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Throes + The Shine: “É muito importante pegarmos em formas de cultura que são muitas vezes marginalizadas”

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

Os Throes + The Shine – dos portuenses Marco Castro e Igor Domingues e do angolano Diron Shine – acabam de editar o seu novo álbum, Wanga – significa feitiço num dialecto angolano e é um lançamento da Discotexas que teve como produtor executivo Moullinex. O grupo deu os primeiros passos em 2012 ao inovar com uma fusão entre rock e kuduro – daí o Rockuduro – mas, ao longo do tempo e de forma natural, elementos sonoros mais electrónicos, tropicais e de música típica de vários pontos do mundo foram-se infiltrando nesta banda que transpira energia e celebração ao vivo e que é muito apreciada lá fora. O Rimas e Batidas sentou-se à mesa com Marco Castro e Igor Domingues para uma conversa numa tarde primaveril na baixa lisboeta, depois de a banda ter terminado a tour de Março pela Europa, que os levou a várias datas em França e na Bélgica.

Como é que aconteceu a colaboração com a Discotexas e o Moullinex?

[Marco Castro] – A colaboração com o Moullinex surgiu um bocado por acaso. Em Setembro de 2014, trocámos de agência – passámos da Lovers & Lollypops para a Match Attack, que agencia também o Moullinex e o Xinobi, e a coisa foi progredindo. Conhecemo-nos em Castelo Branco, num concerto que demos todos na mesma noite. Foi já na altura em que estávamos a trocar de agência e passado alguns meses surgiu a ideia de começar a compor um novo álbum. E essa ideia [do Moullinex ser o produtor do disco] surgiu assim muito naturalmente das três partes – de nós, da agência e do Moullinex. Foi um processo muito diferente do que tínhamos feito com os outros álbuns, mas definitivamente acho que foi o álbum que gostámos mais de fazer e que representa mais a visão que temos para este projecto.

Como é que funciona o vosso processo criativo habitual enquanto estão a compor um disco? Tem mudado ao longo dos vários trabalhos que fizeram? 

[Marco] – Sim, tem mudado bastante. Os dois primeiros álbuns, em especial, surgiram mais dum aspecto mais típico numa banda orgânica. E isso até vem um pouco do line-up que tínhamos antigamente – com baixista ao vivo. As músicas acabavam por surgir mais numa de jam, começávamos a experimentar coisas a tocar todos juntos e, entretanto, como no ano passado a estrutura da banda mudou, a composição acabou por se tornar mais mecânica, o que por um lado nos permitiu construir as coisas com mais atenção aos detalhes. Mesmo a forma como as músicas surgiram foram muito distintas. Por exemplo, há músicas em que foi o Igor que trouxe guitarras ou samples, há outras em que fui eu que fiz os beats electrónicos, por exemplo… há músicas que começaram com refrões do Diron. E as coisas cresceram de uma forma muito distinta entre cada tema.



Em relação aos outros discos, o que é que vocês se propuseram a fazer de diferente em Wanga? Como é que descreveriam a sonoridade deste disco, por oposição aos anteriores?

[Igor Domingues] – Achamos que este disco está mais maduro porque, com o passar do tempo, nós começámos a curtir outros estilos de música… o primeiro disco está muito mais directo, nota-se mais aquela relação entre o rock e o kuduro. No segundo nota-se já alguma evolução, onde já saímos daquela vertente tão rock, e tentámos começar a entrar naquela parte mais electrónica… e, neste, muito mais… em todo o tempo que temos de estrada vamos conhecendo outras bandas, outros estilos de música que antigamente nos passavam um bocado ao lado, temos mais kumbia, ritmos não tão ligados à parte do kuduro, coisas mais electrónicas…

[Marco] – Este disco em relação aos outros também tem uma diferença muito grande. Um dos nossos pontos fortes é a explosão que a banda tem ao vivo e toda a energia que é a ideia do projecto transmitir. E uma coisa que neste disco tentámos equilibrar ao máximo foi arranjar ali um processo de tentar fazer as músicas mais ricas do que eram antigamente porque a realidade é que transpor essa energia toda para um pedaço de plástico [um disco] não é a coisa mais fácil do mundo. E acho que o que tentámos limar mais foi chegar a um intermédio, em que as músicas consigam ser enérgicas mas que tenham uma riqueza diferente em relação às anteriores. Que fossem, como o Igor disse, mais maduras e é algo que vem muito de experiências tuas, de conheceres artistas diferentes… este álbum também tem colaborações que é uma coisa que nunca tínhamos feito antes e de vários pontos do mundo.

E como é que aconteceram essas colaborações?

[Marco] – Aconteceram, muito basicamente, em tour, a conhecer pessoas. Nós temos uma música com os Meridian Brothers, que são uma banda colombiana, de kumbia psicadélica, e que, junto com o que nós fizemos, é capaz de ser a música mais estranha do álbum mas é ao mesmo tempo das mais contagiantes. E conhecemo-los através da nossa agência europeia, eles são agenciados pela mesma, e acabámos por nos cruzar aqui em Portugal em algumas datas.



[Marco] – Depois há o Pierre Kwenders, um músico congolês que também está no primeiro single, o “Capuca”, que conhecemos em França, em La Rochelle, num festival que tocámos juntos e a coisa surgiu muito naturalmente. Achámos o concerto dele muito bom… e a música com La Yegros, que é uma vocalista de Buenos Aires. Nunca estivemos com ela pessoalmente, mas no ano passado estivemos a fazer uma tour com uma banda holandesa, os Skip&Die, e o namorado da vocalista é o guitarrista que toca com La Yegros. Ele mostrou-nos e também foi uma banda que achámos fantástica. Por fim, temos a Da Chick, que foi a colaboração mais natural de todas, quando começámos a gravar ela andava lá no estúdio – “olha, vamos tentar fazer aqui uma cena fixe”.

[Igor] – A malha também tinha assim um riff um bocado mais funky e achámos que se adequava.

Já têm apresentado as novas músicas lá fora, na digressão que fizeram agora?

[Marco] – Sim, a receptividade tem sido boa, notamos que temos dado uma dinâmica diferente nos concertos, como temos ritmos bastante distintos em relação aos que fazíamos antes. Um concerto antigamente começava a explodir e acho que continuava sempre a explodir até ao fim… às vezes isso cansava, e a dinâmica é uma coisa importante para brincares com o público. E se fizeres esses altos e baixos, quando chegas aos altos têm mais impacto.

[Igor] – Quando rebenta, rebenta mais [risos].

[Marco] Tivemos ali alguns momentos que acho que já superaram as coisas que fazíamos antes, com alguns dos temas novos. Nós ao vivo começámos a desconstruir um bocado alguns deles, a torná-los maiores, a pôr algumas partes novas. Porque acho que uma coisa importante de se fazer ao vivo é apresentar os temas, mas, em alguns deles dar ali uma diferença, mudares qualquer coisa…

[Igor] – Para não estares a ouvir exactamente a mesma coisa que ouves no disco, não é? E este álbum, apesar de ter músicas mais lentas, tem músicas mais rápidas do que qualquer um dos discos anteriores.

[Marco] – A música mais rápida tem 170 batidas por minuto. É a mais rápida que alguma vez fizemos.



Vocês têm noção ou apercebem-se de que há muito público que, quando vai a um festival e não vos conhece, estranha ou demora a perceber algumas sonoridades, como, por exemplo, as mais africanas, a que os europeus possam não estar tão habituados?

[Marco] – É uma coisa engraçada… apesar de nós [portugueses] termos toda a história colonial e de ser uma coisa a que se calhar estamos mais ligados, às vezes sentimos que a abertura que as pessoas têm lá fora acaba por ser diferente. É maior ainda porque se calhar não têm algum background de discriminação em relação a este tipo de sonoridade… que às vezes ao nível intelectual e ao nível crítico sempre teve mais colocada de lado. Hoje em dia isso já começa a acontecer muito menos e isso é extremamente positivo, porque há coisas fantásticas a virem desse tipo de cultura.

[Igor] – Acho que [lá fora] até são capazes de estranhar mais, mas, por ser algo tão exótico, acabam por dar mais atenção e por seguir mais.

Qual é a importância que acham que esta união de culturas, um pouco diferentes, tem? Não só na música, mas para a cultura em geral e para a questão transformar mentalidades e perspectivas. Vocês consideram que têm um papel relevante nesse aspecto?

[Marco] – Sim, acho que a banda ainda tem de crescer, não somos nenhuma banda gigante nem nada que se pareça, mas começas a ver isso a acontecer cada vez mais. Acho que se tu pegares em culturas que têm alguma tendência para serem marginalizadas e começares a dar-lhe outro tipo de roupagens acaba por tornar as coisas mais acessíveis para as pessoas que olhavam para aquilo um bocadinho de lado, pelos motivos errados, muitas vezes. E acho que isso acaba por levar as pessoas a olhar com outro respeito, não só nessa parte da cultura, mas tudo o que acaba por depois vir atrás disso. E é um processo super importante. Eu lembro-me, por exemplo, quando os Buraka apareceram há uns 10 ou 11 anos. O pessoal do meu grupo olhava para aquilo meio de lado. Hoje em dia, quer seja a nível comercial ou a nível crítico, são olhados como uma das bandas de eleição em Portugal. E toda essa progressão acaba por ser importante para perceber que aquelas pessoas, deste tipo de culturas que estão colocadas de parte, se calhar não deviam estar porque têm coisas muito ricas, [possam ser aproveitadas] seja num estado mais puro ou num estado de fusão com outro tipo de coisas.

[Igor] – Uma boa forma de fazeres algo original é sempre fundires coisas que sejam um bocado de níveis diferentes. Também foi um pouco isso o que tentámos fazer.

E que caminhos sonoros é que vocês tendem a cruzar para o futuro? Já vimos tanta coisa, não é…

[Igor] – Ainda não começámos [risos]. Temos estado mais focados nos concertos, mas não sei o que vai sair.

[Marco] – É ainda um mistério para nós. Quando começa um momento de composição do álbum, às vezes o que nós tentamos fazer é arranjar algum material novo ou arranjar formas de fazer coisas que sejam diferentes do que já fizemos antes. Por exemplo, o primeiro álbum foi todo feito assim mais numa onda de live to tape – gravámos em fita na altura – mais de banda de rock a tocar toda junta; o segundo já foi um disco meio nesta onda mas composto mais naquele sentido de ter aquele cuidado de gravar uns takes, depois vamos fazer overdubs a fazer arranjos diferentes, e experimentar; e este aqui foi um disco completamente feito numa onda de produtor electrónico, quase. E o Moullinex teve obviamente uma grande influência nesse aspecto. Mesmo no processo de construção, fomos mudando. Antigamente éramos capaz de ir ensaiar e, pronto, o Igor tocava bateria, eu tocava guitarra, e íamos fazendo as coisas assim, o Diron cantava…; e desta vez não, o Igor às vezes vinha com uma MPC e tinha já alguns samples programados e começava ali a experimentar, outras vezes eu pegava num teclado MIDI e fazia umas linhas de sintetizador no computador e montava uma estrutura. Foi um processo mais pensado, basicamente.

[Igor] – No início tivemos menos tempo para estarmos todos juntos e fomos fazendo muita coisa em casa… e depois quando nos juntávamos acabava por ficar muito diferente do que tínhamos andado a fazer nos discos anteriores. Um exercício porreiro que também costumamos fazer é, quando ouvimos música como consumidores, tentar ouvir coisas um bocado diferentes do espectro mais comum para nós.

[Marco] – Por exemplo, acho que a banda que ouvi mais no ano passado foi Bomba Estéreo, e Dengue Dengue Dengue, e são coisas que não têm nada a ver com o que nós fazíamos antes. Há algumas músicas como a “Guerreros” em que sinto que existe uma grande influência desse tipo de sonoridades, até por ter uma vocalista a cantar em espanhol…



E falando dessas vossas influências de outros estilos musicais… vocês tentam ouvir propositadamente géneros que nunca vos tinham dito nada ou que ainda desconhecem para se deixarem também influenciar e trazerem algo de novo à vossa música?

[Marco] – Sim, definitivamente. Olhando para o álbum, consigo ver influências diferentes e muito distintas em cada música, quase. Por exemplo, na “Guerreros”, notas muito essa influência dessas ondas mais sul-americanas meias pop. Depois temos uma música como a “Ndele”, a mais rápida do disco. Nós vamos pegando em coisas de que gostamos e tentamos dar a nossa roupagem. Nós não somos bons a emular, é algo de que já me apercebi, mas quando tentamos fazer alguma coisa na onda de algo em particular acabamos por levar aquilo para um caminho diferente e engraçado.

[Igor] – E com esta forma de composição que tivemos agora, conseguimos a oportunidade de usar samples de outro tipo de instrumentos que nós nem sequer temos. A “Guerreros” tem uma still drum, que nenhum de nós tem, aquilo é um sample, temos também [samples] de cítaras… logo aí dá uma roupagem muito diferente.

[Marco] – Mesmo a progressão na forma como dávamos os concertos… antigamente era uma coisa muito ligada ao rock – era aquela estrutura de bateria, baixo, guitarra e teclados tudo tocado ao vivo. E isso tem a parte boa de ser uma coisa espontânea e mais livre, mas depois também tem o outro lado da medalha, que é tu teres ideias para gravares um disco e às vezes as músicas expandem-se para além deste espectro que tu podes usar em concertos. E se nos tivéssemos mantido naquela direcção, estávamos a sentir que a nossa criatividade estava a ser limitada porque, olha, não vamos poder fazer isto porque depois não dá para tocar ao vivo. Então acabámos por dar uma abordagem completamente diferente. Está uma banda com uma estrutura mais ligada ao que é típico veres numa banda electrónica hoje em dia, mas mantivemos a bateria ao vivo,  e tem guitarras, para haver ali uma fusão do melhor dos dois mundos. E isso também levou a que este disco fosse muito mais livre. Não houve aquela limitação de pensar em: depois como é que vamos conseguir fazer isto ao vivo?

[Igor] – Porque há músicas em que precisávamos para aí de uns dez gajos para tocar aquilo tudo como deve ser, com toda a gente a tocar ao vivo [risos].

Voltando à vossa tour europeia de Março, vocês actuaram em Bruxelas logo a seguir aos atentados de dia 22. Esse concerto foi especial para vocês? Sentiram um ambiente diferente lá?

[Marco] – Sim, estava… todo o processo de lá chegar, de ver o ambiente da cidade, foi uma coisa um bocado tensa. Estava muita polícia na rua. O concerto esgotou [já se encontrava esgotado] mas notámos que houve ali algumas pessoas… até nos foi dito no final do concerto que havia vários bilhetes que não foram levantados por pessoas provavelmente com receio. No entanto o que nós notámos foi que, quem esteve lá – e esteve bastante gente, mesmo – foi para tentar esquecer um bocado, talvez. Foi no sentido de celebrar a nossa liberdade. Não se deixarem amedrontar pelo que aconteceu. Mas o ambiente na cidade estava pesado. E, aliás, na noite em que tocámos, houve várias rusgas no centro… quando acabámos o concerto, por volta das 23h, estávamos a pensar em ir à praça central dar uma volta, beber um copo, e foi-nos logo dito para não irmos.

[Igor] – Estava a acontecer um tiroteio lá… Mas mesmo na rua onde tocámos – perto do bairro de Molenbeek – estouraram com um carro duas ou três horas antes do concerto, precisamente na rua onde estávamos a tocar.


Wanga pode ser comprado por 10€ através de download no iTunes e Google Play ou em versão física – CD – no site da Discotexas. Além do streaming em baixo, no SoundCloud, também se encontra disponível no YouTube.



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