Slow J sobre You Are Forgiven: “Isto sou eu a construir e percorrer o meu caminho”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Filipe Feio

You Are Forgiven é o título do novo álbum de Slow J. Sem teasers — “Teu Eternamente” foi lançado como um single solto –, o artista nascido e criado em Setúbal acaba de lançar nove faixas originais com contribuições de nomes como Sara Tavares, Papillon, GSon, Fumaxa e Charlie Beats.

Estabeleceu-se como um dos músicos mais relevantes de uma nova geração da música portuguesa com as propostas musicais The Free Food Tape e The Art of Slowing Down, assumiu-se em definitivo como produtor de primeira linha com Deepak Looper e, em 2019, regressa ao formato longa-duração num patamar inédito na sua carreira.

Após o anúncio inesperado deste novo trabalho, o Rimas e Batidas tratou de enviar três perguntas a João Batista Coelho, que nos elucidou sobre a opção de lançar sem aviso prévio, a construção do projecto e a “pergunta” e a “resposta”.



Dois anos depois de editares o teu álbum de estreia, The Art of Slowing Down, decides lançar um disco sem qualquer tipo de promoção prévia. Porquê seguir este rumo para este lançamento?

Fiquei com pica para lançar um álbum de surpresa, sendo que no TAOSD já tinham saído quatro sons antes do disco sair. Desta vez gostava de dar mais espaço a quem quer ouvir o álbum na íntegra pela primeira vez (com a excepção do “Teu Eternamente”). A própria forma como o álbum surgiu acabou por determinar quase tudo o que gira à volta dele. Organicamente.

Quando lançaste a “Teu Eternamente” no final de 2018, este álbum já estava a ser criado? Quanto tempo estiveste a trabalhar nestas faixas com o disco já em vista?

Desde que fechei o TAOSD. Para mim, a construção de um álbum passa por várias fases, desde o mais abstracto (só beats e ideias random) até ao produto final acabado que vai chegar às pessoas. Não é que eu logo ao início conseguisse ver a visão final assim tão claramente (como o Papi[llon] consegue, por exemplo), mas vou lapidando e descobrindo no que é que aquilo se pode tornar a pouco e pouco. Grande parte do processo vai acontecendo quase às cegas, no meu dia-a-dia. Sem a minha equipa, eu nunca teria conseguido lá chegar. É ir vivendo e compreendendo o que é que é importante que fique na mensagem final. Muitas vezes é esquecer as pré-concepções do que a música (ou os temas que ela aborda) poderiam ser e aceitar que a vida (normal) é aquilo que realmente vai levar a história para a frente (mais do que versões flashy dela). O Tomás [Martins] estava-me aqui a lembrar que na verdade o título foi a primeira peça.

Podes explicar-nos este título e o artwork? Está tudo relacionado com o nascimento do teu filho?

O título e o artwork acabam por ser um bocado uma pergunta (título) e uma resposta (capa). Este álbum aborda um dos sentimentos mais presentes ao longo da minha vida, a culpa, enquanto algo que de alguma forma sempre esteve lá, no background. A capa é a impressão digital em que as linhas são um labirinto. Ela simboliza a questão de que cada um tem o seu caminho a percorrer, em direcção a si próprio. Não querendo revelar todos os significados que este álbum tem para mim, posso dizer que, depois de todo o sucesso que alcancei e depois de sentir que precisava de me afastar de tudo isso pra fazer silêncio, essa é uma das conclusões mais importantes que retirei. Tu podes viver uma vida inteira infeliz, a fazer aquilo que os outros acham uma vida de sonho. Cada um tem de compreender e percorrer o seu caminho. Isto sou eu a construir e percorrer o meu. Quanto ao nascimento do meu filho, não é o foco desta história, apesar de ser uma das melhores coisas que já me aconteceu, e que claramente me deu muita força para chegar até ao fim deste álbum.