalhado com Frankie Baptista e os dois juntaram-se a Lazuli para “Level Up”, o seu primeiro sinal de vida em 2018. O ano parece prometer por estes lados: T-Rex tem uma bomba-relógio nas mãos — falamos do EP Chá de Camomila, do qual é extraído o mais recente “Chá Preto”. “A intenção é saltar um pouco para fora da minha zona de conforto e fazer o people sentir que o meu carimbo se mantém”, comentou. Enquanto o timer do explosivo não chega aos zeros, “violar” o botão de replay deste “Chá Preto” não trará certamente qualquer problema judicial.

 



Não és propriamente uma cara nova e editaste alguns projectos pela Máfia73 e Bando Music nos últimos anos. Fala-me da tua história. Como é que tudo isto começou?

Tudo começou na queda do Verão de 2014, que foi quando as coisas do grupo DCOKY (do qual eu fazia parte com mais outro irmão e ex-membro da Máfia73, Mk Mike) abrandaram para ampliar um pouco mais a visão, apalpar terreno e prosseguir com novos planos. Foi a mesma altura em que eu interrompi a mixtape Meu Espaço e andei um pouco relaxado. Estava a passar por um mau bocado e, como era um bocado imaturo na altura, isso guiou-me para a má vida. Durante essa má vida – smoke sessions, etc. – reencontro-me com velhos amigos do tempo do jerk, um sub-género do hip hop, o Dvk e o Kush Trunks. Eles já tinham feito parte do grupo, o que ficou fácil para nos juntarmos novamente. Reuni-me com o So Único, o manager que tinha a ideia de criar uma label com o nome Máfia73. Mostrei-lhe o que eu, o Dvk e Kush andávamos a aprontar e ele já tinha o Demme na manga. Estávamos na posse de todos os ingredientes para dar à luz a Máfia73 e assim foi. O primeiro nome da label foi a Máfia73 mas, para sermos mais correctos, ficou esse o nome da crew e surgiu a Bando Music como nome para a label.

Olhando para o material mais antigo, noto uma ligação ao estilo de rap que tem vindo florir à beira da linha ferroviária que liga Sintra a Lisboa, cimentado por grupos como Da Blazz ou Força Suprema. São influências para ti? O que é que rodava nos teus auscultadores quando começaste a ouvir hip hop português?

Sem sombra de dúvida. A arte dos Da Blazz, Nigga Poison da Força Suprema contribuiu para a construção das minhas biqueiras. Ainda assim, nos meus fones rodava muito Sam The Kid, Boss AC, Halloween, Valete, Sebeyks, Regula, Kalibrados, Da Weasel…

Hoje, a julgar pelos teus temas mais recentes como o “My Way”, “Level Up” e “Chá Preto”, nota-se uma clara evolução. As letras de rua continuam à flor da pele, mas a forma como as expressas demonstra um toque bastante pessoal e, por consequência, refrescante. Como é que tem sido o teu processo de criação em estúdio? Sentes que estás a criar um cunho sónico que já podes chamar de “teu”?

O processo de criar em estúdio continua o mesmo mas agora com mais alguns detalhes. Tem fluído de forma bem mais organizada. Ouvimos uns beats que alguns produtores da lusofonia nos enviam e outros que a gente ouve na net, deixo o beat falar comigo e a fazer-me reviver algum momento ou relacionar com a história de alguém próximo. Vou fazendo uns freestyles, umas linhas para me guiar, e vou montando até construir algo consistente. Acho que o facto de ter partilhado o estúdio com outros artistas, com mais anos disto que eu, também contribuiu na adição de algumas peças para aplicar à criação. Em questão ao cunho sónico, acho que posso dizer que já me encontrei. Apesar de sentir que carrego muita coisa que faz parte de mim, que tenho como objectivo explorar, posso dizer que parte do meu som já tem o meu carimbo.

No “Level Up” colaboraste com o Lazuli e com o Frankie Baptista, um caso também muito particular no hip hop em Portugal, sendo que somos um país com pouca cultura de instrumentistas no hip hop. Como é que aconteceu essa parceria?

Quem me apresentou o Frankie Baptista foi o Fran, que é o atual CEO da label Atlas e um irmão de longa data. Houve um dia em que estávamos em estúdio e começámos a ouvir umas faixas que eu tinha para os meus próximos projectos. O Frankie começou a tocar por cima e tudo o que ele tocou deu mais brilho às faixas. Criámos algumas ideias na hora, produzimos e foi muito fácil e rápido trabalhar com ele. Mais tarde, ele disse que precisava de mim para um projecto dele com a produção do Lazuli, com quem eu também já tinha ficado de trabalhar. Mandou-me a cena e disse que só tinha umas horas em estúdio e que eu tinha que ser rápido. Recebi um beat no e-mail com o nome “Level Up” com uma entrada muito louca. Parecia que o Lazuli tinha trazido o Super Mário e lhe tinha dado umas aulas de xilofone. Tem um refrão espectacular do Frankie, que só há pouco tempo é que descobri que ele largava uns vocals também. A coisa fluiu e concluímos o “Level Up” muito rapidamente.

Considero clara essa procura pela inovação e saltou-me à vista o nome do Eestbound creditado na produção do teu último single — produtor de destaque na cena de Toronto, cidade que está a viver a sua melhor fase de sempre a nível de criatividade musical. Fala-me sobre a concepção desse tema. Qual era a mensagem que querias deixar passar no primeiro avanço do teu novo EP?

O que deu largas ao conceito do “Chá Preto” foi não só o facto de ser o que nós cá em casa bebíamos nos períodos mais conturbados, mas também porque uma vez uma amiga minha me levou à igreja dela, cuja religião é Mórmon, e lá eu ouvi que não é permitido o consumo de chá preto. Se não é permitido, deve ser porque está associado a coisas negativas, e por ter cafeína, que activa um efeito contrário ao do chá de camomila. Então naveguei por aí. O chá preto simboliza as coisas negativas que me têm rodeado ultimamente, com as quais também podemos retirar alguma aprendizagem, até porque o Yin vem sempre acompanhado do Yang.

O tema chama-se “Chá Preto” e o EP Chá de Camomila. Que ligação é esta entre a infusão de plantas e o produto que pretendes apresentar nesse projecto?

Chá de camomila foi algo que me acompanhou bastante na altura em que eu estava a trabalhar na minha primeira mixtape Meu Espaço. Foi uma época de muito stress e, como companhia do smoke, arranjei um chá que me ajudava a lidar com certas pressões diárias e me oferecia mais concentração. O chá preto são as manchas negras do álbum e o chá de camomila são os pedaços de céu e as músicas mais calmas.

O que é que nos podes adiantar sobre o Chá de Camomila? Vais ter colaborações de outros MCs ou produtores?

Posso adiantar que o Chá de Camomila terá aquelas faixas toughs, que são a “minha praia”, mas em menos quantidade. O EP é bem mais dedicado aos casais e àquele clima “quente versus frio”. A intenção é saltar um pouco para fora da minha zona de conforto e fazer o people sentir que o meu carimbo se mantém. Vai contar com a participações de DCOKY, Máfia73, Beatoven, Yuri da Cunha, entre outros.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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