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Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados

Marcas de guerra e electrónica nociva num delirante sonho rap.

“Skrape” é o resultado de “uma química muito grande em estúdio” entre Surma, Russa e Luar

Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados

Em formato trio, Surma, Russa e Luar unem esforços pela primeira vez em “Skrape”, tema que aterrou hoje, dia 31 de Julho, na esfera digital pela mão da Omnichord Records.

O inesperado tem destas coisas. A ideia de juntar Russa e Surma na mesma faixa não terá, certamente, ocorrido a muita gente, não apenas devido à óbvia distancia sónica que tem separado as duas artistas, mas até pelo historial ao nível de colaborações que cada uma apresenta.

Mas aconteceu, e bem: a autora de Antwerpen passou um dia com a MC e o seu produtor Luar no âmbito de uma residência artística no Serra – Espaço Cultural, em Leiria, e o resultado é contagiante. “Skrape” é um daqueles sonhos pop atordoantes cujo guião é traçado por contornos de uma electrónica experimental que tem tanto de gélido como de nocivo. Nas rimas, Russa exibe todo o seu arsenal numa ofegante tentativa de sair das sombras e matar a fome.



Esta é a primeira vez que colaboras com um(a) rapper. Enquanto produtora, é o tipo de colaboração que gostarias de fazer mais no futuro?

[Surma] Sempre tive uma ligação muito próxima com a música rap, parecendo que não, está sempre muito presente no meu dia a dia! Comecei a estar mais próxima deste género quando comecei a explorar o trabalho de Beastie Boys, Jpegmafia, Little Simz, Kate Tempest, Slow J, Nerve, sempre tentei aprofundar o meu conhecimento no que toca ao rap cantado, ao spoken word, rap experimental, os artistas que referi deram-me essa iniciação e essa inspiração para observar e estudar o rap na sua pura essência! O liricismo, as histórias, o tipo de produção e a estética live sempre foram uma inspiração muito grande para mim! Adorava fazer mais colaborações como esta num futuro próximo e aprender a absorver mais desta cultura tão rica!

Este trabalho com a Russa é para ter continuidade? Parece existir aqui material para se fazer um projecto colaborativo contigo e com ela…

[Surma] Espero que sim, a falar por mim, espero que continue, não só, em termos de produção mas também tocarmos ao vivo e ter a oportunidade de experienciarmos mais coisas juntos! Aprendi imenso com a Russa e o Luar, criou-se uma amizade e uma química muito grande em estúdio! “Skrape” foi feita apenas num dia, trazia algumas ideias pré-feitas de casa, assim como eles traziam ideias pré-feitas no Serra, foi o tempo de chegar a estúdio e envolvermo-nos de tal maneira que, passadas duas horas, já tínhamos tanto material que não sabíamos em que sítio colocar na própria música! Se nos tivessem dado um mês a trabalhar juntos, ia sair um álbum, sem sombra de dúvida! Espero que esta amizade/colaboração continue por muito mais tempo!

Já conhecias o trabalho da Surma? Como é que foi trabalhar com ela e sair um bocado da tua zona de conforto?

[Russa] Quanto ao trabalho da Surma, eu já conhecia e respeitava bastante. Não posso considerar que trabalhar com ela tenha sido sair da zona de conforto porque eu sempre fiz colaborações, desde o início, com pessoal de outros géneros musicais e, mesmo a título pessoal, sempre escolhi instrumentais bastante diversificados. Então não foi propriamente sair da minha zona de conforto. No entanto, é sempre uma aprendizagem muito maior, trabalhar com artistas de outros géneros. Isso não posso negar.

Tens vontade de procurar mais este tipo de colaboração com nomes mais fora da esfera hip hop?

[Russa] Este tipo de colaborações é algo que eu sempre tentei encontrar. Sempre procurei fazer música com pessoal de outros géneros musicais, mesmo por causa disso que eu estava a referir. Acho que é uma aprendizagem muito maior e espero que, no futuro, surjam outras colaborações.

Fugindo à temática “Skrape” e indo até aos tempos que vivemos: como é que reagiram a esta pandemia? Permitiu-vos trabalhar mais em novas músicas?

[Russa] Permitiu mas, no meu caso, como tive de trocar de casa, surgiram outras questões a nível pessoal. O meu espaço pessoal tornou-se zero e, então, a quantidade de coisas que eu habitualmente faria… Não me foi possível continuar a desenvolver com o meu ritmo normal. Ainda agora não o retomei. Por isso foi quase zero, mesmo. Foi péssimo em termos de produtividade, porque chegou a um ponto em que não tinha mesmo qualquer possibilidade de o fazer. Foi bom trabalhar com a Surma. Mesmo em tempo de pandemia é bom manter esse foco no trabalho. Pelo menos é um escape, não é? E, novamente, espero que surjam no futuro colaborações deste tipo. Mais vezes e com mais artistas. Porque eu acho que isso é muito importante para desenvolver a cultura em Portugal.

[Surma] Sempre tive uma rotina muito caseira, sempre trabalhei muito por casa, produzo em casa, trabalho nos e-mails em casa mas tinha essa vida de estrada que me proporcionava esse extra de sair de casa, para não falar, de que a estrada é o nosso sustento! Inicialmente, reagi normalmente tentando não pensar muito naquilo que iria surgir, mas, três semanas depois, estar fechada em casa o dia todo, concertos a serem cancelados todos os dias, amigos meus a passarem mal, já sem ordenado e sem forma de sustento possível, aí sim comecei a entrar um pouco em pânico e a tentar assimilar tudo aquilo que estava a acontecer! É assustador, e não podemos fazer nada para acalmar ou acabar com tudo isto! Pensei para mim mesma orientar trabalho, filmes e livros que já há muito tempo estava na gaveta e tentei concentrar as energias em áreas que sempre quis explorar mas que, essa mesma falta de tempo, não me possibilitava aprofundar esse mesmo conhecimento! Tentei manter a cabeça ocupada com tudo isso, o que acabou por ajudar bastante, e libertar-me o máximo possível e explorar todas outras áreas que me são tão queridas! Produzi imensa música e explorei instrumentos e materiais que nunca tinha explorado desta maneira! Agora, é esperar que tudo volte à “normalidade” e que tudo corra pelo melhor!


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