Subtil sobre Aquém-Mar: “É um sonho tornado realidade”

[FOTO] Rodrigo Faray

Subtil estreou-se no formato longa-duração no passado domingo com a ajuda do Artesanacto. Além do carimbo na capa de Aquém-Mar, Praso, Montana e RichardBeats assinam os instrumentais no primeiro disco do rapper algarvio.

Peça insubstituível no novo lançamento de um dos seus “alunos”, Praso tem dividido o seu precioso tempo entre o colectivo Alcool Club, a carreira a solo e todos os outros projectos emergentes no universo do Artesanacto, o covil do rap boémio produzido e cantado em bom português. “Já rimava antes dos 16, mas faltava-me algo/ estilo jazz, aquele baixo só em beats do Praso”, rima Subtil em “Antes Dos Trinta”, reconhecendo a importância do autor de Alma & Perfil. Em Abril, o Rimas e Batidas destacou Praso como um dos mais exímios letristas e produtores a militar no circuito do rap português.

Montana e RichardBeats também contribuem para o disco com uma batida cada um, enquanto RealPunch, TOM, Mass, Dani, JV e Odeo assinam versos em dois dos doze temas do LP. Em conversa com o ReB, Subtil explicou o processo que o levou à concepção do seu mais ambicioso projecto até agora.

 



Acabas de editar o teu primeiro álbum. O que significa este feito para ti, que tens estado a trilhar um percurso sólido nos últimos anos?

Para mim é um sonho tornado realidade. Foram muitos anos perdidos… Muitas voltas que a vida deu, mas nunca desisti do que realmente gosto de fazer. Tive ausente mas mesmo assim nunca baixei os braços. E para mim é só um começo. Cada vez sinto mais vontade de escrever. E sinto que tudo está a fluir como nunca fluiu!

O Aquém-Mar é todo ele produzido pela família do Artesanacto, maioritariamente pelo Praso. Foi um trabalho feito em estúdio e em conjunto ou os beats circularam entre os intervenientes pela Internet? Fala-me um pouco sobre todo esse processo.

Só três das músicas do álbum é que foram escritas para os beats originais: o “Eu Vou”, no instrumental do Montana, e as faixas “Receita” e “Perdidos do Sul”. Em todos os outros era ir a casa do Praso, ouvir o beat e cuspir uma letra. Adoro gravar um take apenas e o Praso sabe que tenho uma letra para todos os beats qe ele produz. Eu acordo de manhã, vou à Internet, ouço um beat e escrevo uma letra. Todos os dias tenho essa rotina. Se não é de manha é à tarde, se não é à tarde, é à noite. Até ao dia em que o possa fazer o dia todo.

Focando apenas no trabalho desenvolvido ao lado do Praso, um veterano em cena no hip hop nacional, o que sentes que aprendeste com ele? Há alguma história ou momento mais marcante que tenha acontecido durante a concepção deste trabalho e que queiras partilhar?

Eu sou fã do Praso desde os meus 15 anos e nada melhor que poder aprender com alguém que tu próprio sempre ouviste e admiraste. E sim, ao longo deste percurso ao lado dele tenho aprendido muito e o mais importante nem foi o que aprendi, mas sim o quanto cresci como pessoa. Ele é um excelente professor e uma grande pessoa. Este álbum só existe porque ele acreditou em mim desde o primeiro contacto, desde a primeira gravação, e vai ter que levar comigo até à última. Ele é mais do que um irmão, mais do que um padrinho. É, sem dúvida, um pai no rap. Histórias temos muitas. [risos] E virão muitas mais. A mais marcante foi quando ele perdeu todos os instrumentais da MPC, o cartão “morreu” na altura exacta quando ele estava a passar cerca de 200 beats para o computador — os do meu álbum, os dos Alcool Club e os próprios beats dele — e ele ficou impávido e sereno como se nada fosse. Mesmo do género “não foi a primeira vez”. [risos] Eu andei quase três dias deprimido e ele na boa. [risos]

Compilaste 12 temas e somaste participações num par deles. Era algo que tinhas já definido, querer mostrar o melhor de ti sem outras vozes à mistura?

Quando decidimos fazer este álbum era para ser totalmente a solo, mas as participações, para mim, fizeram todo o sentido. Todas as músicas em si tem uma característica diferente e não fazia sentido a participação de alguém nos meus outros 10 temas, porque sou muito eu e é tudo muito em torno da minha vida.

Lançaste apenas um videoclipe para o “Cada Um” referente a esta nova saga. Há por aí mais material promocional em vista para elevar o disco? Tens concertos no horizonte para o apresentar ao vivo? Fala-nos dos teus planos a curto prazo.

Sim, estamos focado em lançar mais um videoclipe no final deste ano/início do próximo. Concertos, para já, não tenho nada marcado. Estou à espera do formato físico para poder pensar numa apresentação ao vivo.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira