Throes + The Shine no B.Leza: uma banda renovada a recalibrar-se

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Manuel Abelho

“Eu sou Mob Dedaldino”, grita o vocalista dos Throes + The Shine no fim de um concerto alicerçado nos seus saltos e chamadas, alimentando-se da mestria de Igor Domingues na bateria e a excelência de Marco Castro na guitarra eléctrica e teclados, todos de branco, sem mais artifício.

Um novo e desafiante disco trouxe os Throes + The Shine até ao B.Leza, directamente do Porto — lembram-nos do esforço, com os invariáveis palavrões no clamor por “barulho”, a cada silêncio residual. Tudo menos uma forma de desconexão voluntária (que despautério!), o silêncio é um mecanismo inócuo (e breve) de recuperação, tal como o puxar de várias camisolas ressequidas em suor. A reacção temente à actuação encarniçada, tal como esperado; Marco Castro, Igor Domingues e Mob são pujança e provocação, tal como esperado.

Há umas semanas, entrevistava-os num verdejante parque de Benfica, e atentava num Mob Dedaldino lacónico, encostado à cadeira, agarrado à sua garrafa de água gaseificada como um cateter. Às vezes, não estamos no dia certo e isso não requer justificação; neste caso, uma indisposição proveniente de um frango duvidoso do dia anterior. Desperta quando atiçado, é cómico e sério no que diz, fala pausadamente com orgulho do projecto em que investiu mais que nunca, com todo o tempo do mundo abaixo dos seus pés.



É como se tivéssemos visto o amável Mob na reserva antes da prova deste 16 de Maio. Do último álbum, uma versão solo de “Paraíso” activa o seu modo sex symbol, cartada sobreposta ao litro vocal que continua a dar, as gingas pouco disciplinadas que inicia. Já há um ano sozinho como vocalista do grupo, com a saída de Diron Animal, assenhoreia-se do palco, apesar de cair num pouco de um contrassenso, uma sobrecompensação que valorizamos e não magoa: ninguém se importa, todos apreciamos a energia da banda, mas nem tudo precisava de ser uma explosão.

Longe de fazerem um baile no B.Leza, os Throes aceleram sempre que podem. Quando o relaxadíssimo Cachupa Psicadélica sobe a palco para dedilhar e cantar “Solar” (e ressurge dez minutos com um fino em riste), a sua descontracção total serve de contratempo e pode imaginar-se como metrónomo, para comparar a velocidade tempestuosa do antes e depois que fará a sala despenhar-se a qualquer momento. Esse é um momento de pausa, perante os resgates feitos a Wanga, disco anterior com produção de Moullinex — “Cabetula”, “Guerreros”, “Keep It In” (que convoca uma Da Chick afinada em jeito de vocalista dos Aqua), “Tá a Bater”, porque ‘tá mesmo.

Maior celebração num epílogo de revisitações que não são o foco, porque estamos aqui para ouvir Enza. Natural, claro, de um registo que troca o bombástico pelo reverberante, o grito pela textura, as guitarras pelos teclados esperneantes. Nele, as fichas são facilmente ganhas, a agulha da bússola orientada pelas pulsações assoberbantes e o groove cósmico. Em marcha contrária nos álbuns de Throes + The Shine, os compassos são seccionados e a pressa engole as cadências. Um avanço e vemos como apostar num pouco de paciência os faz cair graciosamente na expansão: do groove, da alma e do espaço para dançar.



Quer isso dizer que operam em duas velocidades? Talvez. O alinhamento balança os hemisférios do mundo dos Throes e acaba por uniformizar a energia, com um resultado peculiar: é claro, mas bem realizado, o transbordo entre a fase em que fazia sentido chamar-lhes Rockuduro (primeiro álbum, de que retiram nesta noite “Hoje É Festa”, mas que se podia ter transviado) e a evolução das últimas eras. Adaptam o espectáculo à velocidade desta nova fase, mas o tipo de concerto (de apresentação do disco, com um público mais fidelizado) e sala dava-lhes espaço de manobra para serem ainda mais indulgentes.

Um avanço e vemos como apostar num pouco de paciência os faz cair graciosamente na expansão: do groove, da alma e do espaço para dançar. A sequência começa com a deliciosa “ADN” e passa também pela belíssima “Silver & Gold”, o novo clássico “Balança”, a sucessora “Musseque” que faz aparecer Mike El Nite, vulgo “gajo muito fodido que vai ajudar a partir essa merda toda”. (“Keep This Fire Burning”, dada a ausência de Selma Uamusse, fica para um concerto futuro).

Até pode ser que Enza ao vivo não nos consiga oferecer momentos como a abaladora coreografia de “Shake the Floor”, ou a explosão indeterminada perto do final, uma parede sónica que se fragmenta em bocadinhos, com Marco e Mob a iniciar o caos entre nós, a tentativa da perdição a um pé só. Mas estes não são os mesmos Throes; são eles, renovados, mas ainda em fluxo. Colocam-nos na acção, com tempo para a expansão, com margem para inscrevermos nela o nosso corpo da forma que quisermos. Mas se Enza é uma maravilha, pode ainda ser uma imersão total. Marco, Igor, Mob: podem trocar-nos as voltas, é tempo.


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