T E R R O R: em busca de uma maldade periférica

[TEXTO] André Forte [FOTO] Direitos Reservados

Terror é um colectivo, é uma label e é uma máquina de ruindade, pronta a compactuar com todo o tipo de megeras para semear a desordem entre as famílias — surge com o intuito de dizer que não há nada aqui que seja melhor do que o que vem de lá. A beleza desta ideia é que os conceitos geográficos, “aqui” e “lá”, não existem como referências estanques para absolutamente nada. O Terror cresce, assim, sabendo que a relação entre dois elementos, de origem humana e intenção mais ou menos profana, é sempre uma possibilidade, e que o que os separa é menos importante do que aquilo que têm em comum.

Quem o disse foram os próprios, em conversa com o Rimas e Batidas a partir do CERN (estúdio e centro de operações no Porto do colectivo Soopa, que cruza órbitas com os trabalhos de todos os intervenientes). Trocadas as primeiras palavras, fomos imediatamente encaminhados para os argumentos que o colectivo melhor construiu, a sua música: peças de exploração antropológica canalizadas por sistemas de som para diluir pré-construções e fronteiras, afectos aos mais conservadores, ou, talvez pior, a quem estabelece uma hierarquia entre expressões igualmente válidas. Na sua música, fluem e interagem entre si elementos aparentemente tão díspares quanto funk carioca, reggaeton, cumbia – da América Latina -, gqom – do Sul do continente africano, e flamenco – aqui da nossa Península. Numa única faixa com o selo Terror é possível perceber que a viagem de um para outro não é a única forma de os juntar numa peça. É possível ligá-los pelas suas semelhanças e criar um objecto que gravite entre todos eles, mas de forma independente.

Segundo Luís Kasprzykowski, há uma certa aversão a abordagens excessivamente académicas das expressões que compõem a matéria do colectivo: “Nós tiramos as coisas de redomas para interagir com elas”. Esta é uma noção comum aos quatro elementos fundadores, a saber: Luís, produtor, aka Challenger e DJ Acaba; Frankão, MC, rapper, percussionista e representação internacional oriunda de Volta Redonda, Rio de Janeiro, aka O Gringo Sou EU; Diogo Tudela, produtor, aka Tar Feather e Make’em; e um nome familiar ao Rimas e Batidas, Jonathan Uliel Saldanha, também produtor neste contexto (e em muitos outros).

A ideia essencial, enquanto grupo, é a de que a cultura tem de ser viva e vivida. De que diferentes expressões comungam de valências equivalentes, impossíveis de classificar, julgar, ou de declarar como institucional, popular, o que seja. “Toda a cultura é popular. Se sai de alguém da população, ela é popular”, atira Frankão. “Quando vira institucionalizada, ela vira uma coisa encaixotada. Isso acaba com a cena, mata a cena”. Esta é uma ideia que transpõem para as noções de “cultura periférica”, que tratam como não o sendo, e que distanciam de um “olhar ocidentalizado branco” sobre o que essas sonoridades representam de facto. E isto traduz-se em método e numa singularidade sónica, geográfica e referencialmente comum a todo o Terror.

“O grande lance do Terror é estar aberto para o mundo, apesar de a génese ser sempre portuense. Quando eu ouvi os primeiros beats, a remeter ao funk carioca, a primeira coisa que disse é que não, aquilo não é funk do Brasil. É funk do Porto”. Frankão, que além de rapper é um dos principais promotores do samba na Invicta, tem propriedade para o afirmar: “Aqui nada é parecido com o que originalmente seria”. Esta é uma característica comum a toda discografia que têm vindo a apresentar, desde que iniciaram a actividade, ainda no final de 2018, até ao mais recente EP Cangote / Quadril, que pode ser escutado em primeira mão aqui.“Terror é uma coisa muito específica e  direccionada, mas tem um espectro muito alargado.”

Depois do gqom e do funk, de incursões a ritmos que transpiram Caraíbas e da abordagem às soluções melódicas da música popular da América do Sul, o Terror muda o foco para zonas mais abaixo da cintura, de ascendência reggaeton, em duas malhas com um crescimento que extravasa os limites estruturais da premissa. Fugindo às cadências óbvias do género e referenciando-o através dos elementos melódicos, as duas crescem com os elementos rítmicos, banhados por flamenco, carimbó e samba. As duas faixas do EP, que tem uma fotografia de Sara Barros como capa, compõem um tipo de aventura sónica familiar, mas de categorização difícil, uma espécie de problema que, bem, não o é. Pelo contrário, abre um possível caminho para a próxima mutação destas culturas não-cristalizadas.



Terror tem um referencial partilhado, construído em conjunto e que tinge toda a produção do colectivo. É uma biblioteca de sons que, segundo Frankão, “têm a sua singularidade local, mas na sua maioria têm as mesmas origens: no povo negro que se fodeu”. É uma ideia transgressora, mas que abre um role de possibilidades, algumas das quais talvez novas. “A ‘Fúria de Reis’, por exemplo, tem imensos elementos de percussão da Folia de Reis [cultura típica do Vale do Paraíba, semelhante à das Janeiras em Portugal], mas também tem percussão transmontana. E combinam perfeitamente. No background também tem uma gravação de gaita galega que encaixa com o assobio. Não motivo nenhum para não colar sonicamente”, explica Diogo Tudela. E Frankão ilustra isso de forma um pouco: “eu próprio não sou um MC de funk. Sou um MC. E Terror é livre”. Por isso mesmo, ninguém neste texto é produtor de algo mais específico do que “música”.

Isto é fruto de uma necessidade de alimentar uma máquina de forças centrípetas resultante de uma obsessão por ritmos diferentes, mas de origens não tão distantes; é, também, o esperado quando o grosso do trabalho é o digging. “A maior parte do tempo que passamos juntos é a ouvir e partilhar música”, diz Diogo, explicando como se realçam “elementos que, à partida, nada têm a ver, mas que compõem a nossa comunicação”. Uma comunicação que bebe tanto de um King Tubby como da Rihanna, que vai buscar tanto ao Kode9 quanto ao Daddy Yankee. “Nesse sentido, nós queremos ser agentes verticais dentro destas sonoridades”, tendo por regra, apenas, evitar o 4:4 habitual da Europa. “Quando a parada vira quatro por quatro perde a maldade”, e quem o diz é o Gringo, e não nós.

A procura pela tal “maldade” comum acontece sem medo de uma “apropriação cultural”, que para o Terror não é sequer evitável: “Enquanto privilegiado, o conceito de apropriação cultural é uma questão confusa para mim, principalmente em termos musicais. Ao considerar que o que fazemos é um mecanismo de apropriação e é negativo, defende-se obrigatoriamente que há uma qualquer génese pura. Está-se a invalidar aquilo que é importante, que é a circulação de referências”, atalha Diogo Tudela. “Quando se fala de apropriação, vemos apenas um vector: aquilo que o Ocidente está a retirar de culturas consideradas periféricas.”

A circulação de ideias e referências é essencial para o processo criativo de Terror, que toca em géneros normalmente marginalizados por ideias preconceituosas e lhes dá novas roupagens, como é o caso do reggaeton, do dancehall, ou do funk carioca, não raramente chamados misóginos ou sexistas. Uma acção, de resto, não alheia à carga destas expressões, e que sela com Terror novas mensagens. Contribuem, assim, para uma revitalização destes géneros, apesar se o minimizarem em relação, como exemplificou Luís, à Kebraku, que faz por estas culturas e pelo Porto muito mais do que o que nós fazemos.

Esta ideia está latente em todos os elementos do colectivo, que repercutem de formas diferentes. Para o Diogo, “o reggaeton está a ter um impacto político-cultural na comunidade hispânica semelhante ao que o funk teve nas comunidades brasileiras. Há uma noção qualquer nestas expressões de tomar uma atitude operacional para ocupar o lugar em que se quer estar”. Eles vêem-no no reggaeton, com cada vez mais artistas femininas, e no funk do Brasil, que tem em Linn da Quebrada, por exemplo, uma nova força transgressiva, mas positiva. Isto permite, sob a lente do Terror, não hierarquizar ou julgar estes géneros, para os colocar de igual para igual, e para os relacionar além das cadências que os definem. “A gente é livre para não julgar a Beyoncé e para admirar a música da Anitta.”

Para Frankão, não é o funk ou reggaeton, que são sexistas e misóginos. “O funk carioca teve várias fases: a do protesto; depois ficou funk de galera; depois tem a fase funk proibidão, de favela, que fala de tráfico de droga; veio a fase do funk de consumo, que fala dos grandes carros; e tem a fase do sexual, que nada mais é do que o que as pessoas estão vivendo. A cena sexista que há dentro do funk surge porque a cultura predominante é completamente sexista. O Brasil vende bunda para o mundo inteiro — o Carnaval é bunda, a novela é bunda, é tudo bunda, e quando o funk vai falar de bunda… ‘Pera aí, favelado falar de bunda não rola. E eu acho o funk mais honesto, porque ele não vai falar de bunda disfarçadamente, fingindo que não está fazendo nada. Você sabe o que eles estão falando, nítido. Você ouve, ou não ouve.”

Em Terror não se teme uma sensualidade, que os próprios dizem ser um caminho para a sexualidade. Não há, porventura, uma expressão tão declarada quanto nas expressões “faveladas” do funk, mas há sol, há água e há bunda, sem vergonha e como motivo sintático para uma voz tão rouca quanto uma tuba, a acrescentar camadas de graves à segunda malha do primeiro EP — nem por acaso, intitulada “Sol-Água-Bunda”. A mesma sensualidade encontra lugar em “Carga / Roço”, segundo lançamento da label e mais focado num ritmo dancehall, retalhado em percussões e re-espacializado com elementos mais tendencialmente melódicos africanos; situações onde, de resto, a sensualidade e o toque serão inevitáveis.



A constante procura por “maldade”, por outro lado, resulta numa série de outputs bem distintos e que também têm vida própria. Por um lado, quando os riddims estão terminados são libertados na net, e ficam disponíveis gratuitamente. “A ideia é que as pessoas ‘roubem’ os beats; têm as versões sem voz para isso”, diz Frankão, ideia que Luís completa bem: “Já há pessoal a usar os nossos beats e a samplar cenas nossas para sets. Isso é impagável”. Faz parte do ciclo impuro com que pactuam. Por outro lado, a própria máquina Terror passa por mutações quando surge como Terror Sound System, ao vivo: “operamos como um soundsystem, no sentido mais original do conceito: um PA, produtores/DJs e um MC”, explica Luís. E, tal como num soundsystem jamaicano, nada permanece, nem é reproduzido de forma estéril.

“O nosso live act comporta uma parte de live, mas também uma de DJ, e ambas são muito trabalhadas. Raramente tocamos algo até ao fim; editamos e trabalhamos o som. Há sempre material no sampler, uma série de células a disparar som e live dub”, conforme revela Diogo. É uma abordagem que canaliza uma série de inputs totalmente díspares para um único output, num processamento de fetiches, influências e gostos quase promíscuo. “Terror tem muito a ver com esta promiscuidade. O funk veio para cá, o gqom, o dancehall, o reggaeton também, mas tudo é filtrado pelos nossos passados musicais, muito tocados por esta cidade. É um som daqui”. O tal anteriormente referido  “funk do Porto”, talvez.

A influência da Invicta na música de qualquer um dos intervenientes é retroactiva — não aconteceu de forma alheia à sua própria acção. Na conversa entre o ReB e o Terror falou-se de colectivos como o Faca Monstro como referência para o que estão agora a construir, tratando-se de um conjunto de artistas portuense a trabalhar bass music, e em que todos o membros de Terror, com excepção de Diogo Tudela, participaram; ou até de uma certa cultura descentralizada que parece ser partilhada pelos artistas da cidade. “O Porto tem uma cena interessante: está-se a cagar se aquilo é o que vai bater, ou não; o Porto faz a sua cena. Isto é a minha opinião enquanto estrangeiro. No tempo em que vivi em Lisboa, ficou claro que quando há um mercado instituído é muito mais difícil de trabalhar se você é um zé ninguém. O Porto tem uma abertura maior”, diz Frankão.

Terror vive, por isso, de trazer para um centro comum de acção e de disseminação de horrores e mutações musicais uma série de culturas que se têm como periféricas. Este centro não passa de uma condição geográfica que, depois de muitas aventuras musicais diferentes, permitiu o surgimento desta operação, onde se colocam todas as expressões no âmago de uma permeabilidade especial da cena musical portuense. É, assim, uma celebração de uma cidade que cultiva uma certa necessidade de marginalidade e permanece alheia a um centralismo capital. E surgiu por necessidade, hedonista, motivado por uma urgência preocupante, a partir de uma conversa entre Tudela e Frankão, coincidente com a possível (e infelizmente iminente) eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil. “Se liga na pista” foi a primeira malha de uma linha de tecidos culturais muito intrincada a sair para a rua. A violência do som é paralela a um ressurgir de uma tendência quase desumana, retratada de forma abstracta em ladrar de cães, uma cadência quase funk carioca e um lance melódico mais dancehall. Uma energia alimentada tanto pela produção saturada como pela letra, reflexo nítido da motivação original: “Se liga na pista/ Temos fascista, temos fascismo/ Isso não é um treinamento/ É real do momento.”

A urgência da primeira faixa acabou a infectar toda a acção do selo Terror, desde a editora à produção. Lançada imediatamente depois da primeira volta do sufrágio brasileiro, sem masterização ou mistura, esta música vive sob um mote lançado por Frankão e que acabou por definir o trabalho do colectivo: “Lança primeiro, mistura depois”. Um não-problema resolvido pelo próprio: “Isso é uma coisa legal que a tecnologia te dá. Há uns dez anos nem havia primeiro single. E eu sou a favor disso. O trabalho tem de sair de qualquer jeito.”

“Eu gosto dessa cena do Terror, de ir lançando. Mas eu vou sossegar quando olhar na página do Terror e tiver cinquenta produções. Eu gosto dessa cena de entrar na página dos cara e ter uma porrada de parada. Bota para tocar e fica tocando”, conclui Frankão

As sementes foram lançadas, pelo que será impossível conter o Terror que ainda está para vir: para além de uma série de mixtapes, ora assinadas pelos próprios, ora por convidados com intenções desmistificadoras comuns, estão previstos mais dois lançamentos do colectivo ainda para 2019. As apropriações em linha de produção aproximam-se de electrónicas mais minimais com expressões dubstep e de quimeras de ritmos ibéricos com as mesmas frequências subgraves que ressoam em toda a criação da label.

Também nos planos está uma expansão do número de intervenientes. Ainda que o colectivo se vá manter mais ou menos estanque, algo que inicialmente foi ponderado com o propósito de melhor cartografar o seu campo de acção, há uma série de conversas que estão a ser encetadas para envolver mais MCs e vocalistas.

Quanto a mais actuações, já serão mais raras devido às agendas ocupadas dos quatro elementos — e torna-se, por isso, igualmente urgente aproveitar as poucas que forem acontecendo. Conforme diz Luís, o Terror Sound System pôde dizer “mais vezes ‘não’ do que ‘sim’, e é uma sorte do caralho poder fazer-se isso, parar para analisar o que se tem feito.”

Escondam a vossa prole, o Terror está à solta.


ReB Team

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