The Alchemist: manual de como dar uma festa para a família hip hop em Lisboa

[TEXTO] Ricardo Farinha e Diogo Pereira [FOTOS] Sebastião Santana

Como em qualquer subcultura urbana que nasce a um nível micro e se expande enormemente ao longo dos anos, formando anéis e anéis cada vez mais largos e distantes do epicentro, não deixa de existir o núcleo duro, aqueles que estão mais próximos da raiz ou da essência da coisa. Com isto não nos referimos a estéticas sonoras, como à cada vez mais aborrecida divisão entre boom bap e trap, mas sim para enfatizar que a actuação deste sábado, 23 de Setembro, no Musicbox, em Lisboa, do lendário The Alchemist, foi uma reunião de família para as chamadas cabeças do hip hop — os tais que, por uma questão de maior interesse ou participação activa, integram este núcleo duro, que nunca é fechado — mesmo que sejam de uma geração mais nova ou tenham “entrado” recentemente. Os anéis não têm portas fechadas nem são, de todo, estáticos.

Não é fácil explicar o que é sentir-se, ou sentir um determinado ambiente, como hip hop — até porque serão questões eternamente subjectivas —, mas não temos dúvidas de que a noite de ontem nos proporcionou essa sensação. Um espírito alegre, de comunhão, um certo sentimento de pertença, uma energia no ar que não conseguimos ver, apontar nem descrever bem, mas que foi materializada, por exemplo, por uma espontânea roda de breakdance à frente do palco enquanto DJ Spot ainda enchia a casa com clássicos, sobretudo dos anos 90 — de “Chief Rocka” dos Lords of the Underground a “Don’t Sweat The Technique” de Eric B. e Rakim, além de “Dedicatória”, dos Mind da Gap. Tudo fica muito mais hip hop quando os bboys (a maioria da Natural Skills Crew, neste caso) estão na casa. E que bela casa estava.

The Alchemist tinha esgotado o Musicbox e a sala de espectáculos do Cais do Sodré estava uma verdadeira passadeira vermelha VIP do género, se o hip hop tivesse dessas coisas (e ainda bem que não tem). Entre o público eram muitas as caras conhecidas: de Vhils a Holly Hood, de Nel’Assassin a DarkSunn, de ProfJam a Landim, de DJ Glue a Fumaxa, de Weis a DJ Kronic, de Stone Jones a Tekilla, passando por Expeão, Sensei D, Maria, Chris, Tayob Juskow, DJ Maskarilha, ou, claro, Slimcutz, que iria actuar a seguir, entre outros que certamente não vislumbrámos entre a compacta multidão. Só prova a importância de The Alchemist para várias gerações de, acima de tudo, ouvintes e fãs de rap, que, enquanto artistas, têm ainda “escolas” e estilos bastante distintos.

Para quem tinha chegado de avião apenas um par de horas antes, The Alchemist estava com energia e bem disposto para arrancar com um set que desfilou dezenas de batidas, das mais soulful aos bangers, passando pelas mais progressivas e abstractas. Riffs de guitarra, sopros funk, vozes soul em slow pitch e notas agudas e sinistras de sintetizador — tudo aquilo que podemos encontrar na música do alquimista californiano, em passagens relativamente rápidas e de forma dinâmica.

 


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Que bom para todos que o sistema de som do Musicbox estivesse particularmente inspirado (ou bem “afinado”, claro, para o que se iria passar ali). De gorro na cabeça, óculos na cara e normalmente com um cigarro nos lábios, Daniel Alan Maman foi sempre puxando pelo público — “como é que é, Lisboa?” —, tentando fazer a festa enquanto DJ e mestre de cerimónias, além de cantar (ou dar as “back vocals“) de alguns temas do alinhamento. Muitas vezes ia gesticulando no ar, como se segurasse uma batuta, qual maestro de uma sinfonia hip hop.

Ouviram-se clássicos sobretudo da Costa Este, mas não só: de Nas a Royce Da 5’9”, passando por Gangstarr, Dilated Peoples, Notorious B.I.G. ou Ol’ Dirty Bastard, além dos muito tocados Mobb Deep (e não esquecer que a Versus, promotora responsável por trazer The Alchemist a Portugal, traz Havoc ao mesmo Musicbox a 24 de Outubro, exactamente daqui a um mês, a propósito do Jameson Urban Routes).

Foi com a dupla de Queensbridge que o público mais vibrou: houve mosh e festa rija na sequência de “Survival of the Fittest” e “Shook Ones (Part II)”, passadas de seguida. Uma homenagem conjunta de The Alchemist e do público a Prodigy, rapper que nos deixou este ano e um dos maiores colaboradores do produtor. Tekilla fez ainda um stage dive algures durante a actuação e vimos pelo menos uma tentativa de crowd surf. Além disso, não ficámos sem ouvir temas icónicos como “Shine”, “Stop The Show” e “Hold You Down”, com as rimas do próprio The Alchemist. Dançar hip hop durante duas horas em família na performance de uma lenda viva devia acontecer (bem) mais vezes.

 


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