Bem no começo de Fevereiro, o panorama musical lusófono recebeu uma prenda sob a forma de colaboração entre Slow J e Prodígio. “4 de Fevereiro” foi lançado nesse mesmo dia, que é também o nome do aeroporto de Luanda onde ambos os artistas tantas vezes chegam e partem nas suas travessias entre “casas” — Portugal e Angola.
“4 de Fevereiro” é uma espécie de tríptico impresso numa só faixa, com cinco minutos de duração que atravessam três diferentes espectros musicais. Ao microfone, os dois artistas luso-angolanos reflectem sobre saudade, identidade e raízes a partir de um cruzamento espontâneo num estúdio em Luanda, após vários dias de camaradagem pela capital angolana. Assente numa blueprint ambiciosa, o single recorre a uma produção a seis mãos dividida por Holly, GOIAS e Edimmy que evolui com mudanças quase cinematográficas de texturas e ritmos — com início no boom bap que serviu de escola para Slow J e Prodígo, passando depois por um momento laboratorial de fusão trap com afro-drill antes de se despedir de modo mais contemplativo ao sabor de uma guitarra que transpira lamentos de semba.
Ao Rimas e Batidas, o autor de Afro Fado (2023) explicou como se ligou com Prodígio em Angola e detalha os vários passos dados em estúdio até chegar ao resultado final de “4 de Fevereiro”.
Como surge esta vossa colaboração? Era um assunto que já vinham a alimentar há algum tempo ou foi algo espontâneo?
Esta colaboração, na verdade, surgiu de uma forma completamente espontânea, mesmo de estarmos a passar tanto tempo juntos em Luanda. A um certo ponto eu já estava um bocado tipo: “Bro, se calhar devíamos também ir ao estúdio, não?” Quebrar essa barreira. Mas só experimentar cenas, nem tinha grande expectativa de que íamos tirar uma canção naquele dia, muito menos uma canção desta dimensão. Ainda por cima algo que eu sentisse que representa tanto aquele momento de regressar a Luanda, para mim. Como um diário de viagem.
“4 de Fevereiro” é tudo menos um single banal. Não só simboliza uma união de esforços entre dois artistas marcantes da esfera lusófona do hip hop, como compila os resultados musicais nascidos de três momentos distintos e conta com o contributo de diferentes produtores. Qual foi o processo que vos levou a alcançar estes cinco minutos de áudio e o que vos fez querer abraçar este formato ao invés de, por exemplo, tentar rentabilizar estes frutos em três singles?
Sabes que, secretamente, o “4 de Fevereiro” é um bocado a forma como eu sempre quis ouvir o Prodígio, sendo fã à distância durante os últimos, sei lá, 10 ou 15 anos. Sempre tive este olhar a partir da minha cabeça de produtor. Quando eu ouço um artista muitas vezes, penso: “Ok, era dope ouvi-lo desta ou daquela maneira.” Do Prodígio, sempre tive uma visão para o que é que podia ser feito e que eu sentia que ainda ninguém tinha realizado. Então, por um lado foi um realizar dessa vontade. Isto em retrospectiva. O processo em si foi uma cena fluida que ninguém estava à espera. Ainda no outro dia estava a conversar com o Pro e estava-lhe a dizer que se eu quisesse repetir este som, eu não sabia como. De tão natural que ele foi. Tão consequência da experiência que nós estávamos a viver naqueles dias. Acho que nem eu nem ele conseguiríamos replicar. Basicamente, chegámos ao estúdio às nove da manhã, do dia em que eu ia voltar de Luanda. Eu já não ia a Luanda há alguns bons anos e tinha muita vontade de voltar lá, desenvolver a minha independência e ganhar mais à vontade na cidade. E então, nesta primeira vez que eu voltei lá, depois de muitos anos, este é o último dia da viagem. É o fim da experiência, é o dia em que eu vou voar de volta para Lisboa à noite. Nós entrámos no estúdio às nove da manhã. Eu estou a caminho do estúdio, mando uma mensagem ao Holly a pedir beats, mando mensagem aos GOIAS a pedir beats, estou-lhes a dizer que vou ao estúdio com o Prodígio. A malta começa a mandar coisas e aquele primeiro beat do Holly eu acho que foi bué uma sensação de casa para nós os dois. Isto é um sound onde eu comecei e onde ele começou. Portanto, é um sound onde rapidamente os dois nos sentimos bué confortáveis. E então começámos por aí. No fim dessa primeira parte, deu-me uma sensação de que só isto acho que vai saber a pouco, não vai ser representativo o suficiente de quem nós somos como artistas. E então peguei naquele sample que os GOIAS tinham enviado, o Edimy, que nos estava a gravar, fez aqueles drums incríveis ali on the spot e isso deu origem à segunda parte. Depois, trouxeram um guitarrista para o estúdio, o Mauro, lembro-me dele bué novinho, bué nervoso de estar ali, estar ali com o Prodígio — estamos a falar de um dinossauro da cultura angolana; lembro-me dessa sensação nervosa dele e ouço essa sensação nervosa quando ouço as guitarras que ele tocou. No fim desse dia eu eu saí do estúdio, fui buscar as malas, avião, aterrei em Lisboa e gravei a linha de voz final. A sensação da produção do som foi bué assim de uma assentada, estás a ver? Tipo que entrámos por uma porta, saímos pela outra e esse som estava feito quando chegámos ao outro lado.
Nem o videoclipe foi criado ao acaso e há aqui um toque conceptual bastante forte, evocando um cenário que mistura imagens do presente com uma certa visão de um futuro que já não parece assim tão utópico. Qual era a ideia que queriam transmitir com o lado visual do single?
Pessoalmente, eu não adoro entrar em muitas explicações de intenção conceptual, porque acho que depois também vou estar a fechar o espaço para a visão de cada um. Mas, pessoalmente, adorei este video.
Dada a dimensão deste lançamento, certamente que por esta altura há já muitos fãs a sonhar com a possibilidade da continuidade desta parceria. “4 de Fevereiro” foi uma side quest ou pode vir a fazer parte de uma saga maior?
Isso é daquelas coisas que o tempo dirá, mas o que posso dizer é que as nossas formas de criar são tão compatíveis que parece que o gasto de energia é muito pequeno para fazer coisas muito grandes. Portanto, um artista e um irmão com quem trabalhar é bué simples.
Esta faixa simboliza também um momento das vossas vidas em que a ligação a Angola parece estar mais fortalecida do que nunca. O que vos levou ao reencontro com estas raízes?
Angola vai ser sempre casa. Vai ser sempre origem. E isso, do ponto de vista criativo, é uma coisa muito poderosa. Porque eu sinto que crio sempre a partir de um sítio muito pessoal. Eu não faço música a pensar “o que é que o público quer ouvir?” Eu faço música a partir da minha vivência, do meu dia-a-dia, do que eu estou a sentir. Então, inevitavelmente, Angola está sempre lá dentro — mesmo quando eu não estou lá fisicamente. Só que durante muitos anos essa relação era mais à distância. Sempre tive muita vontade de estar mais próximo, mas também haviam barreiras práticas. São viagens longas, caras, difíceis de fazer com frequência. Não era um sítio onde eu pudesse simplesmente ir e voltar quando me apetecesse. Agora sinto que estou numa fase diferente da vida. Tenho mais liberdade para estar lá, para viver a cidade a sério, para criar lá, para construir relações lá. O “4 de Fevereiro” nasceu muito disso. Não foi uma decisão conceptual. Foi só consequência de estarmos lá, a sentir aquilo tudo.
No comunicado enviado à imprensa aquando o lançamento da faixa, dizias que esta “era uma conversa necessária, que tinha de existir para abrir caminho para tudo o que vem depois disso.” Que planos te têm passado pela cabeça para este ano de 2026, seja do ponto-de-vista colaborativo como a solo?
É só o início.