Stereossauro no Lux Frágil: Tradição e modernidade em espírito de comunhão bairrista

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Inês Condeço 

“A partir daqui mais ninguém pode fazer discos com samples de fado”, atirou, entre risos, Slow J aquando da sua entrada em palco na apresentação do novo longa-duração de Stereossauro no Lux, em Lisboa. Mas, como diria J. Cole, “all good jokes contain true shit“. E é por aí que começamos: o reconhecimento dos seus pares, muitos deles presentes no sucessor de Bombas em Bombos e, consequentemente, no primeiro concerto desta caminhada, um sinal da importância da ocasião.

E pode um disco ser considerado clássico com menos de um ano de vida? Obviamente que sim e Bairro da Ponte, um empreendimento ambicioso que não sucumbiu perante as expectativas, é a prova que podemos apresentar para sustentar essa ideia. Temos canções, encontros improváveis que não soam forçados e um elenco ecléctico que, estranhamente, consegue ligar-se entre si. Aliás, um club parece ser só o início para um formato que tem potencial para fazer todo o tipo de salas de espectáculos — não estranharíamos ver isto numa Culturgest, por exemplo…

Ao vivo, a exigência aumenta — não existe tempo para repetições e o erro tem que ser rapidamente compensado –, mas estávamos perante um quarteto experiente que tinha todas as condições (público, sistema de som e músicas) para tornar tudo melhor. E foi o que aconteceu: “o melhor scratcher tuga”, palavras de Stereossauro, DJ Ride, que deu um ar da sua graça com um fantástico solo no final de “Ingrato”, juntou-se ao baixista Bruno Fiandeiro e ao baterista Nuno Oliveira para secundarem o “maestro”, criando uma parede sónica com um equilíbrio notável entre baixo e bateria, electrónica e hip hop, a voz de Amália Rodrigues e a guitarra de Carlos Paredes.



Durante mais de uma hora, aquela plataforma também pertenceu a outros artistas que enchem salas em nome próprio: do enérgico Chullage ao maníaco NERVE — que relembrou o seu primeiro concerto em Lisboa, em 2007, que contou com a ajuda de Tiago Norte no disparo dos instrumentais –, passando pela vibrante Gisela João e os assertivos Papillon, Slow J e Plutonio, o grupo transportou para ali um pouco daquele ambiente bairrista com tanto mundo lá dentro que se ouve em BdP. Os que não marcaram presença (a “mãe” Capicua, Ana Moura ou Dino D’Santiago) foram “repescados” através de vídeos feitos de propósito para o live act. E “tudo certo” aí, como diria o último visado, que proporcionou o que terá sido provavelmente o momento mais dançável, “batalhando” com a remistura de “Verdes Anos” para música mais celebrada da noite — a rotina que lhes deu o segundo título no IDA também foi merecedora de recepção efusiva.

Unanimidades são paus de dois bicos, porém, raras vezes, os astros alinham-se para alguns sortudos que, dessa forma, deixam uma marca indelével, como é o caso de Stereossauro e do seu Bairro da Ponte.

Com uma sala esgotada em que o público ia dos 18 aos 50 anos, as aparências, aqui, não são uma ilusão. Este bairro é feito do todo e para todos.