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Texto: Paulo Pena
Fotografia: Francisca Castro

Dois newcomers largaram uma bomba para as pistas de dança em Janeiro. Só não esperavam que, dois meses depois, um vírus as fechasse durante tempo indeterminado...

“Tou Na Festa”: o hit do Verão que não aconteceu

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Francisca Castro

E se Manuel João Vieira, figura principal dos míticos Ena Pá 2000, estivesse agora no auge dos seus loucos 20 anos e tivesse composto, ao sabor das tendências contemporâneas, um cântico cómico entre o rap, o house e o techno? Possivelmente soaria a algo próximo do hit das noites de Verão que não chegaram a acontecer como deviam em 2020, o single da dupla Joint One e Yung Juse que invadiu as frequências desses carros por Portugal fora, já que a festa foi feita, nesta época veranil, à base de sistemas de som muitas das vezes montados por pelotões de colunas JBL e equivalentes. 

Com cerca de quatro milhões de visualizações no YouTube e cerca de dois milhões de plays no Spotify, “Tou Na Festa”, de benção a maldição, foi o tema que catapultou os nomes destes dois artistas do Porto para as bocas do povo, que alegremente entoou a orelhuda canção, de máscara no queixo, como o hino da resistência à fatídica pandemia. No entanto, esta jornada começou como brincadeira e rapidamente se tornou em assunto sério. “O ‘Tou Na Festa’ foi só uma cena para mostrar aos nossos amigos e esquecer que aquilo existia. O que aconteceu foi que vários amigos nossos deliraram completamente com o som, a níveis que nós nunca tínhamos visto antes, e isso motivou o Juse, acho eu – ainda hoje não sei o que lhe deu na cabeça –, a colocar um excerto no Twitter. Aquilo ficou viral, nós reflectimos sobre o que iria ou poderia acontecer, e o resto foi história”, como nos contou Joint One. Em relação ao que lhe passou pela cabeça, Yung Juse esclareceu-nos: “num domingo à tarde, estava em casa a apanhar uma grande seca, e apareceu-me aquele vídeo animado dos DJs a passar som com garrafas de água. Pus a faixa por cima do vídeo e meti no Twitter, lá para as três da tarde, e aquilo rebentou. Aí vimos que tínhamos mesmo de lançar, e deu no que deu”. 

Porém, e ao contrário do que possa parecer, esta não é a primeira encruzilhada onde se encontram: o feliz acidente resultou de uma sessão de estúdio conjunta, com vista a uma colaboração destinada ao EP de Yung Juse – “no início deste ano tinha um som que queria gravar para o EP que tinha pensado fazer na altura, e fui ao estúdio dele, que tinha mais qualidade que o meu. Fizemos o som, ele até acabou por entrar nesse som, só que não estávamos a sentir. Depois começámos a procurar beats no YouTube e apareceu esse; gravámos e saiu bem, achámos piada”.

De PZ a Chico da Tina, dos Conjunto Corona ao próprio David Bruno, algo notado recentemente pela imprensa internacional, o Norte do nosso rectângulo à beira-mar plantado tem-se mostrado terra fértil para semear rimas e batidas satíricas, ricas em sementes de qualidade e substância. Ainda assim, a paródia é um registo dúbio, “muito riso, pouco siso”, como diz o outro. E o outro, geralmente, tem tendência a torcer o nariz quando lhe pedem para pôr os óculos e olhar mais além. Talvez esse seja o maior desafio para quem voou tão alto e sem precedente – agora é preciso manter a trajetória ascendente para evitar os loops

Joint One não acusa receio sobre esse estigma: “eu posso renovar o meu cartão-de-visita com o passar do tempo”. E o tempo é o melhor juiz, já se sabe. Não obstante a elevada pressão atmosférica sentida, os dois pilotos não têm dúvidas acerca das próximas aterragens. “Bunda”, com Lójico, é a primeira novidade de Joint One, estreada na passada sexta-feira, dia 2 de Outubro. Julgando o livro pela capa, este seria um seguimento lógico (sem trocadilhos) da faixa que aqui nos trouxe. No entanto, o registo deste novo tema aponta para direcções totalmente opostas, passando pelo afro com vista à kizomba, e ainda com versos emprestados pelo funk brasileiro.



Além disso, o artista que recentemente se juntou à Universal Music Portugal deixa bem claro que nem só do “Tou Na Festa” vive a sua expressão artística: “o meu catálogo daqui para a frente vai ser uma coisa que as pessoas se vão identificar mais, e eu também”. Vai mais longe até, pegando de caras e pontas afiadas este desafio mascarado – “apesar de ter sido uma benção e uma maldição, também é um grande desafio para mim enquanto artista ter de ultrapassar essa barreira. E eu acredito em mim, acredito que consigo ultrapassar isso facilmente. Estou a criar um catálogo de música no qual acredito muito, e que tem potencial para agradar o ouvinte geral. Tenho cenas para quem gosta de trap, afro, techno. Tenho um bocado de tudo, porque, no fundo, também cresci a ouvir um pouco de tudo. Então, a minha visão agora enquanto artista é meter a minha personalidade por cima dos beats”. 

A parceria com a Universal abriu caminhos que se esperavam sinuosos, muito por culpa da situação pandémica que se verifica, neste caso, nas nossas fronteiras. Por isso, se a princípio havia alguma relutância, a escolha revelou-se acertada, nas palavras de Joint: “por um lado sempre me quis manter independente, só que com isto do coronavírus já tinha vários temas preparados, e a falar com o meu agente estávamos a pensar na melhor forma de publicar isso. E ele sugeriu-me a ideia da label. Então, decidi dar uma oportunidade e ter uma reunião com eles, e quando isso aconteceu, entendi que eles poderiam ajudar-me em vários aspectos que eu ainda nem tinha noção que podia atingir. Estou mesmo entusiasmado para as pessoas verem o que está para vir aí em breve”. 

No mesmo sentido, Yung Juse partilha de uma visão paralela no que diz respeito às amarras que os prendem à expectativa dominante: “nós já estávamos à espera de que quem gostou desse som não goste tanto das nossas próximas cenas, mas é o que é. Vamos fazer o que curtimos, e não vamos ficar presos a essa sonoridade. Estamos tranquilos; sabemos que vai ser difícil, mas é o que tem de ser feito. E se tentássemos fazer um novo ‘Tou Na Festa’, nunca ia bater tanto como bateu, porque da primeira vez ninguém estava à espera. Ia parecer forçado”.  

As perspectivas para o futuro são prometedoras. Tanto um, como o outro, chutam a bola para a frente sem pensar no golo ao ângulo que marcaram numa jogada não-ensaiada: ambos estão a preparar os seus EPs, que estarão para breve. Da parte de Juse, o projecto está quase fechado, e também há novidades a caminho: “vou lançar um single depois do Joint lançar o ‘Bunda’”. Por sua vez, Joint revelou que está a trabalhar no seu próximo projecto, com cerca de seis ou sete faixas, à partida, e uma presença assinalável do companheiro Yung Juse.  

Pelas circunstâncias que levaram a que não tenha ecoado ainda mais pelas festas do país, talvez “o hit do Verão que não aconteceu” seja uma benção e uma salvação. Quem sabe se essa pequena diferença entre a liberdade de escolha individual da própria playlist festiva, e a saturação inevitável no circuito da vida nocturna, intensificada nos meses das noites quentes, terá sido o bilhete dourado para a passagem de um hit para outro, de um single para uma carreira, de uma memória para um lugar na história.


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