Jonathan Uliel Saldanha: “O que faço é algo extremamente visceral. É como estar numa varanda muito alta e sentir a vontade inexplicável de saltar”

[TEXTO] André Forte [FOTO] Maria Louceiro

HHY & The Macumbas e o novo Beheaded Totem, o mixer como instrumento e como o erro ajuda a mapear possibilidades. Ensemble toca dia 6 de Outubro no OUT.FEST, no Barreiro.

Passou uma nova onda gravitacional por nós e os cientistas de musicologia pararam para a observar: HHY & The Macumbas, o fantasmagórico ensemble portuense que nos ensina a rezar na era da técnica, acabou de lançar um novo álbum, Beheaded Totem (House of Mythology), e o entusiasmo já fervilha na crítica. E não é por acaso. O sucessor de Throat Permission Cut é mais um capítulo neste colectivo com 10 anos de existência, e mais uma desculpa para testemunhar às suas induções de transe assistido em concerto, experiências verdadeiramente singulares a cada nova manifestação. Foi, também, mote a uma conversa com o produtor e artista pluridisciplinar Jonathan Uliel Saldanha — cérebro cibernético de Macumbas, beatmaker em Fujako, membro dos colectivos SOOPA e Faca Monstro, peça do grupo industrial de Adolfo Luxúria Canibal, Mecanosphére, e autor de peças e instalações como O Poço (Rivoli, 2017), Sancta Viscera Tua, Oxidation Machine (Serralves, 2016), entre tantos outros projectos por mencionar —, em que se falou não só do novo álbum do seu principal colectivo, mas também da sua inevitável atracção pelo eco, pela astrofísica, pelo dub e, claro, pela sua mesa de mistura.

Durante a conversa, atracção, eco e retroalimentação são as três palavras mais referidas pelo produtor, que discorreu sobre os seus métodos de forma coerente, mesmo que nem sempre soubesse precisar onde tudo começou: “estás a pôr o dedo numa veia que não representa o corpo todo”. Como se houvesse uma interligação entre tudo, portanto, uma nota que ressoa em todo o seu trabalho. Há uma repetição coerente de metodologias, dobradas em música, dança, vídeo, que evocam temáticas constantes.

Uma dessas temáticas, em que também se inserem as três palavras supracitadas, é a astrofísica, com todas as possibilidades narrativas que ela pode trazer: desde os fenómenos singulares dos buracos negros e da sua atracção gravitacional, inspiração indelével n’O Poço, à matéria negra, que tal como os seus ecos não se vê, mas sente-se. A consciência do eco, é, de resto, o gancho para a retroalimentação, chave para as performances irrepetíveis de HHY & The Macumbas e para alguns enigmas evocados com o novo Beheaded Totem.

O colectivo, auto-descrito como sendo uma banda de voodoo dub cibernético, resulta de uma interrogação sobre o que é a música de dança electrónica, concretizada entre os sopros secos de uma filarmónica, as cadências e timbres da percussão do Haiti e Benim, e uma imagética voodoo concretizada pela mesa de mistura, “cérebro falso”, de Jonathan Saldanha e o seu live dub. “Em Macumbas, fazemos uma investigação, e ela é a matriz que nos junta,” explica o portuense, “é uma geografia construída colectivamente e que sabemos que vai albergar uma série de possibilidades”. Ao vivo, o ensemble apresenta-se com diferentes formações, em que os músicos Filipe Silva, João Pais Filipe, Brendan Hemsworth, Frankão (aka O Gringo Sou EU), Álvaro Almeida e André Rocha se combinam de diversas formas, com a percussão como única constante à qual acrescem trompetes, trombones e um ocasional baixo, e alimenta uma fotografia sonora que o mixer cibernético de Saldanha absorve e transforma — tanto para o público, como para os músicos.

“O facto de estares a tocar e ouvires o teu instrumento imediatamente com uma deformação é algo que te alimenta. Se estiveres a tocar um ritmo, mas estiveres a ouvir o dobro do ritmo que estás a tocar, isso está a alimentar o que estás a tocar, dá-te, de facto, um edge e funciona como reforço. Estás a tocar com os teus próprios fantasmas em tempo real”. Um exercício que é desconcertante, e que implica que todos os músicos em palco estejam a mapear os mesmos terrenos e a encarar as mesmas imagens; por outro lado, estas imagens não são as mesmas que a audiência vê, com um som de uma percussão a não coincidir com o gesto do seu autor, ou uma trompete a prolongar-se indefinidamente no tempo apesar de uma aparente inactividade do trompetista. “Fomos encontrando soluções para, em palco haver pontos de conexão mais seguros. Isto permite que o que vai para fora possa ser mais transvestido desta dúvida.”

A própria natureza dos Macumbas assenta na identidade com várias vozes e de várias formas de Saldanha. “Por isso é que o som e o sítio onde tocamos são tão importantes. Para mim, não é só uma banda, não são dois amps, uma bateria e uma voz. O som de palco, a pressão da sala, a reverberação, tudo isto é super importante e influi na criação dos próprios fantasmas”. Não se fica por aqui, quer em Macumbas, quer noutros contextos: “Quando tenho capacidade para gerir algo, o espaço, o som, a luz, todos operam a mesma linguagem. O espaço é demasiado importante para o que faço.”

O novo disco começa com estas mesmas evocações e dúvidas, partindo de uma peça antiga de Macumbas e transmutando-a para algo fundamentalmente diferente — orgânico, mas assombroso, provocando uma sensação quase angustiante de estar perante algo totalmente novo e que mesmo assim não é alheio a este mundo. O produtor explica que, de facto, “há coisas que estão lá presentes desde o início [do ensemble], mas que depois [vai] redefinindo”, encontrando novos lugares. E é neles que se destaca o álbum: na versão mais eléctrica e próxima dos padrões da música electrónica que se viu dos portuense até agora, ainda que fruto de uma gravação bem orgânica (“Começámos e acabámos”). Percebe-se uma maior presença da mesa de mistura que nos registos anteriores, uma manipulação maior do som e cadências rítmicas aparentemente mais imediatas, no que se assemelha a uma clara aproximação à electrónica. “Nesta altura, interessa-me mais o soundsystem do que, por exemplo, o jazz e a sua organicidade.”

 



[O dub, a mesa de mistura e a matéria negra]

Formado em escultura pela Faculdade Belas Artes do Porto e em trompete pela Escola de Jazz do Porto, percussionista de tablas, o instrumento de percussão indiano, é quase estranho ver que a opção de Jonathan Saldanha para principal forma de expressão fosse recair no mixer. Não é, propriamente, uma novidade no universo do hip hop e da electrónica, mas é invulgar dentro da música experimental e do free jazz, por onde passou. O interesse do portuense, contudo, não se encontra no acto de misturar som que cria, mas sim no de manipular o que existe. Em nome da verdade, convém mesmo dizermos que nenhum destes instrumentos desapareceram do repertório sonoro do produtor. Trata-se de estabelecer um “diálogo com a paisagem e não um domínio,” explica sobre as várias dimensões dos seus protocolos.

Esta interligação que encontra nos sons e nas imagens tem raízes no dub, nos discos de King Tubby, Jah Shaka, Sherwood e Prince Jammy: “Os instrumentos eram realmente emissores [de som], mas havia uma filtragem que era feita no som e o tornava, de alguma forma, para mim, mágico. Porque lhe revestia a volumetria de formas disformes. Dava-lhe acústicas inexistentes, dava-lhes saturações e formas inexistentes”. Indo mais longe, explica que o dub que mais lhe interessava era o mais abstracto, em que “não percebia a letra, não percebia a melodia, em que o ritmo se dissolvia e ouvia só pedaços de coisas que se movimentavam no espaço.”

O eco, a reverberação são elementos constantes no dub, uma “sensação que é ampliada numa série de dobras sobre si mesma,” conforme exemplifica, uma sensação que atraiu Saldanha para as metodologias da técnica: “Há uma centelha qualquer que me põe em marcha numa direcção. Essa centelha, para mim, começou no dub e a ouvir de forma plástica os ecos; depois foi ver o surgir disso noutras circunstâncias e de outras formas.”

Esta operação de buraco negro, ou até de matéria negra, uma anomalia física tão maciça que distorce o que vemos e altera a nossa percepção da realidade, é algo que lhe serve de matéria em múltiplos contextos. “O eco era algo que me marcava tanto por sentir que ele vinha de um sítio e que projectava aquela partícula no tempo. Mas também, quando o eco surge enquanto eco apenas, quando não ouves de onde vem e tens uma espécie de corpo suspenso. Como as ondas que nos chegam do Big Bang”. Estão, mas não são, como um fantasma. “O eco é um eu, desfasado, distorcido, que não sou eu.”

Uma ideia de “erro”, anomalia estatística, que ressoa em tudo o que o portuense toca e chega mesmo a tomar dele mais do que seria, aparentemente, normal. Por exemplo, cada concerto é um concerto. “Nunca entendi como é que eu tocava três vezes e ficava exausto, enquanto uma banda de amigos meus voltava de uma digressão a tocar todos os dias durante três semanas e eles estavam bem. Eu por definição não preparo um set para ser tocado de forma igual ad nauseum. Procuro este erro, digamos assim, no sentido de preferir estimular um protocolo de trabalho atípico”. Mas também uma possibilidade de explorar, constantemente, novos caminhos. Um erro que, de resto, encaixa na perfeição no MO estudioso e minucioso do produtor.

 



[Sci-fi, Lovecraft e Traumas]

Quer com HHY & The Macumbas, quer só como HHY, com Fujako, ou com performances como a comissionada pelo Festival Curtas de Vila do Conde, com Moor Mother e Carmella Farahbakhsh, o método de criação de Saldanha passa invariavelmente pelo estudo e pela recolha constante, quer de contexto, quer de sons, texturas e timbres. Não pela relação das notas, mas pela relação entre espaço e tempo evidenciada pelo som. Esta é a matéria do trabalho de Jonathan Uliel Saldanha, e que se expressa nas mais variadas formas. “Nada disto é uma agenda, nem eu decidi que ia ser assim. O que faço é algo extremamente visceral. É como estar numa varanda muito alta e sentir a vontade inexplicável de saltar.”

Trata-se de manifestações de forças com comportamentos gravitacionais, no fundo. Em Macumbas foi o voodoo como método de operação, de evocar fantasmas, mortos-vivos, coisas estranhas; foi o timbre da percussão do Benim; foi a força monolítica das fanfarras. Em Sancta Viscera Tua foram os protocolos disruptivos estabelecidos entre os performers, alheios às linguagens da música, que se encontram nos ecos e nas reverberações dos espaços de prática de culto. Em Tunnel Vision, banda sonora que virou disco, que virou matéria de investigação, foram as reverberações resultantes de anomalias arquitectónicas. Expressões de um todo que não se quantifica em géneros, e que multiplicou o percurso do produtor em fanfarras desde os finais dos anos 90, no hip hop, no grime, e na electrónica mais adiante, e o levou a ritmos circulares, timbres e formas arcaicas que coabitam em HHY & the Macumbas. Sendo justos, são também expressões que não obedecem realmente às separações genéricas que acabámos de fazer.

A música de Jonathan Saldanha está intimamente ligada a estas manifestações de âmago, e não de forma. “Sempre me vi ligado a estas erupções violentas, ligadas a uma música mais arcaica. Quando comecei a ouvir Coltrane, foi pelo Ascension, não pelos mais conhecidos do quarteto. Na Escola de Jazz diziam-me que aquilo já não era jazz, mas interessava-me a euforia que lá estava, não a forma. Atraía-me aquilo que era outra coisa, que eu não entendia, que não é justo e domesticado.” E esta atracção replica-se na literatura, no cinema. A certa altura, durante a conversa e enquanto se discutia a manifestação de um eco, vem Lovecraft à baila: numa passagem de The Call of the Cthulhu, o portuense lê que alguém desapareceu, “engolido por um ângulo que não devia estar ali, um ângulo agudo que se comportava como se fosse obtuso.”

“Relaciono-me com manifestações com esta sensação latente de que quero preservar a partícula motora invisível. Não quero revelá-la, quero manter parte do processo oculto”. Como a encenação de HHY & The Macumbas, em que os músicos protagonizam em palco um série de gestos dissolvidos no som captado, um caos provocado e disseminado num espaço de quatro dimensões bem delimitado. Este é o espaço que Jonathan Uliel Saldanha habita, e para os quais somos convidados a entrar nos seus vários projectos. A natureza altamente sincopada do corpo dos Macumbas, as batidas brutas e multidireccionais de Fujako, ou a documentação surrealista de Tunnel Vision, é tudo um conjunto de fenómenos dentro dessas coordenadas no tecido do espaço-tempo.

Há uma série de forças que empurram Jonathan Uliel Saldanha numa direcção, e a produzir música muito especial, no mínimo, e francamente difícil de catalogar. Havendo um propósito nessas forças: “o propósito seria fundir-me com o buraco negro que me atrai.”

O novo disco de HHY & The Macumbas saiu pela House of Mythology, casa para nomes da música avant-garde como Ulver e Zu, e pode ser escutado na íntegra aqui:

 


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