The Underachievers no Musicbox: a bem-sucedida fuga de Nova Iorque

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sebastião Santana

Da Pro Era de Joey Bada$$ (que passou por cá na edição de 2018 do Sumol Summer Fest) à A$AP Mob de A$AP Rocky (que também se apresentou no ano passado no NOS Primavera Sound), um conjunto de estrelas emergiu com a força de uma cidade que nunca dorme e levou ideias, sons e lifestyle muito para lá de qualquer barreira territorial. Na passada sexta-feira, pediu-se factura dessa influência e a conta final não deixou grande margem para dúvidas: sala esgotada para receber a estreia de um dos grupos mais celebrados de uma geração de rappers nova-iorquinos que surgiu nesta década que agora se finda.

A partir do momento em que Powers Pleasant, produtor e DJ que é um dos pilares do movimento Beast Coast, subiu a palco, as energias (factor importantíssimo para se perceber os Underachievers e a sua música) na Rua Cor-de-Rosa mudaram, puxando-se logo aí pela ambivalência óbvia que existe na sonoridade da dupla: ouviu-se XXXTentacion, Wacka Flocka, Kendrick Lamar, Chief Keef e Travis Scott, mas também Panic! At The Disco e Nirvana.

Do bairro que nos deu Jay-Z, Ka, GZA, Mos Def, Biggie, Busta Rhymes ou Joell Ortiz, o duo composto por AK e Issa Gold são água e fogo, consciência e ímpeto, “what happens if 2Pac and Jay Elec ever collided”, conjugando, com um pouco de psicadelismo à mistura, qualidades de velhos e novos talentos de Brooklyn (e, indo mais longe, das Costas Este e Oeste). Nessa busca por diferentes sensações, as luzes (vermelhas, azuis e verdes) da sala de espectáculo serviram para espelhar diferentes estados de espírito impostos por faixas como “Gold Soul Theory”, tema com um instrumental mais contemplativo, ou “Crescendo”, faixa carregada de sub-graves produzida pelo sempre intenso Ronny J. Clássico e moderno são adjectivos completamente inócuos nas mãos destes dois, o que faz sentido se tivermos em conta que cedo na carreira foram abraçados pela Brainfeeder de Flying Lotus, um inovador que soube fazer ponte entre o passado e o futuro. Quem também não se preocupou com as derivações estéticas foram os fãs que enchiam a sala e cantavam com o entusiasmo evidente de quem esperou alguns anos para estar ali, de corpo inteiro.

Aparentemente próximos de um meio mais preocupado com o equilíbrio entre a voz pré-gravada e o que “cospem” ao vivo do que maioria dos seus contemporâneos, não deixa de ser preocupante que dois defensores de uma certa maneira de estar no rap se percam entre as duas: se o sistema de som (ou a mistura ao vivo) não ajudou, a sobreposição também não. Um mal-generalizado que se encontra em todos os quadrantes dos novos intérpretes das rimas e batidas e um dos grandes problemas que precisa de ser revisto e resolvido rapidamente.

Esta actuação acontece em ano de álbum de estreia (Escape From New York) da Beast Coast (supergrupo com Pro Era, Flatbush Zombies e The Underachievers), que, na semana de estreia, alcançou o 29º lugar na Billboard 200, dado pouco relevante no valor artístico, mas importante enquanto medidor de popularidade dos intervenientes em 2019. E pelo que se viu ontem no Musicbox, em Lisboa, ainda existem muitos crentes que continuam a acreditar nestes “lordes de Flatbush” e na sua “arte da dualidade”. 90s til infinity.