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Fotografia: Tomás Silva
Publicado a: 02/02/2026

Um serão de rap ao mais alto nível.

Tilt no Tokyo: dar o corpo ao manifesto

Fotografia: Tomás Silva
Publicado a: 02/02/2026

Noite chuvosa em Lisboa, perfeita para atrair até uma sala fechada e escura os devotos fiéis de um dos reis do underground do rap português. Na sexta-feira, 30 de Janeiro, o Tokyo voltou a servir de covil para Tilt, tornando-se o antro para aquele “puro hip hop com um coche de ácido”. Ao longo dos anos, o rapper da Margem Sul afirmou-se como um nome de culto no hip hop tuga contemporâneo, tanto através dos seus ORTEUM como na sua discografia a solo e demais colaborações.

A identidade está forjada e é inegável, a qualidade da escrita (e da entrega) coloca-o em qualquer lista séria de rappers mais talentosos do país, e a consistência fez a diferença para que tenha constituído uma fanbase leal que lhe permita encabeçar salas para algumas centenas de pessoas em nome próprio. Se tivesse nascido na América, Tilt teria uma vida mais do que confortável como rapper. Como o mercado português é incomparavelmente diminuto, um artista independente do mesmo gabarito que trabalha para um nicho reduzido enfrenta muitas adversidades para conseguir sustentar uma carreira.

Ainda assim, e tendo em conta a massificação irreversível do rap em Portugal as progressivas fusões com a pop e outros géneros, os seus emaranhados com a indústria, a ascensão a uma dimensão mainstream —, é gratificante confirmar que não só se continua a fazer rap à séria (não querendo aqui romantizar qualquer discurso purista), os alicerces de tudo o resto, como existe um circuito de ouvintes apaixonados a quem tocar as faixas, que se disponibilizam para comprar merchandise e apoiar directamente o artista, num ambiente de poucas fronteiras entre o palco e a plateia.

Além do mais, Tilt tem a escola da velha guarda, mas desde cedo se propôs a levar o rap por novas direcções, com uma abordagem lírica e sónica inventiva que nunca deixou margem para grandes comparações é um MC do seu tempo, não uma réplica dos que vieram antes de si, e também aí reside a chave para o culto em seu torno.

Escrita, flow, voz, discografia… e Tilt possui ainda outro argumento valioso para se apresentar ao vivo: é que o rapper é um notável performer, alguém que com a experiência acumulada sabe como ocupar um palco, concretizando cada rima com a intensidade certa, muitas vezes olhos nos olhos da plateia que tem diante de si, fazendo questão de creditar os produtores, sabendo gerir os intervalos entre temas, muitas vezes com apontamentos sarcásticos. Tal como quando referiu que seria certamente um concerto marcante, pelo menos para a meia dúzia de pessoas que se submeteram em palco às mãos de Pakistan para uma flash tattoo que imortaliza na sua pele a obra de Tilt. Haverá elogio maior a um artesão da palavra? Haverá alegoria melhor do que haver gente literalmente a cravar na pele, provavelmente para sempre, as palavras que um rapper debita ao microfone? Soa a filme surrealista, com um “coche de ácido”, os versos a saírem-lhe dos lábios e a assentarem na derme de seis ousados ouvintes. Hip hop de dar o corpo ao manifesto.

Acompanhado por DJ Ketzal, Tilt aproveitou a ocasião para interpretar temas do seu mais recente trabalho, MIASMA, um dos discos que mais impressionaram o Rimas e Batidas em 2025. Deixou também a multidão a entoar o refrão de “Vinho de Pakote”, fez subir a pulsão com a vibrante “Kapeta”, foi envolvido pelo entusiasmo da sala ao ser acompanhado nos versos de “Treze”. Mais: Tilt não fez por menos e levou até ao palco do Tokyo uma série de comparsas ilustres.

NERVE foi o primeiro a juntar-se ao ritual. Sobre os beats de Il-Brutto, e com o dobro do carisma em palco, retiraram o Escalpe a qualquer incauto despreparado para escutar as linhas de “Pratta” e “Thomasin”. Depois, Tilt convocava os seus ORTEUM, os irmãos de armas Nero e Mass, para uma série de faixas incluindo “Do Nada”, com Amon a somar as suas barras para interpretar um dos melhores temas de Sem Tirantes. Por fim, estreou em palco uma faixa inédita de Orfanato, projecto de Chapz e Pete com uma participação sua, uma dose sonora de “cavalo ou ketamina” em forma de rap. 

Mas não foi a única primeira mão da noite. Tilt revelou ainda um tema denso e vigoroso repetindo-o no final do concerto que irá integrar o alinhamento de Espirro. O seu primeiro longa-duração a solo, mais introspectivo e completo, previsto para os próximos meses, tem sido antecipado como um importante marco no seu percurso e pode muito bem ser a obra-prima de um artista que, esperemos, consiga chegar a mais ouvidos e a palcos maiores ainda que, e isso é mais do que certo, a “MEO Arena não tenha o espírito duma Gandaia”. 

Pelo meio, num momento a cappella, apelou ao voto consciente na segunda volta das eleições presidenciais, posicionando-se em rap contra a penumbra demagógica de Ventura infelizmente nem sempre o rap tecnicista contemporâneo, ou a vertente fraternal do drunk rap, explora temas políticos e sociais. Em grande medida parece que se tornou antiquado, mas a realidade de hoje leva a que gestos como o de Tilt sejam urgentes e mais necessários do que nunca desde que o rap apareceu neste país. O rap pode (e deve) ter múltiplas funções, mas neste combate deve estar na linha da frente. Seja para degolar liricamente os seus pares, para purgar as suas inquietações mais profundas, para dar asas à sua imaginação sombria ou fazer frente ao mal que nos procura assolar, Tilt é um dos nomes que dão o corpo ao manifesto nesta cultura e que dão orgulho ver na dianteira — “nunca confundam skills com views” — do rap português.


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