Steve Coleman and Five Elements no Jazz ao Centro: a matemática do groove em acção

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] João Duarte

O rigor da música que os Five Elements de Steve Coleman debitam é impressionante e tudo ali parece resultar de minucioso e maquinal planeamento, com as síncopes e os silêncios a expandirem-se como as linhas numa espiral de Fibonacci. Ao vivo, o saxofonista alto gere uma célula altamente oleada e concentrada de polirritmistas avançados: Sean Rickman na bateria e Anthony Tidd no baixo eléctrico de cinco cordas, Jonathan Finlayson no trompete e Kokayi na voz seguiram o líder por aparentemente simples, mas, na realidade, altamente complexos caminhos num alinhamento de cortar a respiração. O dia, no entanto, não se resumiu ao que o quinteto americano nos ofereceu.

Por estes dias, Coimbra respira jazz, pois claro. A edição 2019 dos Encontros Internacionais de Jazz arrancou na passada sexta-feira com concertos do trio Iberian Roots de Alberto Conde no Convento de São Francisco e do Luso-Dutch Large Ensemble no Salão Brazil. Ontem, a Rádio Universidade de Coimbra recebeu o guitarrista Jasper Stadhouders para uma apresentação solo; o quarteto de Carlos Zíngaro (violino), Helena Espvall (violoncelo), Marta Warelis (piano) e Marcelo dos Reis tocou no foyer do Museu Nacional Machado de Castro; a Casa das Artes Bissaya Barreto recebeu Michael Moore (saxofones e clarinete) e Hugo Antunes (contrabaixo); e, depois do espectáculo de Steve Coleman no Convento de São Francisco, o dia só terminou após o Twenty One 4tet de John Dikeman (saxofone tenor), Luis Vicente (trompete), Wilbert De Joode (contrabaixo) e Onno Govaert (bateria) subir ao palco do Salão Brazil.

Durante a tarde de sábado, a possibilidade de ver e ouvir o veterano improvisador Carlos Zíngaro em registo acústico no coração da cidade e numa das suas mais prestigiadas instituições revelou-se irresistível. O violinista continua a soar como um incansável explorador deve soar, inquisitivo, inquieto e intrigante, nunca, no entanto, permitindo que o seu considerável percurso musical de mais de cinco décadas se imponha, deixando todo o espaço do mundo para que a “juventude” de diferentes fôlegos da pianista (de origem polaca, mas residente em Amesterdão) Marta Warelis (a mais jovem artista do cartaz de 2019 do Jazz ao Centro), do guitarrista português Marcelo dos Reis e da violoncelista sueca (já há vários anos residente em Lisboa) Helena Espvall se pudesse expressar sem qualquer constrangimento hierárquico. A música livre, de tonalidades “camârísticas”, acomodou naquele contexto diferentes “ecos”, com pontuais e difusas imagens do Mali ou da Andaluzia a despontarem no guitarrismo de dos Reis, mas com um pendor geralmente mais abstracto, com cada um dos músicos a explorar as diferentes cores dos seus instrumentos com múltiplos arcos ou com imprevisíveis abordagens mais dedilhadas. O resultado, cujo grau de “exigência” ficou bem patente nos desistentes que foram abrindo espaços na plateia montada no foyer do museu, foi entusiasmante, esperando-se então que a gravação anunciada pelo guitarrista possa ser de alguma forma disponibilizada futuramente (edição da Jazz ao Centro?).



Ao jantar sucedeu-se então a melhor de todas as “sobremesas”, um concerto intenso e literalmente imparável: não houve praticamente pausas entre peças e uma breve apresentação dos músicos rendeu a única interacção verbal do saxofonista com o público que preenchia talvez um quarto do imponente Grande Auditório do moderníssimo Convento de São Francisco, espaço de excelência acústica que permite retirar pleno prazer deste tipo de apresentações.

O concerto não teve encore e viveu de uma impressionante demonstração de rigor técnico e musical por parte dos cinco elementos que prolongaram os temas, evoluindo de peça para peça quase sem espaço para aplausos. Dos uníssonos sugeridos pelo líder e harmonicamente expandidos pelo trompete e pelo baixo surgiam depois intrincadas figuras rítmicas em tempos impossíveis desenvolvidas por aquele que tem que ser um dos melhores bateristas do presente. A partir de um sofisticadíssimo trabalho no bombo, que Sean Rickman usa como a pontuação na sua narrativa de síncopes, escutou-se uma bateria vibrante que ergueu a partir da sintaxe de groove do funk um riquíssimo e inventivo discurso que parecia apoiado em intrincadas figuras matemáticas que encaixavam na perfeição nas derivas que a jusante eram levadas a cabo pelos metais. Já o baixo de Anthony Tidd funcionou como o elemento de ligação que se move em dois mundos, o rítmico e o harmónico, dialogando com todos com uma elegância extrema.

Coleman e Finlayson soaram económicos nos seus fraseados, mas ultra assertivos, com técnicas sólidas, mas discretas, nunca cedendo a qualquer tentação maximal que a sólida base rítmica pudesse sugerir. Coleman é obviamente um líder de mão cheia, um veterano que recolhe agora os dividendos de uma vida de estudo de novos modos musicais desenvolvidos a partir de uma particular experiência musical negra. E em cima de tudo exibiu-se um inteligentíssimo rapper/vocalista/spoken word artist, Kokayi, que não esconde os estudos realizados na escola “jalaliana” dos Last Poets, mas que se encaixou no todo como um autêntico músico, usando a cadência da sua voz como mais um elemento vital da complexa equação rítmica a que o quinteto se devotou.

O primeiro fim-de-semana de Jazz ao Centro cumpriu-se ontem com concerto da Orquestra de Jazz de Espinho com Mário Costa (no Centro Norton de Matos). No próximo fim de semana, o programa volta a arrancar a 25 de Outubro com apresentações de Maria Villanueva e Vânia Couto (no Colégio da Graça), do projecto Lantana de Maria do Mar, Helena Espvall, Maria Radich, Carla Santana e Anna Piosik (no Coola Boola Colab), do trio de Fred Frith (no TAGV) e ainda de Susana Santos Silva, Yedo Gibson e Vasco Trilla no Salão Brasil. O dia 26 trará performances de declamação de poesia, DeclAMAR Poesia & Jazz (na Casa da Mutualidade), de Ka Baird (Casa das Artes Bissaya Barreto) e de Gabriel Ferrandini (que apresentará Volúpias no Salão Brazil). A edição deste ano do Jazz ao Centro terá certamente brilhante ponto final com o concerto no dia 27 do quarteto de Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano (no Centro de Artes Visuais).

O programa que o Jazz ao Centro ergueu para esta edição de 2019 é ambicioso na exploração do seu âmbito internacional, tem a feliz ideia de se entender como oportunidade para a construção de pontes com músicos de outros países, oferece diferentes nuances daquilo que hoje se entende ser o jazz, abre generoso espaço ao talento feminino no seu cartaz e explora a cidade em toda a sua plenitude, ocupando diferentes espaços e oferecendo vários dos seus espectáculos à população com entradas livres. É assim que se faz público, que se educam cabeças e que se erguem futuros.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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