Sumol Summer Fest 2019 – Dia 2: as melhores boy bands estão aqui

[TEXTO] Vera Brito [FOTOS] Hugo Rodrigues

Chegámos ao segundo e último dia do Sumol Summer Fest para uma tarde muito soalheira junto ao parque Hollyskate onde se encontra instalado o palco Quiksilver e decorre uma competição de skate intervalada com acts de DJ sets e o concerto de Cálculo, motivo principal da nossa visita ali. Confortavelmente instalados na relva apraz-nos ver uma bateria e guitarra já que, como nos apercebemos, até agora os instrumentos musicais mais clássicos não têm feito parte das actuações do festival. O motivo destes ilustres convidados prende-se com a musicalidade do último disco de Cálculo, Tour Quesa, que pede esta instrumentação e “Estrelas”, a sua primeira faixa, é também a música escolhida pelo músico de Barcelos para abrir o seu set nesta tarde. Hugo Martins, no BI, Cálculo na vida artística, tem o dom da comunicação, conseguindo manter um excelente entrosamento com o público durante toda actuação — este terá muito provavelmente sido o primeiro concerto de hip hop em que vimos um rapper pedir “palminhas”, o que até vos pode parecer estranho, mas no caso de Cáculo assentam na perfeição. Não nos surpreende que em breve o encontremos a actuar para um público maior.



Foi esse o caso dos GROGNation, que se estrearam este ano no palco principal do Sumol Summer Fest, depois de uma experiência bem diferente há quatro anos atrás no festival, como ontem nos fizeram questão de recordar, num relato emocionado de Papillon que quase fez os seus companheiros chorar, oferecendo-nos depois um medley de retrospectiva da carreira, com várias músicas da história destes rapazes da Linha de Sintra. Foi um concerto pautado pela emoção mas sobretudo pela elevada energia a que sempre nos têm habituado, afinal é sabido que quando “GROG está na casa tudo pode acontecer”. Hip hop em toda a sua força, com os b-boys 12 Macacos a desafiar a anatomia e Papillon a métrica em “Chama-me Nomes”. Também não faltou a crowd pleaser “Voodoo”, nem “Barman” para encerrar a festa. E se mais adiante iriamos ver aquela se que auto-intitula a melhor boy band do mundo, não sabemos se os GROGNation podem ou querem reclamar a si o título da melhor boy band de Portugal, mas é certo que o seu talento já cruzou definitivamente as linhas de Algueirão-Mem Martins.



Chegados ao momento mais fora da caixa da noite, Deejay Telio era o aliado menos óbvio para o alinhamento do cartaz do segundo dia. Ainda assim o músico angolano conseguiu proporcionar muito entretenimento a todos os presentes, com muito show de pirotecnia e fumo, bailarinas, aulas de aeróbica e, imagine-se, até alguns solos de guitarra rock épicos. Bispo juntou-se para cantar “Com Licença”, naquilo que foi uma hora de muita mistura desconcertante por parte de um artista que garantidamente não está neste negócio para perder oportunidades. Na despedida ficou a publicidade garrafal nos ecrãs ao seu próximo concerto em Portugal, marcado para o próximo ano — artistas por aí, tirem notas disto.



Coube a Holly Hood a difícil tarefa de actuar entre Deejay Telio e os muito aguardados Brockhampton, restabelecendo os níveis de equilíbrio novamente para o mindset do hip hop. Arrancou o concerto com “O Meu Nome”, mas é sabido que o “dread que matou Golias” divide hoje em dia o seu nome com a sua label Superbad e nessa noite chamou a palco L-ALI para interpretar “Siri”. No Money seria o segundo convidado para “Cartas da Justiça”. Um concerto curto, em que muita gente já estava de olhos postos no que vinha a seguir.



Como é que o Sumol Summer Fest conseguiu a proeza de ser o responsável pela estreia da “the greatest boyband in the motherfucking world!” em Portugal não sabemos (tiramos o chapéu à organização pela cartada de mestre), mas sabemos que agora, mais do que nunca, é imperativo que os Brockhampton regressem o mais rápido possível, preferivelmente para um concerto em nome próprio, no seu avião dourado e com toda a produção a que temos direito. Abrem-se as hostilidades com o sonoro “perfectly fine, that’s fine!” — tudo certo, nós por aqui estamos mais do que prontos para o que se vai seguir. Dom McLennon, no topo da escadaria para o céu apoiada por duas gigantes mãos azuis, atira os primeiros versos da explosiva “New Orleans” e um a um, os Brockhampton, vão invadindo o palco como bolas disparadas por canhões: Kevin Abstract, Bearface, Matt Champion, Merlyn Wood e Joba juntam-se a Dom, arrancado histerismos sucessivos ao público por cada aparição.

Depois de “New Orleans”, seguem-se “Zipper”, “Queer”, “Gummy”, “Star” e é assim com uma mão cheia de jardas que num piscar de olhos nos são apresentados com estrondo iridescence e toda a trilogia Saturation — quatro discos aclamados, todos eles incríveis, lançados num intervalo de dois anos, prova de que a velocidade a que os Brockhampton se movem vai muito além de toda a turbulência que vemos hoje ali em palco. E frases feitas à parte, não é exagero nem presunção essa ideia “da melhor boy band do mundo” que Kevin Abstract tem defendido ao longo da “curta” carreira dos Brockhampton, estamos de facto perante um caso muito singular de talento excedente, juventude fervorosa, energia inesgotável, inclusão, visão artística peculiar e capacidade DIY de um colectivo de jovens (para além dos seis que ali dão a cara é importante relembrar que há mais gente envolvida no projecto) que souberam tirar o melhor partido da era Internet, gerindo inteligentemente um percurso fulgurante, por vezes algo contra-corrente, mas muito eficaz — é como se estivéssemos diante de uma banda all star, só que não o são.

E para a melhor boy band do mundo só mesmo a “best crowd of all this motherfucking tour“. O público de ontem deu na mesma medida em que recebeu, deixando os seis rapazes várias vezes de olhos postos na plateia que gritava histericamente pelo seu nome, de braço no ar, com mosh pits carregados de energia positiva, numa vibe muito diferente daquela que vimos na noite anterior com Young Thung. “Boogie”, com direito ao dramatismo da entrada orquestral, fez a despedida incendiária, com as suas sirenes gritantes de alerta ao vendaval em palco. As estreias, já se sabe, são momentos que não se repetem, e a dos Brockhampton por cá foi fulminante — o momento pelo qual iremos recordar esta edição do Sumol Summer Fest.


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