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Fotografia: Sean Alexander Geraghty

“Tem tudo que ver com sentimentos.” Uma conversa com GAIKA

Fotografia: Sean Alexander Geraghty

[ENTREVISTA] Ricardo Miguel Vieira, em Londres [FOTO] Sean Alexander Geraghty

 

Final de tarde de Novembro, Brixton. A azáfama que é o encerrar de mais um dia de trabalho atinge o seu pico no centro da avenida que atravessa esta zona do sudoeste de Londres. Gente e mais gente concentra-se à boca da estação de metro. Há um par de figuras vestidas com coletes coloridos que distribuem o vespertino do dia. A poucos metros de distância, dois homens negros, altos e sorridentes, exibindo barretes vermelhos, amarelos e verdes, batucam ritmos caribenhos que se misturam com a essência da loja de pipocas e doces ali ao lado. Os autocarros, no seu barulho rouco, seguem-se uns aos outros, numa repetição que se assemelha a uma qualquer fábrica de produção maciça. Entre as estridentes sirenes das ambulâncias, escutam-se conversas soltas, nenhuma delas perceptível. São inúmeros os encontros linguísticos neste passeio, é assim todos os dias. Mas há uma mensagem que ressoa mais alto que todas as outras. Emerge da voz sôfrega de uma mulher negra e baixa que segura um microfone na mão enquanto grita: “Deus está a chegar. Ele ama-vos a todos e perdoa os vossos pecados.”

Foi neste ambiente frenético, humano e carregado de espiritualismo que cresceu o produtor e artista visual Gaika Tavares. É com ele que o Rimas e Batidas se encontra num cine-café icónico de Brixton, instalado num distinto edifício vitoriano. O pretexto para a nossa conversa é o recente lançamento do EP SPAGHETTO na influente editora britânica WARP – sem dúvida, um momento assinalável. Há pouco mais de um ano, este artista proveniente de uma família de criativos e engenheiros (um dos seus irmãos é realizador; o outro é investigador no MIT) lançava de forma independente a tenebrosa mixtape Machine, projecto que recolheu rasgadas considerações pela sua estética electrónica singular que reúne referências grime, R&B e dancehall. Security, a mixtape que se seguiu, editada num intervalo de tempo inferior a um ano, recebeu semelhantes considerações, agregando a si elementos visuais que enriquecem o diálogo introspectivo, e ao mesmo tempo colectivo, de GAIKA. E agora SPAGHETTO, mais um trabalho denso e complexo que mantém uma identidade emocional, local (sem o ser) e socialmente consciente que é ímpar no panorama musical britânico.

Mas debater a arte de GAIKA é, ao mesmo tempo, reflectir sobre emergências sociais, multiculturalidade e como todos estes fluxos e transformações e se manifestam nas nossas emoções. Daí um encontro em Brixton, um lugar onde o mundo cabe por inteiro, que sobressai pela riqueza cultural e humana únicas na City, a par da lenta gentrificação e desmantelamento das históricas comunidades locais através de rendas obscenas e despejos arbitrários de negócios locais. Seja pela via das artes visuais ou das linguagens vocais que exibe na música, o corpo de trabalho de GAIKA ergue-se como expressão da realidade que regista na mente e que se traduz numa construção sónica que muito nos revela muito sobre os tempos de incerteza que se vivem um pouco por todo o globo.

No fundo, como nos conta à mesa do emblemático Ritzy, passa tudo por sentimentos.

 

Este último ano e meio tem sido sempre a apontar aos céus. Lançaste duas incríveis mixtapes e agora tens um EP na prestigiada WARP Records. Sentes que esta ascensão está a acontecer demasiado depressa? O que é que mudou na vida de GAIKA – o artista e a pessoa?

Tenho mais miúdas. É isto (risos). Tem sido estranho. A vida transformou-se ligeiramente. Eu vivo dentro de uma bolha, portanto também não sei bem [como é que a minha vida mudou]. Senti que aconteceu tudo depressa, mas ao mesmo tempo tenho outras coisas a desenrolarem-se na minha vida que fazem isto parecer muito pequeno.

Agora na WARP tens o teu trabalho num catálogo que inclui artistas como Flying Lotus, Aphex Twin ou até Brian Eno. Sentiste alguma pressão por integrar a editora?

A minha integração na Warp não foi nada complicada, alguém lhes fez chegar a minha música e eles gostaram. Eu aprecio FlyLo e todos os artistas que mencionaste, mas nunca sentirei ansiedade por gravar um álbum ou por existir alguma espécie de concorrência. Não defino a minha vida desse modo. A menos que se trate do Prince, nada mais me interessa. A música não é assim tão importante [que me faça sentir pressionado].

Como é que enquadras SPAGHETTO no teu corpo de trabalho? Montaste o projecto nos alicerces dos teus discos anteriores ou é um desenho totalmente novo?

Todos os meus projectos são conceptuais, existem no seu próprio espaço. Podem conter alguma ligação a outros espaços, mas resistem como um só. Sinto que [SPAGHETTO] é uma espécie de colecção de músicas de amor que se insere num projecto artístico mais vasto. É sobre muitas coisas, mas sobretudo emoções que todos sentimos, particularmente amor e paixão. Ambos não são reais separados do contexto no qual existem – tal como não separamos o molho da massa. Muita da música emocional é apenas sobre amor, mas isso não existe por si só. Este EP é sobre isso. E também inclui comentário social, como aliás toda a minha música. No fundo, é um trabalho conceptual que dura 31 minutos.


“Brixton é um eixo de ligação de imigrantes que acaba por te fazer criar uma sonoridade global.”


SPAGHETTO, à imagem de outros projectos, aborda de facto inquietações sociais e as desigualdades que afectam diferentes comunidades. Mas também é fortemente tingido de um sentimento humano, expondo emoções de forma aberta. De que modo procuras equilibrar estes elementos na tua música?

Na realidade não penso sobre o assunto, apenas faço música. Honestamente, não compreendo porque é que as pessoas consideram a minha música inquieta. Eu não sou inquieto, apenas digo a verdade. Sempre vivi em Londres e isso compreende um elemento paranóico. Nunca tive consciência de outra abordagem que não fosse o expressar de modo real aquilo que penso. Isto acaba por ter tudo a ver com sentimentos. O meu trabalho é apenas uma representação da vida, desta realidade.

As intersecções vocais que caracterizam o teu estilo ajudam-te a equilibrar esses elementos? Moldam as percepções que trazes para a tua música?

[As intersecções] remetem-nos para a linguagem. Estou seguro que falas de forma diferente com os teus amigos ou família do que comigo. Nós falamos linguagens diferentes para diferentes emoções. Ou seja, as variações vocais não são mais do que aquilo que melhor se encaixa em dado momento. Qualquer imigrante que fale línguas diferentes sabe como diversificar esses elementos. Faço o mesmo mas para expressar as emoções que melhor se relacionam com as palavras que estou a cantar.

Será também uma marca de identidade enquanto pessoa e artista?

Até certo ponto sinto que é importante representar todos os aspectos da minha identidade, de quem sou, e dizer a verdade. As pessoas dizem-me, ‘tu não falas como cantas’, ao que respondo, ‘como é que sabes qual a forma como falo a toda a hora? Já estiveste comigo na Jamaica ou em casa para saberes como falo? Não.’ Na verdade, eu não sei rappar de outra forma, e se o fizesse soar-me-ia a falso. Mas, ao mesmo tempo, também não viria aqui falar patois [n.r.: criolo jamaicano, língua oficial do país], porque isso também seria falso. Todas estas coisas são reflexo da minha pessoa e são histórias de imigração. Só porque os britânicos se sentem confortáveis comigo a falar como eles significa que vou cantar desse modo? Não.

Sentes que as pessoas compreendem a tua música, ainda que se enquadre em conceptualizações muito pessoais?

Não! Quer dizer, algumas sim, outras não. As pessoas que quero [que compreendam], sim. Raparigas aos berros nos meus espectáculos também compreendem, o que me deixa feliz. A minha família e amigos também a entendem. Agora, estou preocupado que as pessoas que não são o meu alvo entendam a minha música? Nah.

 


[SOBRE A WARP] “Nunca sentirei ansiedade por gravar um álbum ou por existir alguma espécie de concorrência”


Como imaginas que é o público que escuta a tua música?

Não faço ideia, nunca consegui perceber. [A minha música] parece ter uma estética particular que atrai um estrato de pessoas que tem algumas raízes nos mesmos sítios de onde venho, mas não sei quem ouve a minha música em casa. Penso que seja um cruzamento de pessoas, tal como costumo ver nos meus espectáculos. Neste aspecto acabo sempre surpreendido. Há muita gente de origem caribenho-americana que diz, ‘esta é a dance [music] que tanto procurei’. Jamaicanos licenciados também a adoram (risos). E tenho uma audiência hispânica e portuguesa que parece identificar-se com a minha sonoridade e com o sítio onde vivo em Londres. Não consigo perceber o porquê, mas parece que há aqui alguma conexão que faz sentido para estas pessoas.

E o que é que a tua arte exibe que faz com que as pessoas se sintam conectadas com ela?

Eu faço música para os imigrantes daqui. Afirmo isto porque esta contém aquela experiência imigrante que faz com que tenhas de conhecer outras línguas ao mesmo tempo que uma série de elementos se cruza e mistura com a tua cultura de uma forma diferente. Penso que será essa a única coisa que para mim faz sentido nisto, e daí actuar um pouco por todo o mundo.

De certo modo, a tua música pretende despertar as pessoas para tudo o que as rodeia, para o que transforma a sua condição.

Sim, daí que a defina como música de imigrantes. É, sem dúvida, influenciada por viagens pelo mundo e talvez seja por aí que carregue um certo deslocamento e alienação que parece reverberar em imigrantes e viajantes. Quando viajas muito, tornas-te hiper-consciente do que te rodeia e quando regressas a casa observas toda uma séria de alterações. Daí que destas referências acabes por criar a tua própria cultura – a tua linguagem, sotaque, modo de falar. Tenho a certeza que compreendes o que estou a dizer, porque também és um imigrante. Ninguém sabe de onde realmente venho, não conseguem descortinar porque não tenho um sotaque típico de Londres, nem tão pouco britânico ou americano. É uma mistura de todos estes elementos. E é assim que acabo por criar a minha própria cultura, localizando-se não num espaço físico, mas mental e psicológico.

Brixton de facto é um caldeirão a transbordar de comunidades de todos os cantos do planeta. Como é que foi crescer aqui e de que modo esta multiculturalidade sobressai na tua arte?

Crescer aqui foi bom. É um lugar culturalmente muito interessante e misto. Há umas décadas, o ambiente era mais bruto, mas agora é lugar cool em certos aspectos. Não sei se em Portugal estão interessados em saber isto, mas há uma grande concentração de portugueses na área onde neste momento resido – em Oval, aqui perto. Não foi sempre assim, aconteceu num curto período de tempo, o que é fantástico. Londres é uma cidade pesada onde tudo é muito fluido. Sem dúvida que ter nascido aqui, e especialmente numa área tão fluída como Brixton, teve um grande impacto na minha música, porque, de uma forma estranha, representa esta secção de Londres e toda a sua mistura de pessoas que veio viver para aqui. Noutras partes de Londres, não encontras necessariamente uma amálgama de imigrantes das Caraíbas, América Latina e Europa como nesta zona. Brixton é um eixo de ligação de imigrantes que acaba por te fazer criar uma sonoridade global.

E encontraste alguma reacção particular das pessoas de Brixton em relação à tua música? Talvez estivessem à espera de algo diferente, de outros géneros e estilos que costumamos escutar frequentemente nesta área – grime, reggae?

Nah. Eles conhecem-me, sabem o que vou trazer e julgam-no pelo que é. Ninguém me vai questionar o que estou a fazer. Eles sabem o que crio. Podem é dizer que sempre fiz isto, independentemente de onde vem a minha música, que sempre fiz o que quero. Isso não me surpreende. Os meus irmãos e as pessoas com quem cresci gostam da música. Nos cafés também estão a rodá-la. Há uma certa demografia de pessoas que escuta a minha música e que pode viver aqui, embora não sejam necessariamente nativos.

 


“Nunca tive consciência de outra abordagem que não fosse o expressar de modo real aquilo que penso”


Que emoções te ajudam a produzir?

[Reflecte durante largos segundos] Raiva. Tristeza. Sexo. Felicidade. Glória. Todas as emoções. Eu não faço música super feliz, porque para mim é aborrecida. Às vezes sinto-me contente, mas não venho de um lugar onde me veria a escrever canções felizes. Mas não quer dizer que sejam todas negativas, algumas até são muito positivas.

Sentes que tens uma perspectiva mais clara sobre a vida ao reflectires nos seus aspectos mais sombrios?

Não, nem crio música dessa forma. Apenas conto as coisas como são, e nem tudo é negro. Não escrevo a pensar na perspectiva negra, escrevo sobre perspectiva, como as coisas são. É como me sinto, mas não sou uma pessoa triste. Muito do meu trabalho tem que ver com a impermanência das coisas, da vida. E falo muito de coisas optimistas, sobre conquistar coisas que à partida não és suposto atingir.

Música que se foca na realidade é para ti uma plataforma para, na tua mente, procurares o sentido e lógica de toda a loucura que nos rodeia nos dias de hoje?

Toda a arte é uma forma de expressar o que se tem na mente. Se não for assim, então não é real. O que quero dizer é que [a minha música] não é expressão de qualquer inquietude dentro de mim. Sou uma pessoa forte, terra-a-terra. Por isso mesmo é que digo a verdade e mostro vulnerabilidade na minha música. E, sim, muitas vezes actuar ao vivo deixa marcas, mas ultrapasso-as sempre. É como te disse, há outras pessoas e coisas no mundo que são bastante mais sérias do que como me sinto. É com isso que me preocupo.

 


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