Beast Coast // Escape From New York

[TEXTO] Moisés Regalado

Beast Coast é o mesmo que falar em Pro Era, Flatbush Zombies e The Underachievers num só. Ou o mesmo que falar no improvável — juntar quase dez MCs com skills e químicas invejáveis — por oposição ao impossível: aconteceu efectivamente. Como se não bastasse o talento de todos estes rapazes para sujar o pop filter, a selecção instrumental da sua fuga de Nova Iorque, quase sempre assinada por Powers Pleasant, nem é das mais ambiciosas que tem aparecido mas está suficientemente apurada para que o rato — ou o polegar — nem sequer se aproxime do botão de forward.

No disco como na vida, o colectivo que junta três das melhores crews nova-iorquinas da actualidade faz-se notar sobretudo pela força dos Zombies e pela omnipresença de um Badass que ainda não parou de crescer, só que as aparições de Kirk Knight, Nyck Caution ou Issa Gold elevaram Escape From New York a um nível que dificilmente atingiria sem as suas presenças. Porém não vale a pena negar: a presença mais impressionante é, com pouca margem para dúvidas, a de Meechy Darko.

Às certezas sobre o talento do carismático MC de Flatbush, vem agora juntar-se a confirmação da sua polivalência, cada vez mais impressionante. O que Darko fez em “Snow In The Stadium” ou “One More Round”, até perante as excelentes prestações dos restantes rappers de serviço, não está ao alcance de qualquer um, e só alguém com o carisma, o talento e o persistência de Meechy se pode candidatar à eternidade.



A cumplicidade entre os presentes vem de há muito e faz o resto: cadências como a de “Left Hand” só são possíveis quando os elementos se alinham em perfeita sincronia, e a improvável subtileza com que as entoações de Darko se vão intercalando com os apontamentos mais clássicos de Joey ou com a destreza técnica de Juice ou Issa Gold só é possível quando os laços familiares falam mais alto. Não fosse o silêncio mais pronunciado de alguns elementos fundamentais (CJ Fly ou AKTHESAVIOR) e nada faltaria para que a festa estivesse completa.

As credenciais já estavam mais do que confirmadas e esta é uma estreia que não o parece exactamente, mas acompanhar a plena afirmação daqueles que até há pouco tempo eram promessas também é fazer parte da história. E que história esta: um grupo de amigos sem fim à vista, num mar de gente talentosa e que trouxe para cima da mesa um dos projectos mais honestos e sérios deste final de década.

Pode até existir quem sobressaia ou quem se aproxime do microfone mais vezes do que alguns dos seus camaradas — não sabemos exactamente os porquês nem há nisso qualquer interesse; é certo que resulta. Funcionou tão bem neste arranque a sério do colectivo Beast Coast como tem funcionado nos seus grupos — ou melhor. Afinal, se ouvir Meechy e companhia ou Issa Gold é bom, ser surpreendido por um Darko ou por um Issa que irrompem por entre uma série de outros talentos, normalmente alheios às suas criações, consegue elevar toda a experiência.

Para o futuro próximo não se guardam expectativas porque nem vale a pena tê-las: quando Beast Coast voltar a ser assunto, seja este ano ou para lá de 2020, é certo que o movimento hip hop terá motivos para celebrar.



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